Brasil

O “Socialismo Bolivarino” e o legado Chavista 

Redação DM

Publicado em 26 de julho de 2016 às 22:09 | Atualizado há 10 anos

Em 1498, em sua terceira viagem à América, Cristóvão Colombo chegou à bacia do rio Orinoco. Um ano depois, Alonso de Ojeda, partindo da Espanha, realizou a primeira expedição pela região do atual território da Venezuela. Navegou ao longo do Mar do Caribe até o lago Maracaíbo.

Ojeda ficou impressionado com as construções indígenas, casas sobre estacas – palafitas –, que lembravam a italiana Veneza. Pela lembrança e semelhança, batizou o país de “pequena Veneza”.

A partir do século XVI, iniciou-se o processo de colonização espanhola e após um longo período de luta pela independência, foi declarada pelo Congresso Nacional, em 5 de julho de 1811. Entre 1810 e 1830 a Venezuela passou a integrar o território da Grã Colômbia, território formado pela – Colômbia, Equador e Panamá.

As batalhas continuaram durante todo este período, entre os patriotas e os realistas, sob a liderança dos patriotas e precursores das lutas pela independência, o criollo Simón José Antonio de la Santíssima Trinidad Bolívar y Palacios Ponte-Andrade y Blanco e Francisco de Miranda.

A separação deu-se pelo comando do general José Antonio Paez, que se tornou o primeiro presidente do novo estado venezuelano e governou até 1863. Após este período, o país passou por várias ditaduras, destacando-se, a de Juan Vicente Gómez que governou durante 27 anos (1908 – 1935).

Entre ditaduras declaradas e veladas, mais tarde, algumas transvestidas de democracias. Em 1999, chegou ao poder o 56º. presidente da Venezuela, o coronel Hugo Chávez Frías, governando até sua morte em 2013. Líder da Revolução Bolivariana – termo criado por Chávez para definir as mudanças políticas, econômicas e sociais, iniciadas a partir de sua chegada ao poder. Baseada no ideário do libertador Bolívar e com o objetivo de se chegar a um novo socialismo. Uma das primeiras medidas foi aprovar mediante referendo, a Constituição de 1999, que defendia a doutrina bolivarianista, promovendo o que denominava de socialismo do século XXI. Crítico férreo do neoliberalismo e da política externa dos Estados Unidos, nunca perdeu a oportunidade de deixar claro, o quanto era preciso combater esses males na América Latina.

Eleito em 1998, com o apoio de uma coligação da esquerda com a centro-esquerda, o coronel Hugo Chávez, implantou um governo de forte apelo nacionalista, populista, autoritário e usou de todos os artifícios legais, legitimados pelo povo, para se perpetuar no poder, onde  permaneceu durante 14 anos. Essa foi a democracia chavista, que mergulharia o país, numa crise sem precedentes.

O mandato inicial seria de cinco anos, com sua chegada ao poder, a Constituição foi alterada e permitindo sua reeleição. No ano 2000, a Assembleia Nacional aprovou a Ley Habilitante, permitindo ao presidente governar pelo período de um ano através de decretos, sem a necessidade de aprovação da Assembleia Nacional. Desta forma, estava aberto o caminho para o Governo Ditatorial de Hugo Chávez. “A democracia representativa não serve para nenhum país latino-americano”, afirmou Chávez.

Um dos maiores produtores de petróleo do mundo, que preferiu investir os lucros da sua riqueza, numa espécie de “corrida armamentista”. Usar a fortuna de seus barris de “ouro negro”, para armar a nação, com alarmantes índices de pobreza, analfabetismo, violência urbana, na aquisição de aviões militares e armamentos da Rússia. Buscando ostentar um poderio bélico, aos olhos de um povo faminto, morrendo por inanição e do fogo amigo nas ruas! Chávez afirmou, “devemos começar a trabalhar na área nuclear. Podemos, junto com o Brasil, Argentina e outros, iniciar investigações sobre o setor nuclear e pedir ajuda a países como o Irã”.

Repressão, suspensão de concessões de empresas de mídia, jornais, rádios e TVs, perseguição implacável aos opositores do regime, numa demonstração clara de que a democracia venezuelana, não se traduzia e nem se justificava, tão somente pelo voto popular. Um grande paradoxo diante de seu maior inspirador, Bolívar: “Maldito é o soldado que aponta sua arma contra o seu povo.”

Com a morte de Chávez, seu pupilo Nicolás Maduro, chegou ao poder com um discurso ainda mais autoritário e desastroso para a economia do país. Uma crise histórica e sem precedentes. Violência urbana, truculência policial, falta de produtos básicos, de primeira necessidade, como alimentos, remédios, transformando o sonho do “socialismo bolivariano”, em um pesadelo, que mergulhou a Venezuela numa crise energética e uma das maiores taxas inflacionárias do planeta em 2016, de até 700%.

A combativa, histórica e revolucionária esquerda latino-americana, precisa ser repensada e reavaliada urgentemente. Suas lideranças e seu verdadeiro ideal no cenário conturbado do século XXI. Cuba, Bolívia, Venezuela, Equador, bem como, alguns partidos políticos no Brasil, “tidos” como de esquerda, por exemplo. Para que a esquerda, não se perca na injustiça, na corrupção e no abandono daquilo que sempre combateu com a mais poderosa das ações transformadoras, a revolução. É preciso separar os patifes, os corruptos e sanguinários infiltrados nesses partidos e governos – neste caso não é exclusividade só da esquerda -, resgatando os verdadeiros valores ideológicos da social-democracia, com ações transformadoras, com políticas voltadas para as minorias, moradia, educação, saúde e respeito ao povo sofrido e incansável lutador!

Respeitar o inimigo, não significa se tornar um deles. A esquerda, não pode fazer o mesmo jogo, nem muito menos, adotar as mesmas táticas ou práticas ordinárias, sórdidas e covardes, que historicamente, já estão postas.

 

(Marcos Manoel Ferreira, professor, pedagogo, historiador, escritor. [email protected])

Tags

Leia também

Siga o Diário da Manhã no Google Notícias e fique sempre por dentro

edição
do dia

Impresso do dia