Em recuperação
Redação DM
Publicado em 19 de agosto de 2016 às 02:40 | Atualizado há 10 anos– Levei uma bicuda da Amanda.
– No duro?
– No duro.
– Mas ela não arrastava o toba por você no asfalto?
– Pelo jeito não era bem assim. Foi doído, velho. Ela nem alisou. Basicamente pediu para que eu me inclinasse. Meteu o pé sem piedade alguma.
– Ela te pegou no flagra…
– Não, cara. Quando namoro, de verdade, não pulo a cerca.
– Sério?
– Sério.
– Por quê?
– Não é por falta de vontade, confesso. Mulher é um bicho danado. Parece que, quando a gente namora outra, o trem fica atentando. Manda bilhetinho. Olha rapidamente e abaixa a cabeça. Conversa mexendo nos cabelos. Aqueles gestos corporais abertos, de quem tá querendo. Mas não faço nada.
– Como assim?
– E o medo de ser pego com a mão na cumbuca? Nem é porque não quero. Há moças ajeitadas demais por aí, facilitando com o perigo. Pensar no constrangimento de ser descoberto com o pé em outro estribo já me dá um apuro danado.
– Compreendo.
– Parece que ela não tinha o mesmo receio.
– Ela lhe traiu?
– Disse-me que não. Mas parece havia um sujeito no serviço que a rodeava. A Amanda contou que não queria pular a cerca, que eu era um bom rapaz. Bom, o cacete! Se o fosse, não me deixaria.
– Pensei que você fosse casar com a Amanda.
– Também considerei a possibilidade. A gente se habitua à rotina. Mas deu errado. Mulheres são osso purinho. Acham que são cheias de sentimentos e o escambau. São nada. A Amanda nem se deu ao trabalho de me dar uma última aduladinha.
– Não?
– Não. Veio com uma tal de DR.
– O que diabos é isso?
– Disseram-me que era “discutir a relação”. Não sei qual a utilidade desse troço. Para que mexer no que vai bem? Eu não enchia o saco dela; apenas queria o mesmo tratamento. Por mim, bastava estar junto sem esse negócio de mostra de cinema francês ou apresentação de balé ou degustação daqueles troços servidos em palitinho, que nem dão para tapar o buraco do dente.
– Em resumo, frescura.
– Exatamente. Para que ficar papeando e estragar o momento? Por mim, bastava que ficasse pelada ao meu lado o tempo todo. Nem precisava falar. Mas aí a gente tem que ficar conversando, perguntando sobre como foi o dia, reparando roupas novas, essas coisas. Como iria saber que comprou um vestido novo? Não sou estilista, pô.
– Você está certo.
– Faltava ação no namoro, cara. Quando rolava era bom demais.
– Sabe o que fazer agora?
– Não quero fazer nada.
– Assim é que não pode ficar.
– Eu sei. Preciso sarar da Amanda. Talvez seja o caso de dar tiro para todos os lados. O que você pensa sobre isso?
– Quando a gente leva um pé na bunda, o remédio é simples.
– Virou curandeiro agora? Tem cura para um toco desses?
– Então, velho, siga a regra: pegar tudo o que se mexer.
– Como assim?
– Aprenda comigo. Já levei na fuça mais ou menos no mesmo grau. A única certeza que se pode ter é a dor do tombo. Mas a gente se levanta. Um dia sara.
– O que faço, então?
– Basta cair na munha mais grossa e encardida possível. Qualquer garfada que vier agora já o deixa no lucro. É só para quebrar a presença dela. Um passo de cada vez. Agora, o importante é sentir outra mulher sem firmar relacionamento imediato.
– O que preciso fazer?
– Não se preocupe com o tipo do trem que vai te atropelar. A regra é clara: fez xixi agachado e não é sapo, vai para o papo.
(Victor Hugo Lopes, jornalista)