Brasil

A decadência da música

Redação DM

Publicado em 3 de agosto de 2016 às 03:09 | Atualizado há 10 anos

“Eu prefiro ser aquela metamorfose ambulante, do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo.”

(Raul Seixas)

 

Músico, desde a década de1970, ou os anos de chumbo, em São Paulo, fiz do tempo melodia, e, das minhas histórias, composições que expressam a vida em alguns de seus infinitos matizes, de doce, e, também de sal.

Inquieto e exigente no quesito da qualidade musical cantei junto ao único e saudoso Os Pholhas , e , na mídia televisada participei em programas com Barros de Alencar. Sigo fiel à boa musica, ao teatro de impacto, às contravenções da pintura, tocado pela arte de rua e mamulengos de toda sorte capazes de provocar e causar diferentes áreas culturais, únicas e referenciais para o mundo, a partir de nosso País.

Tenho como um dos meus ofícios apresentações musicais que realizo, semanalmente, nos mais variados e seletos locais destinados à boa comida e fomentadores da boa música na cidade metrópole em que vai se tornando Goiânia. Faço cover de artistas renomados da janela musical brasileira, nomes de peso, reconhecidos nos quatro cantos do País tais como o paraibano Zé Ramalho, o cearense Fagner, Alceu, Belchior, o mundialmente famoso Tim Maia, além de muito Flashback em diversos idiomas retratados na boa música a partir da Era do Rock and  Roll, nos Anos de Ouro, a partir de 1950, até os dias atuais.

Mas entendo que a decadência, há tempos, bate às portas da área cultural, e, com bastante veemência. Tudo aquilo que foi designado cultura, um dia, e, num passado bem próximo, apresenta-se, nos dias atuais, motivo para graçar mais uma música que entristece o bom senso. Sempre  desconfiei de canções levadas ao ar, o dia todo, expostas na entrada de lojas destinadas a badulaques de R$1,99. Ao bem da verdade, nos anos 70 , não existia, ainda e para o bem cultural da Nação, estes prepostos de plástico processado, chinês, disposto no mercado efêmero de fetiches capitalistas mundializados. Mas havia sim algumas similares, e, foi justamente numa delas que ouvi, pela primeira vez, “Menina Veneno” do velho e bom inglês mister Ritchie, numa rua do centro da capital de São Paulo.

Vejo que mesmo as músicas tal e qual as lojas populares, à época ainda eram melhores que aquelas encontradas, hoje, no mercado souvenir. E o que falar das rádios, heim! Numa delas, ouvi pela primeira vez, a gloriosa canção “Sultans of Swing”, do aclamado Dire Straits, Creio que seria necessário um livro, de, no mínimo umas cinco mil páginas, destinado a comentar sobre cada uma das boas bandas já apresentadas, assim como cada cantor e cantora, músico ou poeta musical destacados entre 1960 , 70 e 80, e, mesmo assim, não seria possível aprofundar este comentário.

Trazendo à tona desta história os ingleses Beatles, Rolling Stones, Led Zeppelin, Creedence Clearwater Revival, Bee Gees e ainda Deep Purple, os americanos Bob Dylan, Neil Young, Van Morrison, aliados ao seleto grupo “made in Brazil” representado por Zé Ramalho e Fagner, Alceu Valença e Raul Seixas, Tim Maia e Belchior, os reis Roberto Carlos e Erasmo Carlos, o erudito Chico Buarque, Hyldon, Ednardo e mais uma infinidade de joias da música mundial, todos tinham algo que acabou, lá pelos idos 1990, ou seja, a personalidade musical sepultada, definitivamente. Então chegaram os anos dois mil, e, com eles, um monte de “músicas e artistas iguais”.

O prazer ou desprazer em ouvir as rádios ,iguais ,aos programas de TV, iguais, torcer por times de futebol, que são iguais, aguentar os políticos honestos tal qual ratos, que também são bastante iguais, a cantores, cantoras e bandas, iguais em tudo, espalhados pelo mundo, é uma chatice sem tamanho, não tem igual. Na mídia aparece um Justin Bieber, uma Lady Gaga, e, não demora, aparecem 800 deles, iguais em tudo. Ou surge mais uma dupla “Sertaneja Universitária”, e, daí, três mil delas, iguais, e, espalhadas pelo País.

A que estado de pobreza a cultura tupiniquim alcançou. E que tamanho a riqueza ( financeira ) incontável desses “artistas”. Há muito não existe a convivência musical embasada na qualidade, com a qual ouvia-se o Rock, o Folk , a Música Popular Brasileira (MPB), o Reggae, o Forró, o Psicodélico, Blues, Rock and Roll, música Latina, Francesa, Italiana, Country, Ska  dentre outros estilos, a maioria, em alto nível. E, hoje, o que se ouve? Sertanejo Universitário ou o Forró/Axé Universitário, daquele que nunca foi à escola. O Funk Carioca e ainda o fraco Pop e o  Rock Internacional.

Que tamanha decadência! Poderia até entrar, aqui, na parte técnica da música e pedir ajuda aos competentes amigos profissionais, no entanto desnecessário. Os verdadeiros culpados por estarmos nesse ponto, atolados até os ouvidos, são muitos, e,  divididos em gravadoras e escolas, universidades e governos, pais e as pessoas ligadas ao rádio, à TV. Os artistas das gerações que criaram a fama da boa música, no Brasil e pelo mundo, acredito pertencerem, hoje, a uma geração e questão perdida, sem volta. E explicar a parcela de culpa de cada um deles, aqui, é fazer lembrar de uma entrevista antiga do contraditório Lobão (de quem não sou grande fã)  a revista Caros Amigos , quando ele disse: “ Fui na minha gravadora (?) e apresentei novas músicas,e a resposta foi: Lobão, são muito boas, mas não podemos gravar, o povo quer ouvir é merda!” O fato é pertinente a outras áreas culturais, infelizmente.

Não se trata apenas de gosto musical e sim da qualidade, independentemente de se gostar ou não de sertanejos antigos (de raiz, esses sim, verdadeiro sertanejos), incluindo Leandro e Leonardo , Zezé Di Camargo e Luciano,Christian e Ralf , Xitãozinho e Xororó ,  os quais produziam músicas as quais transbordavam sentimento e a cultura de um povo e sua Nação.

Mas os detentores do mercado destinado à manipulação de massa  queriam mais, e, nosso povo, levado pelo apelo de gravadoras e mídia, começou a assistir, e, não mais ouvir,  a música transformar, aos poucos, em mulheres e suas “boquinha da garrafa” ou “égua pocotó”. Até chegarmos aos dias atuais onde basta gritar “Ohhhhhh Paixão” para ter a “formação universitária” (não compreendo como isso passa ileso pelos reais universitários, o inusitado fato), ou ainda se apresentar com qualquer nome sugestivo como “Safadão”, assassinando uma cultura,antes rica, como a do Forró, ou entupir mentes juvenis com letras idiotas e pornográficas de apologia ao crime.É o bastante para virar mania e fazer de seus compositores, milionários! Enquanto isso, artistas tais como Eric Clapton, lançam belíssimos discos e outros mais simples e à espera por esta fatia do mercado na qual me incluo, continuam levando a boa música a bares, clubes,shoppings e residências, na cidade de Goiânia e mundo afora.

Este desabafo ou desagravo não se trata das questões de inveja e de estilos musicais favoritos. Afinal, inveja eu tenho sim e é das boas, ou seja, de mentes fabulosas como as de Chico Buarque e Zé Ramalho, Bob Dylan, só para citar algumas, o caso para mim é a formação cultural do jovem e sua escolha pelo descartável, com desprezo pela qualidade de letras e das muitas variáveis musicais , motivo que, por exemplo, a maioria dos “artistas” atuais freqüentadores das  mídias, soem rigorosamente iguais , que coisa chata e pobre ! , a décadas deixei de ter um único estilo musical favorito ,e passei a ter musicas favoritas,que são, as boas e as ótimas !

Que as notas musicais não caiam em nossas cabeças como tijolos e sim adentrem nossos ouvidos e alma!

 

(Silvio MR.POP, poeta, músico, cantor, avô e amante da boa música)

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