Brasil

Todos os espaços são iguais

Redação DM

Publicado em 23 de agosto de 2016 às 02:19 | Atualizado há 10 anos

Há distâncias quilométricas que somem num abrir de olhos,

em espaços intransponíveis cheios de invenções geométricas.

Há encruzilhadas da infância em caminhos de formigas,

onde os deuses são visíveis conduzindo seus segredos.

E há pássaros guerreiros que lutam ao por-do-sol,

simbolizando em sangue a angústia dos horizontes.

Há paisagens intransferíveis, quer por palavras ou cores,

dentro de uns olhos fechados, sonâmbulos e sonhadores.

 

PRIMEIRA RELAÇÃO

Talvez a primeira relação estabelecida pelo ser humano ao nascer, seja com o espaço. O feto sai do escuro mundo interior do útero para o colorido mundo exterior da luz. Então o neonato começa a descobrir os objetos, as formas e as cores. E não tarda a manifestar suas opções de escolhas. Primeiro tem que satisfazer seu próprio eu para confirmar sua individualidade. Depois, tem que descobrir a relação eu-tu no ser do outro. E assim descobrirá sua identidade social. Afinal vem o processo de integração eu-outro, ou de possível desintegração se frustrada a relação eu-tu. Disso resultará sua harmonia (ou desarmonia) com o existente em conjunto.

 

SEGUNDA RELAÇÃO

A segunda relação estabelecida é com o tempo. O ser humano entra numa escala de correspondência do mundo individual com o mundo social e do mundo físico com o metafísico, para ficarmos apenas nessas duas dimensões. As suas ações ou atitudes subsequentes serão desenvolvidas nessa relação tempo/espaço, conforme as necessidades ou expectativas de cada um, é claro, sem contar as influências internas ou externas que poderão determinar novas formas comportamentais do indivíduo que saíu do útero original para o da caverna natural do mundo.

 

A DESCOBERTA

É na relação com o espaço/tempo que exercitamos nosso olhar para a descoberta do mundo. Seja do espaço individual ou social, seja apenas do espaço imaginado poeticamente. Surge a relação com as entidades abstratas. Durante toda a nossa existência passamos a comparar e reavaliar nossos espaços da infância, da juventude, da maturidade. A impressão é de que eles diminuem à proporção que avançamos no tempo. Nossos entes familiares que pareciam gigantes, vão se tornando diminutos. Nossas paisagens da infância que pareciam infinitas, vão se limitando ao tamanho de uma fotografia.

 

AS BUSCAS

Na nossa peregrinação existencial vamos descobrindo outros espaços em outros lugares por onde andamos à busca de nós mesmos. Há aqueles que nos dão a impressão de ali termos vivido, num quando e como já não lembramos. Há desses espaços reveladores de nossos primeiros deslumbramentos e outros que por vezes nos abrem simbólicas cortinas, que parecem mostrar-nos o mundo do futuro. Há enfim espaços contemplativos de paisagens nunca vistas e que só visitamos em sonhos nas nossas incursões cósmicas.

 

A SÍNTESE

O que parece a síntese da vida é quando, já recolhidos em nosso espaço doméstico (como de volta ao útero), queremos ver o mundo lá fora (como da descoberta da luz) e então vamos à nossa janela solitária e percebemos uma paisagem urbana indiferente às nossas indagações. Como a dizer que todos os espaços são iguais – “em Nice, em Lisboa, na Itália famosa” –  como diz a nostálgica canção Noites Goianas. E parece que não mais pertencemos ao cenário deste mundo. Em retrospecção, percebemos que o mundo, sua largueza cabe numa rua. Que o tempo, sua história termina em nossos passos. Que as imagens secretas se escondem em nossos olhos. E as palavras já ditas voltam aos nossos lábios. E um pássaro de vento pousa em nossas mãos.

 

(Emílio Vieira, professor universitário, advogado e escritor, membro da Academia Goiana de Letras, da União Brasileira de Escritores de Goiás e da Associação Goiana de Imprensa. E-mail: [email protected])

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