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Redação DM

Publicado em 25 de agosto de 2016 às 02:11 | Atualizado há 10 anos

Ainda sobre o virtual impeachment da presidente Dilma é necessário considerar algo da mais alta importância: o MPF, a assessoria técnica do Senado, o medonho Gilmar Mendes e a própria oposição já afirmaram de que não há crime. Mesmo Temer foi incisivo em dizer que o julgamento de Roussef é político e que, de fato, não existe qualquer denuncia real contra a Presidente do Brasil mas ainda assim em evidente processo kafkiano, surreal, a Presidente segue para sua destituição.

De fato, se trata de uma injustiça de repercussões e dimensões históricas. Mesmo com tais características, não nos tocamos, não nos importamos e seguimos indiferentes ao que se passa. Pergunto: Isso é correto? Esse deve ser o comportamento de pessoas justas e decentes? Devemos ser movidos pela cegueira política de tal ordem que valores como justiça, retidão e honestidade devem desaparecer de nossas análises? É isso mesmo?

Aprendi com velho amigo moçambicano que sempre dizia que: “é preferível que se torne um culpado, inocente; a tornar um inocente, culpado”. Sou dessa opinião.

A destituição de Dilma é vitória de Pirro! Sem vencedores, sem êxitos ou glórias e onde o grande perdedor, de longe, é a população brasileira mais pobre, os trabalhadores e milhões de homens e mulheres deste país e empobrecidos por uma sistemática social e econômica que secularmente contempla ricos, brancos e bem-nascidos e sacrifica a ampla multidão de negros, caboclos, campesinos, gente do norte, nordeste, favelados, periféricos e guetos deste país afundado nos piores padrões de desigualdade do planeta.

O golpe paraguaio imposto ao governo de Dilma Roussef joga por terra o mito da consolidação democrática brasileira. O parlatório de que nossas instituições estavam consolidadas e imunes aos aventureirismos anti-democráticos virou poeira. Puro mito, mera propaganda oficiosa.

A tese é que, de fato, não é possível realizar a democracia enquanto dois terços da população for analfabeta; enquanto não garantirmos três refeições diárias para todos os brasileiros; enquanto moradia com privada, coleta de lixo e esgotamento sanitário for privilégio de miúdos quinze por cento dos brasileiros; enquanto ainda tivermos escravidão nos canaviais de São Paulo ou nas fazendas do Pará.

A maioria brasileira mergulhada na torpeza virulenta de um cotidiano de desempregos, subempregos, trabalhos precários, violência institucional e simbólica e muita indiferença social tende, a partir desse quadro, a relativizar a tragédia da política. É o mal que justifica o mal. É um sistema de pecados e infortúnios que se retroalimenta, ou seja, é mais ou menos assim, “a política institucional não nos vê e não vemos a política institucional”.

Então, aceitamos ou não, temos essa democracia manca, caolha e míope. Onde ministros do STF são cínicos e empolgados militantes políticos, juízes de primeira instância, em patéticos surtos messiânicos, rasgam leis de conduta, códigos de ética e de postura e, sob câmeras de TV, se lançam como se estivessem a parir uma nova nação. Finalmente, sejamos sinceros… Democracia com uma direita dessas é conversa pra boi dormir. É proposito impossível de se efetivar.

Pela democracia… Fora Temer!

 

(Ângelo Cavalcante, economista e professor da Universidade Estadual de Goiás (UEG), campus Itumbiara)

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