Brasil

Letícia Sabatella

Redação DM

Publicado em 5 de agosto de 2016 às 02:05 | Atualizado há 10 anos

“Ser livre é conseguir flutuar entre a diversidade e a multiplicidade, sem perder a própria identidade.”

Dimos Iksilara

 

Essa semana ela ficou no foco das atenções, porém, nosso assunto aqui é o encontro que tivemos com ela há pouco tempo, quando Letícia participou de um festival aqui em Goiânia. Letícia Sabatella como todos sabem é atriz tendo na sua carreira várias novelas como: Caminho das Índias, O Clone, Torre de Babel. Fez filmes, entre eles: Romance, Chico Xavier, Bela Donna. O que o grande público talvez não saiba é que ela também é diretora e é justamente sobre o trabalho dela como diretora no filme “Hotxuá” foi a nossa conversa. O filme desde de 2012 roda o mundo, ele é um documentário sobre os índios Krahô, sua etnia vive no Tocantins. No documentário a figura central é o Hotxuá um palhaço sagrado, que tem a função de levar alegria no cotidiano da tribo e também deve manter a união da mesma.

Atriz, diretora e roteirista, como foi acontecendo essas etapas? – Letícia Sabatella: “Ai meu Deus! Quando aconteceu cada etapa… Tem uma coisa de necessidade de se expressar, descobrindo as portas, as vezes também no caso de dirigir o documentário é porque eu sou atriz; me interessa a cultura indígena como um todo e como obra, arte, como pesquisadora de arte. Dirigir o documentário sobre o palhaço sagrado da tribo e participar, juntar o lúmen da fogueira com o lúmen do cinema, sabe, fazer essa ponte, da fogueira, do palhaço que se apresenta em torno dessa luz da fogueira e que vai para a luz do cinema, foi a conclusão de uma formação. Uma formação de atriz, de faculdade, como se fosse uma pós-graduação. Foi uma pesquisa e foi uma experiência empírica, experiência vital, onde eu descobri modos de mantricos, de repetição, de ensaio, de preparação, de estar preparado para inspiração sabe, foi um aprendizado imenso. A ideia de fazer esse documentário era em cima dessa pesquisa, do palhaço sagrado da tribo, função do palhaço na sociedade, do ator, que é tão importante quanto o cacique, quanto o pajé.”

É interessante que o palhaço sagrado está presente em todos os momentos da tribo. – Letícia Sabatella: “É… O Hotxuá tem essa coisa no cotidiano de mante as pessoas, atenção do bem estar da aldeia e no ritual da festa da fertilidade ele é esse agente sagrado que coroa a festa com alegria com riso, que transcende todas as dificuldades e também brinca né, ridiculariza todos os poderes supremos, né. É muito importante. Enfim, acho que todas as formas de expressão da arte; o canto, a música, são coisas que a gente tem como formação e o trabalho mesmo de fazer esse filme, ele surgiu como uma vontade de ajudar, de dar uma força. Eles me pediram para fazer alguma coisa junto com a recuperação das sementes antigas e a gente ajudou, porque o Hotxuá vem das sementes, vem do cultivo da agricultura. O filme já foi para França, Bélgica, foi para vários festivais, no Brasil já foi homenageado em Tiradentes, participou de mostras, fez um circuito de arte.”

Participou da nossa conversa o Ahprac, que é o Hotxuá dos Krahô. Como é expor o trabalho do Hotxuá na tribo e como é expor para o mundo, como lidar como essa exposição? – Ahprac: “Muito bem, aqui é o seguinte, assim quando a gente começou, dos primeiros, né, dos mais velhos, que era o palhaço de primeira, não importava com correr atrás do que tinha mandado o primeiro, mas como que a gente pegou,  mode eu fazer esse ritual dentro dos Krahô, com isso eu fiquei pensando em como que eu ia ficar, esse trabalho meu assim, ou fora ou pra mim? De primeiro parece que era jogado assim, igual você pegar uma folha e jogar no mato. Então eu corri muito atrás, pensando nessas coisas que a gente precisa, aí eu cheguei na aldeia, mostrei para minha comunidade, olha esse é o trabalho que a gente fez dentro da aldeia, junto com minha amiga a Letícia, por isso nós estamos aqui; como que eu sou palhaço sagrado dentro da comunidade Krahô, então, tenho que fazer isso sempre toda vida.”

Ele também comentou a importância de preservar a cultura e colocar as crianças em contato com essa tradição, caso contrário não poderemos manter isso no futuro.

Letícia Sabatella: “Ele representa muito bem, ele brinca, ele traz o espirito da aldeia e faz sempre um convite generoso assim, para uma festividade que tem na aldeia, festa da fertilidade, é muito bacana ir à aldeia, ainda mais o cerrado, ele é um jardim a cultura é muito bonita. Estando lá você experimenta realmente uma coisa muito bonita, muito incomum, o próprio canto que dura dias, não o tempo de uma peça de teatro, é o tempo de um ritual, ele faz parte de um ritual.”

Qual foi o impacto que teve na sua vida participar da criação desse documentário? – Letícia Sabatella: “Olha a gente foi aprendendo ao longo desse processo, teve a recuperação das sementes antigas que eles tinham perdido, sementes adaptadas ao cerrado, porque o Hotxuá nasce da agricultura e era um ritual que estava acabando, tem uma geração de jovens que não se interessavam, se interessavam por outros atrativos da cidade, até mesmo a bebida, mas o exercício, o resgaste e a alta estima, você dizer isso é muito legal: olha nós nos interessamos por isso, é uma riqueza que vocês têm, deixa a gente conhecer o Hotxuá, ele é uma preciosidade, ele é uma liderança e o Ahprac representa muito bem essa função de liderança e de ser um Hotxuá, então, isso deu uma força, claro que não o suficiente para resolver todos os problemas, mas de algum modo foi o caminho de dizer olha podemos ter esperança na recuperação dessa autoestima, dessa força que eles têm. Eles sabem a cultura que eles têm como boa, mas, são muito ameaçados por várias coisas.”

Hoje também o medo dessa interferência na tribo, você vai lá e pode fazer uma mudança, pois, você leva informação e quer levar a seu modo de olhar para eles. – Letícia Sabatella: “É… O cuidado é muito importante, a informação e a troca cultural para uma cultura se manter viva, e para lidar com as influências inconscientes que chegam. Uma coisa é você receber o açúcar na sexta básica, ou aprender que o açúcar é bom, comer coisas com açúcar, mas, sem ter a informação que escovar o dente é necessário, né? Então, você tem que ter essa informação, isso vai te mudar. Agora é muito importante evitar esse açúcar, também ensinar que isso não é tão bom. Eles têm uma cultura para sobreviver à muitas coisas, mas, nosso sistema é muito desastroso, muitas vezes, no que se refere a fortalecer essa cultura e buscar soluções dentro dessa força, nós muitas vezes massacramos culturalmente, massacramos com uma visão de Brasil mais relacionado a outros centros, nunca a esse interior essencial, a gente massacra literalmente de assassinatos históricos que conhecemos e contra partida a gente traz muitas vezes uma cruz. Agora você ficou deprimido, estava bebendo muito, então, em vez de resolver essa questão dentro do sistema, um sistema que os reconheça mais, a gente traz a eles uma outra evangelização, isso é muito delicado, nada contra as pessoas terem suas religiões, mas, nada contra os Krahô terem a sua cultura fortalecida e a sua prática, seu relacionamento com Deus fortalecido com todo intercâmbio que possa ser. Isso me preocupa, ah vou te dar uma coisa que vai ajudar você a superarem o alcoolismo da tribo através da minha religião. Eu acho isso muito do Dalai Lama como líder espiritual quando ele fala, não mude sua religião, você vai ter muitos problemas com isso e vai gerar muitos problemas na sua cultura, o importante que você pode aprender com a minha cultura, mas, reconheça na sua mesma elementos que são parecidos ou que você gostar aqui. Se você já tem essa cultura, não precisa mudar, fortaleça ela na sua essência, descubra que o primeiro preceito é a compaixão, é o que vocês experimenta de tudo; a religiosidade, essas práticas morais e éticas da cultura vem depois, você aprende elas ao longo da vida, mas, primeiro se você experimenta compaixão, é acolhido com compaixão, essa é a tua guia para a espiritualidade, então, é muito bacana esse reconhecimento essa troca. Eles têm um festival de palhaço com os palhaços sagrados, isso é muito bom, não só aquilo que você absorve que vem numa televisão numa cultura de massa, mas, aquilo que existe, existe tribos, essa cultura universal do riso do palhaço, do humor e que eles também, do jeito deles à moda Krahô corroboram e exercitam, olha que bacana, somos parecidos, diferentes somos semelhantes. Esse respeito à diversidade e assim, que Deus nos livre de toda mono cultura, que a gente respeite a diversidade cultural em todos aspectos.”

Respeitar a diversidade com integridade e responsabilidade e também manter a nossa identidade. Tenho certeza que vamos conseguir.

 

(Edson Barbosa, escritor, fotógrafo, educador, produtor cultural, articulista do Diário da Manhã, editor geral do Portal Santa Dica, diretor da EBN Produções Artí[email protected])

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