Pré-candidatos a prefeito e a falência dos políticos
Redação DM
Publicado em 3 de agosto de 2016 às 02:44 | Atualizado há 1 anoUma análise, ainda que superficial, em termos de performance das diversas pré-candidaturas a prefeito de Goiânia, levará inevitavelmente a uma conclusão: a categoria dos políticos está no fundo do poço. Trata-se de tema sobre o qual devem se debruçar cientistas políticos, jornalistas e estudiosos em geral. O que acontece em Goiânia por certo não é diferente do que se passa em todo o Brasil. E o assunto interessa à comunidade como um todo, porque o que está em jogo é nada menos que o presente e o futuro do País. As origens do deplorável quadro agora vivenciado podem ser diversas. É importante diagnosticá-las. Mais importante ainda será desenvolver um grande esforço para prescrever o remédio que leve à cura do mal. Tomando por exemplo o fenômeno que ocorre em Goiânia nesta fase de pré-campanha, é inevitável concluir que a capital dos goianos marcha inexoravelmente para mais um desastre administrativo. Salvo, se houver sorte, uma ou outra exceção.
Antes de falar de nomes creio importante uma ligeira digressão quanto às raízes do mal que, se comparado a um câncer, pode-se dizer generalizado. O tratamento terá que ser feito no corpo inteiro. De cima abaixo, mas, também, de baixo até em cima. A degeneração, que levou ao domínio, em especial do Congresso, pela banda podre, tem origem no eleitorado, que reclama, reclama, mas acaba, em percentual bastante significativo, votando em candidatos que não representam os legítimos interesses coletivos e às vezes nem os dos próprios eleitores que os sufragam. Muitos eleitores votam em candidatos com os quais não têm qualquer identificação. Isso poderia ser atenuado com a implantação do sistema distrital. Evitaria, por exemplo, que um deputado endinheirado, depois de uma atuação pífia, vá no pleito seguinte buscar votos numa região onde seja um ilustre desconhecido. Com o voto distrital, de caráter majoritário, a seleção de nomes levaria a uma melhor qualidade do eleito. Evitaria, de outra parte, um candidato eleger-se com os votos de outros do mesmo partido ou coligação, a exemplo do que acontece em decorrência de super votados, os conhecidos Russomanno e Tiririca e, no passado, Enéas.
Os mais de vinte anos de ditadura que sufocaram o País estariam nas raízes dessa falência da atividade política? É provável. Mas a ditadura se foi há mais de trinta anos e, mesmo na sua vigência despontaram lideranças como Ulysses Guimarães e Teotônio Vilela (este saído do Arena, o partido da ditadura, e que, numa espécie de estalo de Vieira, de repente revelou-se pronunciando um discurso libertário e desde então não parou mais, consagrando-se a ponto de ser tema de canção, denominada Menestrel das Alagoas, de grande sucesso). Então, se durante a ditadura isso aconteceu, porque agora, quando o Brasil desfruta de democracia plena, acharam de botar no lugar que um dia foi de Ulysses um tipo como Eduardo Cunha?
Turma da bala
Nesse contexto é que florescem os equívocos. E muitos buscam votos dizendo-se não políticos. Ora, se aquele que sente uma dor de dente vai ao odontólogo; se quem pretende construir uma casa busca contratar o melhor pedreiro, de preferência aquele promovido ao posto de mestre de obras, por que razão querer o não político para preencher um posto puramente político. Claro, o candidato que se declara não político está tão somente levando à prática uma estratégia, na tentativa de se livrar dos desgastes de que hoje em dia são alvos os políticos em geral. A ponto de gerar constrangimento e muitos políticos, que até poderiam contribuir para amenizar o quadro falimentar, optarem pela omissão. Buscam também o status de não políticos. Temem ser confundidos com farinha do mesmo saco. Qualquer análise, mesmo que superficial, das pré-candidaturas a prefeito de Goiânia com vistas ao pleito de dois de outubro próximo, fatalmente conduzirá à constatação de que os pretendentes, ainda que militantes políticos, têm dificuldade para alcançar um nível de identificação com a sociedade. Vejamos o que se passa com aquele que no momento está em primeiro lugar na preferência do eleitor, o deputado federal Waldir Soares (ex-PSDB, atual PR). Está claro que sua popularidade decorre do pavor das pessoas. A falta de segurança é problema que atinge a todos. Durante um único fim de semana mata-se mais em Goiânia que durante todo um ano no Japão, país de quase 150 milhões de habitantes. Os assassinatos tornaram-se tão banais que já não alcançam qualquer repercussão, ao contrário do que ocorre quando é abatida uma fera, a exemplo da onça morta recentemente dentro de um quartel na Amazônia, porque botou um militar em perigo, e cuja morte causou comoção nacional.
Não são conhecidos os projetos do deputado Waldir, o mais votado em 2014 (quase 300 mil votos), para o equacionamento de itens como transporte coletivo, educação, limpeza pública, pavimentação; na realidade, tirando sua pose na hora de ser fotografado, sequer são conhecidas suas demais ideias relativamente à própria segurança, assunto que interessa a todos, mas cuja condução está muito mais afeta a outras esferas de poder, a exemplo dos governos estaduais, que às prefeituras.
Perspicaz e antenado, Waldir bate na tecla certa. A falta de segurança afeta a todos, desde o bilionário ao morador de rua. A saúde, por exemplo, é problema restrito aos que estão enfermos.
Além de Waldir, o mais notório, há pelo menos dois outros pré-candidatos ligados profissionalmente à segurança pública. Os deputados estaduais major Araújo e a delegada Adriana Accorsi. Alguns já os denominam turma da bala. Se não é justa, a denominação pelo menos deixa clara a opção destes pré-candidatos pela caça de votos em nome do problema que afeta a todos. E prometem solução. O deputado major Araújo, por exemplo, chega a prometer a aplicação de boa parte de recursos municipais na compra de armas para serem distribuídas à população, uma espécie de bolsa família da segurança, só que destinada a pobres e ricos.
Identidade com o eleitor
Entre os nomes postos para a disputa em Goiânia, quase todos são políticos. A maioria (Giuseppe Vecci, Waldir Soares, Adriana Accorsi, Major Araújo, Francisco Júnior, Djalma Araújo) é composta por detentores de mandatos eletivos. Mas, em geral, falta-lhes interação com a comunidade. Vivência. Vecci, por exemplo, é visto pelo goianiense que o conhece mais como dono de faculdade que como político. Tem chance de ser eleito? Tem, como qualquer outro. Fazendo uma boa campanha, será possível. Mas, cabe uma ressalva, é improvável. Como a maioria dos demais nomes, ser candidato a prefeito de Goiânia ou de qualquer outra cidade goiana, daria na mesma. Ou seja: falta-lhes igualmente identificação com a comunidade goianiense a ponto de credenciá-los a pretender ser o prefeito. Vanderlan Cardoso, prefeito bem avaliado por duas vezes de Senador Canedo e duas vezes candidato a governador, tem grande potencial. Mas Vanderlan é o quê? Político, ou empresário. Ao que parece, a comunidade o vê sobretudo como o grande empresário bem sucedido que ele é. Outro caso de empresário bem sucedido é o de Luiz Bitencourt. Já foi deputado estadual, presidente da Assembleia Legislativa, duas vezes candidato a prefeito, numa delas pelo PMDB, e três vezes deputado federal. Toda a parte exitosa de sua carreira política deveu-se ao apoio de Iris Rezende, de quem se afastou tão logo seu protetor entrou em baixa. O quê teria feito por Goiânia durante os cerca de cinco anos em que esteve afastado da atividade política? Dos três mandatos de deputado federal sabe-se apenas que lutou, sem êxito, contra o horário de verão. No retorno à política, agora na condição de ser um rico empresário, declarou ao Jornal Opção considerar-se purificado, após cinco anos de quarentena. Algo muito próximo do que, na linguagem forense, costumam denominar réu confesso. E, carente de ideias e de projetos, passou a espinafrar seu antigo benfeitor, na esperança de que Iris lhe atribuísse importância e lhe contestasse, numa estratégia alpinista para subir nas pesquisas. Com Iris fora do páreo, agora critica o deputado Waldir, atualmente em primeiro lugar na preferência do eleitorado. Fosse Alexandre Magalhães o primeiro, seria este o atacado. Coisas da política exercida pelos que não são, na acepção da palavra, políticos.
Em meio a tudo isso, surge o candidato do Psol, professor Flávio Sofiati, com a melhor das intenções. Só que se exclui da cidade, ao invés de estender-lhe as mãos. A começar pelo lema da campanha: Se a cidade fosse nossa. Com o lema A Cidade é Nossa ou A Cidade é de Todos, talvez crescessem as possibilidades do professor Sofiati.
A cor dos cabelos
No PMDB pós-Iris, o desânimo é total. O presidente do Diretório Metropolitano, deputado estadual Bruno Peixoto, colocou seu nome à disposição do partido e até já adotou uma providência a seu ver fundamental: descoloriu e tirou os reflexos do cabelo. Sobre projetos para o futuro de Goiânia, nenhuma palavra. Há outros bons nomes de pretendentes à sucessão do prefeito Paulo Garcia, como o do vereador Djalma Araújo, da Rede, e o deputado estadual Francisco Júnior, do PSD, que no pleito anterior compôs, na condição de vice, a chapa encabeçada pelo deputado federal Jovair Arantes (PTB). Mas, como os prazos para as convenções homologatórias só se exaure no dia cinco deste mês, julgo prudente aguardá-lo. Até lá pode ser que haja composições e o número de pretendentes ao trono municipal diminua.
Como é fácil concluir, a atividade política está em baixa. E, muito a propósito, apareceu no Congresso um movimento que prega a proibição dessa atividade nas escolas, através de projeto que pretendem ver transformado em lei. Antes da ditadura, a política estudantil era intensa nas escolas e deu bons frutos, revelando muitos políticos. O mesmo pode ocorrer agora, quando a não-política ou a contrapolítica quer imperar, dando espaço ao vale tudo tão ao gosto dos marginais da política.

