Existe sorte sim
Redação DM
Publicado em 11 de agosto de 2016 às 04:19 | Atualizado há 10 anosEssa é uma discussão antiga. E vou entrar nela usando o meu próprio exemplo. Não busquei na estatística, não fiz nenhuma pesquisa, apenas me baseio em mim mesmo.
Não é por vaidade, até porque, em nada ela me move. Na vida não se deve ter vaidade, mas, sim, vontade. Pelo menos é o que penso, e procurei praticar. Mas a vaidade a que me refiro não é a da estética (essa, para mim, chega a ser uma besteira de tempo curto).
Que todos nascemos iguais, não se discute. As diferenças são estabelecidas por nós mesmos, por razões várias. Daí as discriminações, também por interesses diversos.
A inferioridade é coisa estabelecida pelo homem para que um se sobreponha ao outro, fato existente desde os primeiros habitantes da Terra. São as convenções que se encarregam dessa seletividade social, econômica, cultural e, uma das piores, racial, a que nos submetemos.
Tudo segue a ordem desconhecida das oportunidades. E estas são poucas para os muitos que as procuram, quais sejam, no dizer popular, os lugares ao sol. A questão é que ele não brilha para qualquer um, em que pese parecer que seus raios não deixam ninguém sem luz. Não fosse verdade, por que tantos lutam, lutam e não conseguem a tal realização pessoal.
Exatamente nesse ponto, afirmo, por convencimento próprio, que existe sorte sim. Em que base científica me apoio? Em nenhuma.
Vamos lá. Ao ser verdade que fiz dois cursos superiores, inúmeras pessoas também fizeram, e talvez com muito mais facilidade do que eu, mas não foram tão longe em conquistas como fui.
Filho de família não tradicional, meus pais eram pobres e trabalhavam com dificuldades para ter o mínimo para a sobrevivência. Estudar foi um luxo que os dois me deram, numa época em que, para ser gente, tinha-se que nascer em berço de ouro.
Tive sorte de estar nos lugares certos e nas horas certas. Apenas contribuí com a vontade, quando as oportunidades aproximaram. Não me faltou segurança para tomar decisões. Também, a sorte não anda sem um empurrãozinho.
(Iram Saraiva, ministro emérito do Tribunal de Contas da União)