Brasil

Romaria dos carreiros em Trindade

Redação DM

Publicado em 22 de julho de 2016 às 02:42 | Atualizado há 10 anos

A romaria do Divino Pai Eterno, de Trindade, em julho deste ano, com 370 carros-de-bois vindos de vários estados, somente da cidade de Damolândia (GO), 150 (acontecimento inédito no mundo) e 2 milhões e meio de romeiros, poderá entrar para o Guinness Book – O livro dos recordes.  Está nas mãos do Senhor Governador do Estado.

Antes do Carreiródromo esses carros chegavam e iam para quintais e terrenos alugados. Foi criado o Festival de Carros-de-bois, com premiação e desfile pelo centro da cidade. De início o concurso contou com 70 carros. O autor e organizador foi o Missionário padre Redentorista Agnaldo Divino Gonzaga, poeta e folclorista. Fui presidente da Comissão Julgadora auxiliado por pessoas do ramo, como o saudoso escritor Wilson Cavalcante Nogueira, autor do livro “Mestre Carreiro”.

Padre Agnaldo é o atual prefeito de Itaguari (GO), e um dos maiores cordelistas brasileiros, ao lado do Paulo Nunes Batista, residente em Anápolis GO. Marquei presença na sua Ordenação ocorrida em Trindade.

Nascido em Anicuns (GO), passou a mocidade em Americano do Brasil. Foi “candeeiro” e carreiro. Fez parte da Diocese de São Luiz de Montes Belos (GO) como seminarista diocesano. Concluiu os estudos de Filosofia e Teologia em São Paulo. Depois de cinco anos em Trindade começou a escrever sobre a Romaria de pessoas e de carros-de-bois.

“O canto do meu carro/é a voz da escuridão/das matas, dos rios, dos pastos… /dos carreiros em procissão/ O canto do meu carro/é a minha oração”

Livros publicados por ele: “Novena dos carreiros” (?) – “São Benedito, o santo milagreiro de Tietê” (1996) – “Divino Pai Eterno, uma caminhada de fé e esperança” (1997)-  “Romaria de Trindade” (1998) – “São Camilo, o poeta da caridade“(2013), quase todos em poemas (cordelistas).

Trechos de alguns dos seus livros:

“É só rodar na estrada / Esse carro começa a cantar / Sinto logo ver no peito / Uma vontade de gritar/ E dar viva ao Pai Eterno / Que está a nos escutar.”

“levantei cedo, juntei a boiada / A fé no peito e os pés no chão / Meu velho carro cantou na estrada / E o pó vermelho do chão / Num passo lento saiu a jornada / Pra romaria da devoção”- “Sou romeiro que caminha, sou devoto do Senhor – Caminhando pra terra santa, velha Trindade da fé e do amor”- “Há muito tempo, no ano de 1840 – Em Barro Preto, humilde arraial, Num pedaço do grande Goiás, Se iniciou uma devoção sem igual, A qual jamais será esquecida / Por todos e por toda a vida, Pois era de fé triunfal.

Foi por Constantino Xavier/ E sua esposa dona Ana Rosa, / Que o Pai Eterno se manifestou / De forma pura e generosa / Enquanto o pasto eles roçavam / Um medalhão de barro acharam / Pra fronte de fé copiosa / Com meio palmo de círculo / O medalhão foi encontrado / Trazendo o retrato da Virgem / E pela Trindade coroado / Formando a família sagrada / Paz perfeita. Enfim venerada / De amor por todos procurado…”/ Para acolher todos os devotos / É construída a capelinha / Teto de folhas de buriti / Parede humilde, singelinha / Mas que comportava devoção / Expressada em cada coração / Que se unia à alma vizinha…”

Minha crônica no jornal O Popular, há 20 anos, 04.07.1996: “8º Festival de carro-de-bois em Trindade”: “Quase uma centena de carros-de-bois no desfile de hoje, em Trindade, desfilando e espalhados pelos quintais das redondezas, pelos romeiros tradicionais, que os usam como abrigos e também aonde guardam os seus pertences. São sertanejos devotos, que há mais de um século fazem, pela fé, visita obrigatória, integrando a Romaria da Santíssima Trindade. São eles os tradicionais donos dos carros-de-bois com as suas famílias, os mais autênticos romeiros, não da cidade de Trindade, mas do Divino Pai Eterno. Desde a metade do século passado que eles vão para as novenas que antecedem o dia maior da festa, primeiro domingo de julho.

Cumprem as suas promessas e, antigamente, negociavam a prazo da festa, se conheciam, se tornavam compadres, namoravam, noivavam, casavam e se reencontravam na próxima festa.

Os carros-de-bois do passado sustentaram o transporte pesado e propiciaram a economia do Brasil Central e de todas as regiões distantes dos centros adiantados do Brasil. Aqui, no Centro-Oeste, até a entrada dos veículos motorizados, em 1918, os carros-de-bois foram os únicos veículos existentes. Mesmo depois continuaram e ainda continuam sendo.

Por isso este 8º Festival do Carro-de-bois é uma grande homenagem aos carros, aos seus candeeiros, aos seus carreiros e aos seus donos.

Assim que surgiram os primeiros veículos de motores à explosão no interior brasileiro, as tropas e as montarias, e principalmente os carros-de-bois, foram ficando para trás. Os pequenos caminhões da época, carregando as cargas de dois a três carros, eram mais eficientes e bem mais rápidos. Era o progresso expulsando esses veículos rústicos para as áreas restritas dos povoados e das fazendas, os únicos meios de transportes pesados até para as áreas restritas dos povoados e das fazendas, os únicos meios de transportes pesados até então. E também levando para o esquecimento os profissionais, os carapinas e trançadores de couro. Era o progresso encurtando as distâncias. Era o roncar dos motores substituindo os gritos enérgicos dos carreiros e o canto dolente e nostálgico dos carros-de-bois nas chamadas imensas do Brasil Central.

Aqui em Goiás os carros saleiros ou salineiros , levavam até seis meses  de ida e volta para trazerem sal de Araguari (MG), a ponta terminal da Estrada de Ferro Mogyana, de então. Além do sal traziam também as novidades, as bugingangas lá-de-baixo, como era conhecido o eixo Rio – São Paulo. Dizem que não há nada mais velho do que um jornal de ontem, mas no sertão um jornal de seis meses foi novidade.

As fábricas americanas e européias aceleravam a produção dos seus veículos e no sertão os fabricantes de carros-de-bois  foram perdendo a freguesia, os bois erados indo para as charqueadas  e os carros, como peças de artesanatos para decorações e de museus para debaixo das gameleiras frondosas de frente às sedes das fazendas.

Foram eles, os carros-de-bois, as boiadas e os animais das tropas, inspiradores de poetas sertanejos, base sustentácula da música caipira e musa dos declamadores da temática do sertão.

Mas o canto símbolo das paragens sertanejas, não é o da viola e nem o das vozes dos cantadores e declamadores: foi o canto alegre e plangente do carro-de-bois saído do atrito dos chumaços com os cocões do eixo.

Atenção, concorrentes: A Comissão Julgadora recomenda que o que vale é a autenticidade, a originalidade. Por isso, nada de cordoame de nylon, nada de bacia, balde e ligal (couro) de plástico, muito menos tamoeiros de corrente de ferro, canzis de mola de caminhão, candeeiro com chinelo-de-dedo, camiseta e boné com inscrições, lata de cerveja na mão e, principalmente, cartaz de propaganda política afixado no carro. Originalidade é autenticidade, e é isso que o concurso exige”. Macktub!

 

(Bariani Ortencio. [email protected])

Tags

Leia também

Siga o Diário da Manhã no Google Notícias e fique sempre por dentro

edição
do dia

Impresso do dia