Alfabeto do autoconhecimento
Redação DM
Publicado em 26 de julho de 2016 às 22:00 | Atualizado há 10 anosA inteligência analisa. O pensamento fragmenta. A percepção colhe o todo. Penso, logo me abstraio. Existo quando apreendo. Sou o quanto não se explica. Inteligindo, me invento. Pensamentando, me perco. Percepcionando, me encontro.
A Ambição e avareza
Os homens, pela sua ambição insaciável, criam mais necessidades do que aquelas impostas pelas leis naturais. Ninguém tem o direito de obter o supérfluo em prejuízo daquele a quem falta o necessário.
O avarento perde para si o que nega aos outros. O esbanjador egoísta perde também o que nega aos outros e usa para si. Abnegação e altruísmoPraticar a abnegação de si mesmo é combater o egoísmo. O egoísmo é um mal que extirpa todas as virtudes do ser humano. Não deseje para si o que pertence ao outro. Não deseje para o outro o que não quer para si. Coloque-se em relação a si mesmo como em relação ao outro: perceba-o como sua autoconsciência.
Autoridade e afeição A autoridade não pertence a ninguém que dela é investido. Melhor do que usar a autoridade é cultivar a afeição. As afeições e as esperanças cultivadas na vida terrena nos acompanham na vida espiritual e não há razões para o temor da morte como enfrentamento do desconhecido.
Autoestima e aborto
A autoestima implica em autoconhecimento, que nos leva a perceber-nos como se fôssemos outros de nós, e a perceber os outros como se eles fossem nós mesmos.
O aborto, como desconhecimento da vida do nascituro, é um pecado e um crime: torna nula uma existência condenada a recomeçar. Só em caso de risco da vida de uma gestante, é preferível sacrificar o ser que não existe ao ser que existe.
Benevolência e beneficência
A caridade não é condicionada à esmola, mas à benevolência: há quem não precise de esmola, mas de consolação. O melhor capital que deve render uma riqueza, são as boas obras que patrocina. Fenelon, apud Kardec: “A beneficência não é senão um modo de emprego da fortuna.”
A caridade nos conduz a Deus, a piedade nos aproxima dos anjos, a humildade e a beneficência nos unem ao próximo, como irmãos. Muitos órfãos da vida se perderam no vício porque não tiveram a beneficência de quem os amparasse, tocando sua alma. Nunca se pode ficar indiferente quando se pode ser útil. Não deixemos nossos semelhantes sofrerem como órfãos.
Causalidade e casualidade
A morte é inevitável, mas são evitáveis os acidentes que nos acontecem no curso da vida, dos quais podemos nos prevenir. Por exemplo: viajar com sono (causa), dormir ao volante (efeito). Dormir ao volante (causa), bater o carro (efeito), e assim por diante.
Não há meras casualidades. Os homens conhecem os efeitos, mas não as causas originárias de todas as coisas. A ciência não explica tudo apesar de aplicar-se a todos os campos: escapa-lhe, por exemplo, o conhecimento das realidades invisíveis e incorpóreas.
Crença e ceticismo
É o bem que se pratica que assegura a sorte futura, não a crença que se professa. Querer curar a infelicidade sem crença é como querer curar a enfermidade sem tratamento.
Crime e condenação
Todos os crimes são iguais quando cometidos intencionalmente. Retirar a vida de alguém não corresponde ao direito de defender a própria vida. Enquanto os homens forem julgados pelos homens, haverá mais condenação do que perdão.
Crítica e caridade
É útil criticar os defeitos de uma sociedade quando visa beneficiar os indivíduos que a compõem. Mas ao invés de criticar os defeitos dos outros, mostre as suas qualidades, inclusive a de não criticar.
A lei da caridade e do amor ao próximo implica benevolência, indulgência e perdão. A mais meritória das virtudes é a da caridade desinteressada. A caridade não exige recompensa, como o bem não nasce do interesse.
Deveres e desproporção
A maternidade e a paternidade são a missão indissociável do dever de conduzir a vida do filho no caminho do bem. Mas os filhos seguirão ou não o caminho dos pais, segundo seu livre arbítrio.
O maior dos deveres é a obrigação moral que cada um tem diante de si e do outro, e se mede pelo tamanho da felicidade ou tranquilidade própria ou alheia.
O bem deve ser feito com desinteresse e não deve ser desencorajado pelas decepções. As diferenças e desproporções se multiplicam na medida em que os homens multiplicam suas ambições e necessidades.
Egoísmo e exclusão
O egoísmo é fruto dos espíritos inferiores. Sempre haverá mais sofrimento para as classes menos favorecidas em razão da falta de solidariedade e de justiça social. Uma das maiores injustiças sociais é o não haver trabalho como meio de subsistência para os excluídos.
O egoísmo afasta os indivíduos entre si e muitos se beneficiam em detrimento de outros. O egoísmo existirá enquanto existir a sociedade competitiva e enquanto o amor próprio suplantar o bem do outro. Combate-se o egoísmo com a prática da solidariedade.
De nosso egoísmo e de nossa dureza de coração derivam todos os males que nos afligem como meio de provação. O egoísmo é filho do orgulho e inimigo da caridade. A caridade é irmã da fé, inseparável uma da outra. O homem egoísta só quer sua felicidade, minando a do outro.
Evolução e expiação
Assim como há seres primitivos e civilizados num mesmo período histórico, há também espíritos atrasados e avançados numa mesma sociedade humana. A humanidade não evolui globalmente. As crianças com suas boas ou más inclinações são inocentes e como tal devem ser tratadas. Quando procedem de mundos diferentes, precisam ser compreendidas e amadas para que possam evoluir e aperfeiçoar-se.
Cada época tem seus valores e suas necessidades, que devem mudar com a evolução da humanidade. O espírito busca a evolução assim como a inteligência busca o conhecimento. A diferença entre os espíritos benfazejos e malfazejos corresponde à diferença dos estágios de evolução do ser humano. O inimigo nos é útil como prova de expiação para nosso crescimento espiritual. Pode haver inimigos entre os encarnados e os desencarnados, considerando-se que o estágio de evolução prevalece tanto nesta vida quanto post-mortem, com a superação do mal pelo bem.
Espiritismo O espiritismo se estriba na fé associada à filosofia e à ciência e nada há na fenomenologia espírita que não passe pelo crivo da razão lógica. Os princípios da concordância, da unanimidade e da universalidade consolidam o espiritismo como doutrina cristã, mesmo tendo surgido antes de Cristo, desde Sócrates e Platão, com o fundamento de que há uma essência que preexiste à existência humana: essa essência é o espírito.
(Emílio Vieira, professor universitário, advogado e escritor,membro da Academia Goiana de Letras, da União Brasileira de Escritores de Goiás e da Associação Goiana de Imprensa.E-mail: [email protected])