Desativada 2

Nova Goiânia

Redação DM

Publicado em 23 de julho de 2016 às 03:36 | Atualizado há 1 ano

“Moço, é do asfalto?”. Foi a primeira pergunta que a moradora do Residencial Paraíso dirigiu a mim quando fotografava a mais nova camada de casas da cidade de Goiânia. Ruas sem asfalto e completamente desniveladas transformam-se em poeira, o que torna um pouco difícil a respiração, uma das missões mais básicas da vida. Os residenciais Shangri-lá e Paraíso, localizados a cerca de três quilômetros do Campus II da UFG, tiveram sua construção iniciada há menos de dez anos. Os dois bairros, segundo o Diário Oficial do Município de Goiânia, foram formalizados no dia 14 de agosto de 2012, menos de quatro anos. A Região Norte de Goiânia é a que possui menor densidade demográfica da cidade e a única que ainda não atingiu a fronteira dos municípios vizinhos.

É estranho apresentar nesta coluna imagens atuais de um bairro em seu processo embrionário, tendo em vista os inúmeros relatos nela levantados do passado de setores hoje consolidados que remetem a este tipo de visão fotográfica: terra, tijolos e vários lotes vazios. Algumas horas em contato com os bairros são suficientes para revelar o tamanho do incômodo pelo qual os moradores passam pela falta de pavimentação nas ruas. Na época mais seca de Goiânia, o simples caminhar de uma pessoa já levanta bastante poeira. Com a passagem de veículos, os grãos vermelhos tomam conta das ruas, atrapalhando a visibilidade e se espalhando pelas casas e pelos pulmões das pessoas. No período chuvoso, a poeira vira lama, apenas modificando o formato da dor de cabeça.

Vários bairros da Capital permaneceram por décadas na mesma situação. Na antiga Vila Operária, hoje Setor Centro-Oeste, oficializada no início dos anos 1950, a pavimentação só chegou mais de 20 anos depois, nos anos 1970. Outros exemplos de bairros que permaneceram por décadas oferecendo a seus moradores a mistura do clima goianiense com o barro e a poeira são os setores Criméia Leste e Oeste, Marechal Rondon, Urias Magalhães, e vários outros que não estavam previstos no plano original da cidade. Setores mais recentes, nas regiões noroeste e sudoeste da cidade, também só tiveram a questão do asfalto solucionada nos anos 2000, quando o nome do então prefeito Iris Rezende virou sinônimo de asfalto, o que gerou até sátira musical.

Conhecer a nova geração de bairros de Goiânia, como o Residencial Paraíso e Shangri-lá, é algo que realça o ciclo vicioso da edificação da Capital, movido pela imbatível especulação imobiliária. A história já foi contada em vários outros períodos. Os lotes começam a ser vendidos a preço baixo, antes mesmo da implantação da infraestrutura necessária para uma qualidade de vida aceitável dos moradores, enquanto os lotes ficam hibernados num processo de valorização. É uma saída para quem necessita de uma moradia barata, um investimento a longo prazo que tem como preço a paciência para suportar os transtornos da baixa infraestrutura durante pequenas eternidades. Os benefícios e investimentos só começam a chegar quando empresas sentem-se seguras para pisar ali.

 

Olhar

Poucos símbolos individuais são capazes de definir fotograficamente um setor em seu processo inicial de urbanização. A visão geral das ruas e das casas inacabadas talvez seja a forma mais eficiente de transmitir a sensação de transitar pelos bairros. O campo de futebol de terra no setor Shangri-lá talvez seja uma das poucas estruturas de convivência pública que já tem uma forma definida. A subestação de energia elétrica também chama a atenção de quem visita o local, impondo-se com suas grandes torres e postes, desenhando um mosaico de fios elétricos, traçando linhas retas que acompanham o horizonte em contraste com o céu. A vegetação também parece melhor encaixada a sua própria condição orgânica, saindo direto da terra vermelha.

Árvores nativas são reservadas em alguns blocos retangulares, despejando uma camada densa de verde-escuro nos limites de algumas ruas. A cor vermelha prevalece nos tijolos expostos das casas ainda sem acabamento, no chão e algumas vezes no ar. Materiais de construção também ocupam uma parcela considerável do cenário. Apesar de terem sido erguidos em uma região de chácaras, poucos resquícios de fazendas podem ser vistos pelas ruas dos dois setores, o que desencaixa os novos bairros da sensação pós-agrícola causada pelos bairros mais antigos. A minha conversa com a moradora que lançou a primeira frase desse texto terminou com um “Se deus quiser [o asfalto] está chegando. ‘Eles’ dizem que esse ano sai”.

 

Tags

Leia também

Siga o Diário da Manhã no Google Notícias e fique sempre por dentro

edição
do dia

Impresso do dia