Brasil

Propaganda enganosa sempre existiu nas eleições

Redação DM

Publicado em 20 de agosto de 2016 às 02:41 | Atualizado há 10 anos

Quando vêm chegando as eleições, vêm à mente aquelas sengracezas daquela “Lei Falcão”, da época da ditadura (a militar, não a do PT) que felizmente caiu no esquecimento. Foi aquela lei que limitava a propaganda às exibição do retrato do candidato, enquanto se mencionava a quantidade de “ex-isto e ex-aquilo” de atividades desempenhadas pelo postulante ao cargo.

Seu advento gerou polêmicos debates e teve o condão de desagradar a gregos e troianos, principalmente nós, eleitores, que não tínhamos nada com a coisa e éramos os mais prejudicados com a medida governista. Se por um lado, a “Lei Falcão” teve seu tanto de bom ao erradicar dos estúdios, subvencionados pelos partidos, debates e brigas inusitadas, que muitas vezes quase chegavam aos tapas, por outro fazia da programação normal da TV uma verdadeira fragmentação, com interrupções sem prévio aviso no momento em que o herói ia beijar a mocinha apaixonada ou no instante em que o pênalti ia ser batido. Quando se restaurava a programação, não se sabia mais por que a mocinha ia ser beijada nem o jogador que havia cobrado a penalidade máxima.

A paciência do telespectador começava a ansiar por um calo, para suportar com certa insensibilidade aquele momento em que uma voz empostada jogava uma ducha fria no interesse do telespectador: “Interrompemos nossa programação para a apresentação do horário gratuito do TRE”.

Durante longos e arrastados minutos, desfilava diante da gente uma legião de sisudos artistas, que não se mexiam, não conversavam, nem mesmo piscavam, compenetrados, com a voz de mestre-de-cerimônias, relacionando suas qualidades para nós, pobres inocentes, que pouco estávamos ligando para o que tivessem sido.

Mas, de certa forma, propiciava-nos momentos de humor, com a lista de qualificações, dentre as quais gozava de especial preferência a dos “ex-isto”, “ex-aquilo”, além de outras qualificações sem dúvida raras: pai de cinco filhos, trabalhador braçal, filho sem pai, motorista de lotação, barranqueiro do São Francisco, e por aí afora.

E nesse trabalho diário e constante, até os meninos já identificavam o bicho que aparecia:

– Olhe lá o que é massagista do meu time!

O certo é que diante de tão importantes e mudos personagens, todo mundo tecia comentários e fazia as mais variadas chacotas.

Um fato, no entanto, causou espécie durante todo o período em que se fez propaganda: os candidatos esmeravam-se em poses, uns saíam de braços abertos, como que para abraçar uma vitória que não vinha; outros, de cara ruim, talvez pensando: “Em que fria entrei, meu Deus do Céu!”; outros, de cara feia, menos pelos pensamentos derrotistas na hora da foto, mas devido à feiúra mesmo; e o fato intrigante foi o aparecimento, lá em Belo Horizonte, de um candidato reconhecido apenas pelo nome e pelo número de registro no TRE, pois sua cara não aparecia na telinha: “Para deputado estadual, dê seu voto ao professor Mário de Oliveira”.

Existia lá, de fato, o popular prof. Mário de Oliveira, uma espécie de vereador Boaventura na Vila Nova de Goiânia, de tão conhecido e respeitadíssimo nos meios acadêmicos. E todos estranhavam a omissão de sua foto.

E o martelar da propaganda, pedindo secamente: “Dê seu voto ao professor Mário de Oliveira”, sem a menção a outras especialidades e a suas inegáveis qualidades, e, ainda por cima, sem a foto, causou espécie, pois ninguém o soubera político, mas dono de concorrido cursinho preparatório.

Passada a eleição, o “professor Mário de Oliveira” quase foi eleito, ficando, se não me trai a memória, numa suplência, com chances de ocupar uma cadeira, com o possível aproveitamento de um deputado num cargo de confiança do governo.

Depois é que se deslindou o mistério: estava explicado tudo. A ausência da foto era porque o “professor Mário de Oliveira” candidato era um senhor lá qualquer, de pele exatamente oposta à brancura do outro, e de cultura também diametralmente oposta, pois mal saíra do grupo escolar, se tanto. Só num aspecto coincidia: era professor… de datilografia.

Na sombra do outro, quase chegou lá. Se tivesse vingado a eleição, certamente teríamos um dos mais espertos tribunos defendendo o povo, só que sem poder usar a sombra de alguém para poder aparecer.

 

(Liberato Póvoa, desembargador aposentado do TJ-TO, membro-fundador da Academia Tocantinense de Letras e da Academia  Dianopolina de Letras, escritor, jurista, historiador e advogado, [email protected])

 

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