Crédito espiritual
Redação DM
Publicado em 11 de agosto de 2016 às 04:19 | Atualizado há 10 anosAntes de 1952, eu conhecia padre quando um chegava lá pelo ser¬tão para rezar a missa de São José, o padroeiro, no dia 19 de março. Nessa oportunidade, eram feitos casamentos e batizados. O padre, que variava (uma vez, era o finado padre Faustino; outra, o padre José Klauss), era disputado como hóspede pelos grandes do lugar, que tinham na igreja uma coisa de outro mundo, e levar um padre para casa represen¬tava uma indulgência que equivalia a salvar a alma.
Um dia do ano de 52, deram na gente um banho mais caprichado, vestiram-nos a farda de cáqui da escola de tia Diana e colocaram-nos em fila ao longo da rua principal: íamos receber o primeiro padre, que inauguraria a paróquia. Era o padre Magalhães, que tanta influência teve na formação da juven¬tude de minha cidade, mais na condição de educador do que na de padre mesmo, pois viera de Belo Horizonte, onde recebera excepcional forma¬ção no seminário. E com o mesmo entusiasmo com que recebeu os ensi¬namentos de grego, hebraico, latim e teologia, tentou abrir nossas cabeças para jogar lá dentro coisas que não entendíamos e que soavam como do outro mundo.
Depois, inauguraram o Ginásio João d’Abreu, e chegaram as primeiras freiras da congregação das Escravas Concepcionis¬tas do Divino Coração, algumas das quais “importadas” diretamente da Espanha, trazendo arraigado o sentimento religioso e puritano do regime do Generalíssimo Franco, que era endeusado pelas freiras. Chegaram as madres Arán¬zazu, Belém, Glória, Anunciata e a única brasileira, a madre Consolata, que servia de intérprete. Era uma potiguar velhinha, piedosa e inocente como criança e que veio se constituir num símbolo da benevolência: como professora de inglês (por falta de alguém que soubesse rudimentos da língua) a madre Consolata jamais reprovou alguém: em compensação, a gente saía do gi¬násio sem saber conjugar nem mesmo o verbo “to be”. Também, pudera, pois a “cola” era livre, e às vezes a piedosa velhinha queria ajudar alguém que ia choroso para saber o que ia cair na prova, e a madre Consolata, inocentemente, dava todas as questões para ele “estudar e fazer boa prova, viu, meu filho?”. No dia da prova, aproveitando-se de que a madre tinha as vistas curtas, a turma em peso levava a prova respondida, pois até o papel almaço timbrado do ginásio era conseguido por baixo das cortinas.
A chegada das freiras foi durante muito tempo motivo de curiosi¬dade, quer pelo hábito preto e pesado, quer pelos costumes europeus, quer pelo falar castelhano, uma “conversa misturada e ligeira”, como o povo dizia. Vinha gente só pra escutar as freiras conversando.
Lembro-me de um dia, quando chegou um matuto para vender uma carga de lenha no ginásio (onde as freiras moravam) e enquanto a madre Consolata foi lá dentro apanhar o dinheiro para pagar o homem, ficou a madre Glória na saleta com ele. Ficaram calados, porque ela não sabia conversar em português, e quando o matuto falava alguma coisa ela se limitava a arregalar os olhos sem entender, ainda mais que o palavreado dele era cheio de “mode quê”, “isturdia”, “condafé”, “pondorô” e outras peculiaridades. Vendo-se sem resposta e reparando que a madre Glória se esforçava para entendê-lo, gungunando palavras esquisitas, o homem achou que devia pelo menos demons¬trar a ela que ele estava bem impressionado. E, querendo ser agradável, aproxima-se da religiosa e falou todo enfático, como se estivesse “aba-fando”:
– Eta diabinha danada de bonita!
Espantada estava, espantada continuou a madre Glória.
Na rua em frente do ginásio morava Olímpio, marido de Glória, ambos de cor negra. Vindas de um lugar onde preto era fruta rara, as freiras custaram a acreditar que eram gente. E foi um deus-nos-acuda quando apareceu à porta do Ginásio o Tonho, filho dos dois, que, com seus três ou quatro anos, andava pelado na rua (como os de sua idade). Foi um escândalo para as sisudas freiras, que ficaram muito tempo sem abrir a janela que dava para a rua de Olímpio.
Hoje, tudo se modernizou: o Estado encampou o ginásio, as freiras mudaram de hábito e de hábitos com a modernização da congregação, as antigas foram para a Espanha e a madre Consolata foi transferida para o Rio de Janeiro, onde passou seus derradeiros dias à sombra do Convento São Marcelo, que a congregação tinha na Gávea.
Belos tempos do colégio, quando tudo era mais gostoso! Inesquecíveis dias em que tínhamos que rezar o terço antes das aulas e a Ave Maria antes e depois de cada intervalo. No “Mês de Maria” (maio) e no “Mês do Rosário” (outubro) as doses eram triplicadas: em vez do terço, rezava-se o rosário (três terços) todo dia.
Hoje quase não rezo. Não por falta de tempo, mas porque o que rezei naquela época de Ginásio já me deu um crédito para muitos anos mais de heresia.
(Liberato Póvoa, desembargador aposentado do TJ-TO, membro-fundador da Academia Tocantinense de Letras e da Academia Dianopolina de Letras, escritor, jurista, historiador e advogado, [email protected])