O neobarroco de Antônio Luz
Redação DM
Publicado em 28 de julho de 2016 às 21:34 | Atualizado há 1 anoApesar de todo o talento que tem, jamais expôs, nunca vendeu uma única peça e, modesto, define-se como mero aprendiz do ofício de fazer santos
Antônio Luz é um santeiro. Tem 82 anos de idade – parecendo não ter nem 60. Está na profissão de fazer de santos há apenas três anos. Profissão é modo de dizer. Antônio nunca expôs, jamais vendeu uma peça. Digo profissão porque ele se dedica com afinco profissional à sua arte. Aplica-se ao aprendizado da escultura com uma garra, com uma vontade tal de avançar e se aperfeiçoar, que dele podemos dizer que é, já, um artista consumado.
Os santos e santas que ele modela em argila têm expressividade. Vê-se no talhe das roupas, na expressão facial, nos pequenos detalhes que Antônio tem um estilo próprio, muito embora seu trabalho pertença ao barroco renascentista. Nada de extraordinário, até porque o barroco é, por excelência, a pátria dos santeiros. É da essência da arte sacra popular esta filiação incondicional ao barroco. Mas Antônio, sem querer subverter à tradição, imprime a marca de modernidade em suas peças. Percebe-se uma recôndita intenção minimalista em sua escultura, o que não deixa de ser uma contradição em termos, já que o barroco é o reino da minúcia, do exagerado, da abundância, do detalhismo.
Nascido na cidade goiana de Morrinhos, Antônio da Luz cursou Economia e Contabilidade. Trabalhou no Banco do Brasil como auditor fiscal. Ao se aposentar, resolveu assumir-se artista. Ele conta que bem antes já se exercitava com tintas e pincéis. Pintor domingueiro buscando se expressar desinteressadamente. Deixou a pintura para trás. Hoje ele é um santeiro, ainda estudando sua arte sob supervisão de mestre Wagner, um desta mesma arte.
Num País de forte tradição católica, com capelas espalhadas por toda parte, a arte de esculpir santos se impôs como uma necessidade. Se a Europa teve os seus Miquelângelos e seus Berninis, o Brasil teve os seus Aleijadinhos, seus Veiga Valles. Estes, famosos, entronizados pela academia, glorificados por governos, orgulho do povo brasileiro. Aleijadinho, o maior santeiro de todos os tempos, esculpiu em pedra-sabão belíssimas imagens de santos e profetas bíblicos, criando um barroco genuinamente brasileiro. Veiga Valle, goiano de Vila Boa, só não está equiparado ao Aleijadinho porque concentrou-se em santos de altar, peças pequenas, sem a momumentalidade das estátuas do escultor mineiro.

Arte do povo
O santeiro é um artista popular. E não poderia ser de outra forma. Sua arte está a serviço da fé. Ele não busca glórias para si mesmo, nem ambiciona a distinção individual que marca o artista contemporâneo. Há um certo utilitarismo em sua obra, o que acaba determinando nele um certo desprezo pela originalidade. Nele não há a angústia da usca insana pelo estilo próprio. No entanto, alguns conseguem atingir a originalidade e acabam criando sua própria e exclusiva linguagem. Não por acaso, o santeiro foi muitas vezes encarado como simples artesão. Como tipo popular, chegou a inspirar outras obras de arte. Em “A madona de cedro”, baseado em romance de Antônio Callado, levou o cinema a glorificar o Aleijadinho. Dias Gomes imortalizou o santeiro sertanejo em Roque Santeiro, sucesso de televisão. Oswald de Andrade fez de seu drama poético O Santeiro do Mangue uma das mais virulhentas críticas à sociedade burguesa brasileira, cuja hipocrisia imanente é denunciada pelas observações de um humilde artesão que, apesar de esculpir santos, se via na contingência de morar em um bordel.
O advento da reprodução em massa, das imagens estereotipadas em gesso, oferecidas a preço de banana pelas lojas de artigos religiosos, tornou a profissão de santeiro virtualmente desnecessária. Perdendo mercado para a espúria reprodução seriada e desprovida de expressão das imagens de gesso, os santeiros foram desaparecendo. E, com eles, uma arte genuninamente brasileira.
Com a gradual extinção dos santeiros, muito das técnicas desses artistas do povo foi se perdendo. A sofisticação barroco-colonial de um Veiga Valle foi cedendo a formas toscas, bastante primitivas, um arte praticada por pessoas que não tiveram a oportunidade de estudar os cânones de sua arte. A escultura sacra ficou pobre, presa a uma ingenuidade comovedora.
Ao contrário da maioria dos santeiros, Antônio é um artista largamente instruído. Católico fervoroso, devoto de São Francisco de Assis, assíduo às missas na Rosa Mística, ele é um homem que pesquisa. Examina os grandes escultores, sobretudo Bernini, com prescrutador olhar crítico. Conhece a hagiografia, isto é, a vasta literatura sobre a vida dos santos.
Quem vê suas santas e santos percebe de cara um artista em franca evolução. Ele, porém, se considera apenas um aprendiz, um aplicado aluno que se esforça para dominar totalmente as técnicas da escultura de modelagem. Suas figuras são corretamente proporcionadas, a anotomia é correta e os movimentos são graciosos. A expressão facial de suas peças são humanas, passam uma certa doçura, que lembra os santos pintados por mestre Ataíde nos tetos das igrejas de Minas. Suas cores são sóbrias. Há uma profunda elegância em suas peças, muito embora ainda se vê nelas o quê de ingênuo típico dos santeiros populares. Nessa passagem do ingênuo para o sublime, do tosco para o sofisticado, reside a grande força expressiva de suas imagens, a brasilidade de sua arte. Não é possível saber se ele, na sua acelerada evolução técnica, saberá manter tais características.
Antônio leva, em média, uma semana para fazer uma peça. Algumas levaram 10 dias. Primeiro a modelagem. Três dias para secar. Dois dias no forno para a queima. Depois a pintura. Algumas peças são coloridas com folha de ouro, que é muito difícil de ser aplicada, exige paciência e habilidade.
Como nunca expôs nem jamais vendeu uma de suas peças, já que não vive disso, ele nem sabe dizer quanto uma delas custa. Diz apenas que, em razão da trabalheira que dá para fazer, não aceitaria nada menos que mil reais. É uma avaliação muito modesta. Mas as obras dele poderão ser adquiridas brevemente pelos aficionados desta arte. Ele doou 10 peças para uma instituição filantrópica que vai, com a ajuda delas, levantar fundos para a construção de um hospital.
Antônio ainda não partiu para as grandes esculturas, mas está nos seus planos realizá-las. Também namora a possibildiade de, um dia, quem sabe, fazer peças em bronze. Está aberto a todas as possibilidades artísticas. E isto é só o começo.
