A gastronomia posta à mesa entre versos e cores, caçarolas e paladar
Redação DM
Publicado em 28 de julho de 2016 às 22:28 | Atualizado há 1 anoEm sua grande maioria os encontros literários são pautados pelo toque mágico da culinária entre discursos de profissionais mesclados a incontáveis e tantos outros papos mais informais que discutem o forno e alcançam a mesa, não sem antes transcorrer entre o prazer e a rima. Esse ritual dá-se em todo o mundo.
Muito já foi dito sobre a gastronomia ser uma arte do paladar em forma de amor e poesia. Mesclados, viram estes dois conceitos ligados intimamente ao coração e ao desejo que satisfaz a gula da alma finalizam-se em forma de prato e prazer determinados pelo sabor. E nada faz esta retórica mais verdadeira que alguns nomes históricos de importantes personagens que imortalizaram esse idílio inevitável, verdadeiro entrelaçamento de ingredientes e palavras, métricas e aromas complexos ou não.
Nos versos da “Oração do Milho”, a poetisa mais doce de Goiás, meiga e eterna Cora Coralina, fala com o coração da simplicidade que é transformar-se no milagre da vida na morte, ou seja, de fazer da semente alimento e saciar a fome do ser humano: “Sou a planta humilde dos quintais pequenos e das lavouras pobres. Meu grão, perdido por acaso, nasce e cresce na terra descuidada.” Em Ode ao Vinho, o imortal e Nobel de Literatura, Pablo Neruda, morto em 1973, denota à bebida as cores dos mais preciosos metais, assim como o vindo, extraídos da Terra, quando escreve e finaliza seus versos na imponência de uma ferramenta de luta, vitórias e derrotas travadas a sangue cor do precioso líquido de Baco: “Vinho cor do dia, vinho cor da noite, vinho com pés púrpura, o sangue de topázio, vinho, estrelado filho da Terra, Vinho liso como uma espada de ouro.”
Já a poeta americana Emily Dickinson, considerada moderna, ainda no século XIX, nunca se cansou em afirmar que, para ela, a cozinha sempre foi um espaço de inspiração e interação criativas, e, certa vez, neste mesmo espaço escreveu um de seus poemas que foi acidentalmente adicionado ao rótulo de mais uma de suas receitas de bolo de coco a qual foi tornada famosa no mundo por duas culpas benignas, ou seja, o nome e o sabor do bolo da autora e poetisa gastrônoma.
Brasileiríssimo, Vinícius de Moraes entregava-se à arte das panelas com a mesma paixão destinada aos versos que fizeram bater corações. O poetinha, era dono do segredo em fazer um frango, único, embebido na cerveja e escondia detalhes da sua fórmula, especial, em cozinhar com prazer para os mais íntimos, como por exemplo as famosas fritas sequinhas. É ele o autor da descontraída Feijoada à minha moda, onde brinca com as palavras enquanto aguarda para saciar o paladar: “Enquanto nós, a dar uns toques no que não no seja a contento, vigiaremos o cozimento, tomando o nosso uísque on the rocks” e ainda a carioquíssima “Não comerei alface verde pétala”, onde reafirma sua brasilidade: “Não nasci ruminante como os bois, nem como os coelhos, roedor; nasci omnívoro: deem-me feijão com arroz”. Segundo o filósofo Cícero: “O prazer dos banquetes não está na abundância dos pratos, mas na reunião dos amigos e o que advém desta conversação.”
Quando embarco na viagem do champanhe que lava uma taça enriquecida com gelo mineral, tenho a impressão que essas taças, apontadas para os céus e o infinito denunciam pedidos, anunciam mais que cem desejos. E para que o momento do amor possa alcançar sua eternidade, um banho nos sentimentos lavado a emoções infinitas tatuadas no ego com a cor de um bom vinho Se sou poeta, como me afirmam alguns leitores de Prazeres à Mesa, talvez seja pela simples audácia de jorrar a identidade com alguma sensualidade influenciada pelo ritual e poder em transformar tudo o que é bom em bom de comer, além de beber da solicitude da alma que convida a beber na fonte da magia, da inspiração com transpiração, na ousadia pisada no caminho do romance simples que é a ato de viver.
Ao produzir meu livro Emoções, fiz questão de trazer o subconsciente à tona do mundo dos normais, ou seja, dar sentido com prazer ao prazer sem sentido nem cobrança alguma, banhado em vinho e suor, bebido, transpirando feito alimento perene levado ao fogo de lenha: “O vinho desperta o amor no desejo do quarto, de gritar: – Faça-me sua, rasgue minha roupa enquanto bebe da minha boca e do meu vinho, sufoque-me no seu abraço, descubra-me inteira, e, perca-me em seu caminho.”
Com o fascínio atiçado pela cozinha sensorial, que desperta as mais nobres sensações de desejos e também prazer, aprendi com a percepção sensorial, aliada ao entendimento daquilo que venha a ser o sabor verdadeira trama dos sentidos cuja relevância denota ao conceito da cozinha carente de atenção, tanto ao tempo presente e as diversificadas exigências denominadas pelas atividades cotidianas, e, ao mesmo tempo, desconfiar da simplicidade em ‘saborear’ as coisas como se fosse menina, como um sorvete numa hora qualquer e numa área verde que sequer me esperava.
Se a atividade vital do ato de comer alimenta o corpo, é imperioso saber que a alma também pede por alimento. Talvez seja por isso e não por acaso, que existam na Gastronomia moderna tantas citações de textos, fontes, links e livros sobre o prazer de ingerir a comida em todas as cores e formas que se apresentam os alimentos. Muitos deles são bem elaborados, capazes de nos fazer salivar, outros, transportam os sentimentos para o tempo das cozinhas afetivas das mães e avós, tias, amantes e amigos que o tempo não deixou esquecidos.
E é exatamente este sentimento que me invade quando leio trechos do conto de Drummond. A cena descreve, transpira em cheiro e sabor, dá cor e som ao imaginário, e, por isso, não penso duas vezes ao compartilhar sempre junto aos amigos da magia da culinária. Hoje, Prazeres à Mesa traz como entrada estes versos: “Certos bolos e cremes, antes de serem degustados pela boca ávida, o são pelo nariz e pelos olhos, e, se não o permitissem, o seria pelas mãos que amariam verificar a maciez, a doçura e a delicadeza da pasta.
Único sentido não beneficiado, o ouvido permaneceria alheio a essa fruição geral, se não chegassem até ele os ruídos normais de uma casa onde se come, choque de louça no mármore, de metais na louça, pequenos rumores familiares a que se ligam imemorialmente as sensações do paladar, e que tanto contribuem para a composição desse extraordinário prazer de comer.”
A cozinha sensorial encanta chefs estrelados, tais como Helena Rizzo, do restaurante paulistano Maní. São os precursores da Gastronomia de classe no Brasil. Eles brincam com as formas, texturas, variam temperaturas, mexem no aroma e estética dos alimentos. Querem mesmo é brincar e confundir, surpreender. Helena propõe uma sobremesa que visualmente lembra o ovo, frito. É composta de uma bola do sorvete de gemada adicionada com espuma de coco, imitando a clara.
E que tal o Tagliatelle ao Pomodoro sem um único fio de macarrão do badalado restaurante Clos de Tapas? São finas lâminas de mandioquinha com xarope de açúcar, purê de tomate e castanhas provenientes do Estado do Pará salpicadas, substituindo o queijo ralado.
A culinária sensorial é esboçada pelo ato de mexer com os padrões a que nosso inconsciente está acostumado.
Sair da rotina do memoriável arroz com feijão é se permitir a outros prazeres. Adoro como tudo na arte da Gastronomia se torna imprevisível como o sabor, a textura e o formato, incluindo as combinações.
Sempre que me proponho a experiências novas, e, neste sentido, exercito a poesia sobre as receitas que a vida dá, e, sempre de uma forma feliz, afinal, a felicidade encontra-se nestes pequenos mas enormes prazeres do imaginário.
Já gerenciei alguns jantares sensoriais que uniam a poesia, a música, e, claro, a Gastronomia. Na maravilhosa cidade do Rio de Janeiro, consegui encantar atores globais com as minhas poesias acompanhadas de um belo cardápio. Tive o previlégio de ter sentado à minha mesa figuras do mundo cultural tais como o ator Pablo Morais que tocou ao lado de sua incrível banda, o que definitivamente foi sucesso! Em Goiânia, realizei o jantar no Antônia Bistrô com a responsabilidade de ter a casa lotada. Fato curioso, e, filosófico, a venda nos olhos faz com que tenhamos um momento destinado a parar e prestar mais atenção, a cada detalhe, tanto no cheiro quanto nas texturas, tudo que nos rodeia, à magia da música, sentir as pessoas e, por que não, a nós mesmos. Nos dias de hoje, com a frequente estimulação da visão, aguçada, outros sentidos tornam-se pouco explorados. Há que se dar espaço para que isto aconteça, e, suprimir a visão, mesmo que por alguns instantes, é uma forma de proporcionar prazer, enriquecer a experiência que brota da mágica arte e prazer gastronômico.
Receita
Você que mora sozinho, com essa receita, não passará aperto na cozinha e terá um prato delicioso para agradar alguém muito importante: você mesmo.

Ingredientes
60g de mini farfalle, 300g de creme de leite, 20g de nozes, 4 aspargos, 1 pera, 20ml de azeite, 5g de cebola, 1g de pimenta do reino, 1g de sal, 15g de grana padano na hora, e manjericão a seu gosto.
Mão na massa
Refogue a cebola no azeite, acrescente o creme de leite e refogue por 5 minutos em fogo baixo. Enquanto isso, leve o macarrão para cozinhar por 6 minutos ou até ficar semi-al-dente. Limpe o aspargo e corte-o ao meio, pique grosseiramente as nozes, corte a pera em cubos e acrescente ao molho ainda no fogo. Coloque o parmesão ralado, acerte o sal e a pimenta do reino. Escorra a massa e misture ao molho. Em seguida, decore com o manjericão e sirva. Ou melhor, sirva-se. Você está na melhor companhia possível. Harmoniza perfeitamente com um bom Chardonnay Chileno.
Por que a gente chora quando corta a cebola?

Arde o olho, né? Bem, existe uma explicação científica para a choradeira que ocorre toda vez que se corta uma cebola. Na hora de descascar, as células que se rompem no bulbo passam por reações, liberando enzimas e compostos que se transformam em ácido sulfínico. Como ele é instável, logo vira um gás que você aspira e, como o nariz tem ligação direta com as glândulas lacrimais, lá vem o choro. Como as lágrimas têm lisosina, que protege os olhos, a situação é só chata, não faz mal e acho que até ajuda no emocional. Vai uma dica: deixe a cebola na geladeira antes de descascar, assim você diminui a ação das enzimas e também a sensação de desconforto.