Brasil

Quem ama, cuida

Redação DM

Publicado em 20 de julho de 2016 às 03:36 | Atualizado há 10 anos

Em 2001, a pedido da diretora do Colégio Ágape, de Mineiros, professora Doró, escrevi a introdução do livro “Quem Ama, Cuida”, escrito pelos estudantes, crianças do Colégio, tendo como temática básica a defesa e preservação da natureza. O livro, 55 páginas, ilustrado com fotos preto e branco dos entusiastas escritores, destacadas junto ao seu texto, está dedicado ao “Papai do céu que nos deu a vida; ao papai, à mamãe e nossos maninhos porque são muito especiais; à tia Doró que é nossa amiga diretora e nos deu a oportunidade de editar este livro; às professoras Simone, Malvina e a coordenadora pedagógica, Tânia Mara de Carvalho Morais, que dedicaram todo o seu tempo, com muito amor a todos nós; a todos aqueles que trabalham para a preservação da natureza”.

Pede-me Doró, dedicada diretora do Colégio Ágape, de Mineiros, que apresente o livro. Ao lê-lo, rapidinho, me recordo do famoso Içami Tiba e da sua obra “Quem ama, educa!”, com sua proposta de educação para a vida, também vivida pelo Colégio Ágape. Além de me convencer em louvar e aplaudir “Quem Ama, Cuida”, como uma importante iniciativa, vi que o famoso poeta Fernando Pessoa, teve toda razão ao escrever em “Alguma Prosa”, que “nenhum livro para crianças deve ser escrito para crianças”.  Referia-se aos livros escritos por adultos, experientes, querendo ensinar as crianças, já nos mostrando, todavia, há muito tempo, que é difícil educar e orientar realmente as crianças. Pelo conteúdo do livro “Quem Ama, Cuida”, como que repetindo a sabedoria do extraordinário Fernando Pessoa, vi o quanto os mais velhos estão distantes da sabedoria dos meninos do Ágape, imaginem do mundão de menino que existe por este Universo afora. Em assunto de ecologia, então, estão léguas e léguas à nossa frente. Por que os antigos, tão cheios de normas do tempo em que se amarrava cachorro com linguiça, não desconfiam? Fazer o quê?

Sonhar e lutar para concretizar os sonhos. Penso ser por aí. Creio mesmo que um dia os “seres humanos” tomarão juízo e abandonarão esse jeito esquisito, muito feio, de tratar a Mãe-Terra e toda a natureza, prodigiosa e riquíssima de tudo quanto é tipo de vida. Por que fazem isso? E ainda falam tanto em amor, em beleza, em justiça, em paz, em perfeição, em verdade e outras coisas tão bonitas, se fazem justamente o contrário? Por que maltratam tanto a borboleta, o cachorro, o cavalo, a cigarra, o coelho, a floresta, a girafa, o lobo, o macaco – coitado do macaco – o pavão, o peixe, o periquito, o tatu e outros bichos? Você, querido aluno e singular escritor do Colégio Ágape; você, professor dessa bela escola; você, possível leitor desse apreciado e oportuno livro “Quem Ama, Cuida”; você já descobriu em sala de aula ou não, que continuamos chamando o dicionário, ele mesmo, também apelidado “tira-teima”, de “pai dos burros”?

Pense e reflita sobre isso. Afinal, o que tem o burro, esse animal doméstico tão bom, tão paciente e resistente, que sabe dar marcha à ré, fiel prestador de serviços a gregos e troianos, baianos, gaúchos, não se livrando nem goianos e mineiros, com a “desinteligência” dos humanos? Já pensou no que dizem da galinha? No que falam da piranha? Azar do veado! Por que botar a culpa no animal? Quem seria realmente “desinteligente”, o burro ou os humanos? Por que os humanos, que se definem tão inteligentes, não assumem sua idiotice? Quem seria o mais ignorante da tropa?

Finalmente, queria homenageá-los. Mas como fazê-lo? De que jeito? Com a água não seria um bom motivo? Você sabia, por exemplo, que estamos numa esquina ou canto do mundo, chamado Centro-Oeste, onde as águas se encontram, se abraçam, se beijam e vão embora para o norte e para o sul? Pense nisso. Não esqueça.

Sim, a água, parte líquida do globo terrestre; água insultada, contaminada, dos despejos e da fossa séptica; água, da fonte exaurida; do corguinho, assoreada; do Rio Paraná, infectada; do Rio Uruguai, mórbida; do Rio Paraguai, corrompida; do Rio Verdinho, poluída; do Rio Formoso, judiada; do Rio Araguaia, maltratada; do Tocantins, formando o segundo maior lago artificial do mundo, secando o rio e as flores mais viçosas.

Água mágica, cerimoniosa, água de Orixá; água de superfície, que era cristalina, insípida, inodora. Água de aqüífero e de lençol freático, que também se contamina.  Água fecunda, que recicla, reproduz e até reprograma a vida. Água benta, que purifica a alma. Água ungida e de socorro. Água fétida, que afugenta, injuriada. Injuriada e difamada pela “desinteligência” humana. Água potável e doce, já tão rara. Cadê a água da chuva, das fontes, dos rios, dos lagos? Cadê?

Cadê a água gostosa, de encher a boca, de moringa e de filtro? Cadê a de pote de barro, tão saudável, tão fria? E a de cacimba, que bebi na minha infância, sem saber que era invenção da cultura africana? Eu era menino. Era tão boa. Não seria a água, a riqueza mais preciosa do futuro? Cadê essa água, que já causa até guerra? A água que volta à Mãe-Terra, dissimulada de precipitação: chuva, neve ou granizo? Cadê?

Eis aí, jovens escribas, o componente inexorável da vida, pedindo socorro à nova ordem mundial globalizada, na qual ainda aportará, por certo, um novo sistema ético, ressurgindo e unificando a paz do mundo.

 

(Martiniano J. Silva, advogado, escritor, membro do Movimento Negro Unificado (MNU), da Academia Goiana de Letras Mineirense de Letras e Artes, IHGG, Ubego, mestre em História Social pela UFG, professor universitário. ([email protected]))

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