Brasil

Um corpo suspenso no ar, quando Benício foi enterrado pelas metades

Redação DM

Publicado em 5 de agosto de 2016 às 02:21 | Atualizado há 10 anos

Em 1984, estava no meu escritório  lá no Duro, cuidando de problemas de leis na advocaciazinha de interior, quando fui surpreendido com a entrada de Nelson Quirino, folclórico vereador peemedebista de lá, com jeito de quem queria conversar comigo.

Mandei abancar, e ele se sentou em frente a minha mesa, coçando o queixo e, após consertar a goela, me fuzilou com uma afirmação, mais chegada a reprimenda:

– Doutor, o senhor tá misturando jornal com política!…

Ele se referia a uma crônica publicada dias antes aqui no Diário da Manhã, quando falei num crime de morte praticado por um primo de Nelson, Hortênsio. O acaso fizera com que o criminoso pertencesse a uma família peemedebista, e a vítima, a uma do PDS. E o fato de dizer que o assassinado era genro do pedessista notório, que era o “Seo” Artur, levou o amigo Nelson a pensar que eu estava usando aquele espaço para me ocupar de crítica. E crítica política.

Limitei-me a dizer a ele que meu objetivo não tinha sido o de fazer um confronto PDS x PMDB, pois jamais tratei disto. Tinha assuntos bem mais amenos para tratar. Mas – que ele ficasse bem tranquilo – se um dia eu pensasse em falar em política, não iria precisar meter causos pelo meio. Iria direto ao assunto, como sempre vou.

Nelson Quirino é um daqueles políticos encasquetados por uma eleição. Ele estava para a vereança como o finado Ulisses Guimarães estava para a presidência da República: em todas as eleições era candidato. E com uma vantagem para Nelson: sempre ficava na suplência. Coisas de eleições proporcionais.

Mas, serenadas as coisas e explicadas as diferenças de entendimento, ficamos batendo papo, que Nelson é daqueles camaradas com quem a gente proseia eito de tempo e às vezes o dia inteiro, dependendo de ter paciência para escutar sua voz mansa de palavras espaçadas, que demonstram ser ele pessoa calculista, que sempre fala depois de pesar as consequências.

E nessa meia hora de bate-papo descomprometido e gostoso, veio o caso ocorrido naqueles diinhas, que não deixava de ser interessante, que assim se deu:

Na Fazenda Descoberto, de Nelson, no município de Almas, a quatro léguas de Porto Alegre do Tocantins morava a família de Mateus Gonçalves de Santana. O filho dele-Mateus, Benício, rapaz forte, excelente nadador (pois vivia às margens do Manoel Alves Grande), de vez em quando dava uma coisa, assim como doidura, precisando ir para a corrente até passar a crise. Quando tinha suas crises, que às vezes demoravam a passar, Mateus acorrentava Benício, e para isso usava uma corrente de mais de dois metros, utilizada para atracar a canoa no porto. Durante o período de doidura – Nelson Quirino quem contou – Benício tomava-se de verdadeiro pavor de água, ele, que, quando são, gostava de nadar. E só tomava banho se levado à força, puxado pela corrente, e não eram dois mais quatro braços a força suficiente para a empreitada. Por outro lado, enquanto abominava a água, Benício parece que ficava era com fome pra cima de um cigarro, e pitava o tanto que encontrasse: se deixassem um rolo de fumo à mão, ele não deixaria um trisco nem pra fazer simonte; fumava tudinho.

Pois, bem, no dia 9 de maio da era de 82, estava ele acorrentado, quando Mateus pensou dar-lhe um banho. E, junto com outras pessoas, levaram o infeliz do Benício, sojigado pela corrente, até à beira do Manoel Alves, onde iriam submetê-lo a um asseio. Lá chegando, ele, estranhamente, falou com o pessoal que buscasse o sabão. Aquilo surpreendeu a todos, que, pensando ter Benício recuperado momentaneamente a sanidade mental, distraíram-se, do que se aproveitou Benício para atirar-se ao rio, com corrente e tudo, reaparecendo lá no meio do rio, boiando num remanso e conversando com os familiares cá da margem. Depois, sumiu.

Não muito distante dali, a cachoeira espumante descamba rio abaixo, cheia de degraus e com a água quebrando nas pontas de pedra.

Benício sumiu. Durante cinco dias, o povo o procurou debalde. No dia 13, avistaram-no no meio da cachoeira, dependurado pela corrente, balançando sob o véu das águas. Fora levado pela correnteza, e ao cair na cachoeira, a corrente engastalhara-se numa ponta de pedra, deixando seu corpo suspenso. Para tirá-lo dali, só de helicóptero, pois o local, apesar de visível, era inacessível por todos os meios.

No dia 16, ao meio-dia, os familiares foram rezar pelo sétimo-dia, num espetáculo de cortar o coração: todos à margem do Manoel Alves chorando, paradoxalmente, a ausência de alguém ali presente.

Muitos dias depois é que conseguiram resgatar o que restava do corpo de Benício: tiveram que lhe cortar as pernas, para poder ser desenganchado. E enterraram-no assim mesmo pelas metades.

 

(Liberato Póvoa, desembargador aposentado do TJ-TO, membro-fundador da Academia Tocantinense de Letras e da Academia Dianopolina de Letras, escritor, jurista, historiador e advogado. [email protected])

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