Nossa Senhora da Vaca Amarela
Redação DM
Publicado em 26 de agosto de 2016 às 01:59 | Atualizado há 1 anoA artista goiana Ana Smile, que recria personagens da cultura pop utilizando esculturas religiosas, volta a causar polêmica. Desta vez, a artista, junto com o Festival Vaca Amarela, criou a imagem de Maria Mãe de Jesus pintada de amarelo com pintas pretas para representar o festival Vaca Amarela.
Não demorou muito para que em evento criado em uma rede social chovesse de religiosos, católicos em grande maioria, para desferir indignação e insatisfação com a obra de arte da goiana. É indiscutível que a jogada de marketing foi boa, movimentou e trouxe visibilidade para o evento, seja bom ou ruim.
No começo do mês de maio, o juiz Abílio Wolvey havia proibido a artista de confeccionar e vender esculturas de santos católicos vestidos como personagens da cultura pop. E no começo do mês foi requerido pelo promotor Luiz Eduardo Barros um pedido de busca e apreensão na residência de Ana, onde foram apreendidas 12 esculturas. A decisão foi tema de debates e discussões, principalmente na internet.
Falta de respeito com a fé alheia, liberdade de expressão ou marketing? Segundo manifesto contra a censura artística da produtora do evento, Fósforo Cultural, o evento, este ano, busca reivindicar a liberdade de expressão artística e cultural, além da valorização da arte.
O jornalista Helvécio Cardoso diz, em um artigo publicado aqui no Diário da Manhã, que do ponto de vista de uma importante corrente cristã, o protestantismo, as imagens de santos, crucifixos e toda parafernália utilizada durante realização dos cultos católicos também são ofensas ao sentimento religioso deles.”A estátua do santo não tem poder algum, apesar de certo catolicismo popular acreditar nisso. A estátua é só uma representação da entidade espiritual, serve para evocar no fiel a memória, sempre veneranda, dos mártires da fé. Mas o culto aos santos não deixa de ser uma forma de politeísmo, algo que o Senhor também condena, e nisso temos que dar razão aos evangélicos”, acrescenta.
O manifesto contra a censura artística, feito pela produtora, diz que o poder da arte é transgredir, reler, libertar e modificar o objeto do seu significado. “Respeitamos TODAS as religiões, todas as formas de crença e de não crença, por isso não vemos problema algum em mixar uma santa, uma vaca, uma mulher em uma mesma obra. Entre a santa e a vaca, entre o sagrado e o profano, habita a mulher.Livre, louca, independente e empoderada”, diz o manifesto.
A censura da expressão artística começou pela Arquidiocese de Goiânia, que alega que a artista “extrapolou, deliberadamente o seu direito constitucional de livre manifestação de pensamento, ferindo também o direito constitucional da Igreja Católica de inviolabilidade de consciência e de crença”. No entanto, segundo o também advogado Helvécio Cardoso, a menos que tenham mudado nos últimos dias a Constituição, alterando cláusula pétrea, não há, no texto legal, nenhum limite à liberdade de expressão de pensamento. “Se não há limite, não há o que ser extrapolado. O texto constitucional, a este respeito, é incisivo, direto, categórico, não admitindo outra interpretação que não a literal. A úncia restrição, se podemos assim definir, é a vedação do anonimato, o que não vem ao caso”.
Na tentativa de censurar o evento e as obras de Ana Smile, diversos grupos se reúnem para tentar fazer com que o evento não aconteça e que a página seja retirada do ar. “Diante do escárnio e total falta de respeito à fé alheia, pedimos que denunciem a página do Festival Vaca Amarela. Vamos denunciar até cair, não vamos ficar quietos enquanto esse tipo de coisa acontece. Católicos Unidos!”, escreve um internauta que luta pela queda do evento.
