Política

Um marxista insubordinado

Redação DM

Publicado em 13 de julho de 2016 às 02:00 | Atualizado há 1 ano

  •  Sociólogo vê atualidade nos conceitos de luta de classes e no Programa de Transição de 1938
  •  Com doutorado na França, orientado por Michael Löwy, ele diz que “outro mundo é possível”

  •  Professor universitário frisa que impeachment, sem crime de responsabilidade, é um “golpe”

  •  Pesquisador define Michel Temer como um desastre e ataca as privatizações e as flexibilizações

Numero

Nas­ci­do em Ya­noka, Ucrâ­nia, Li­ev Da­vi­do­vich Brons­tein, “nom de guer­re” Le­on Trotsky, que to­mou em­pres­ta­do de um de seus car­ce­rei­ros à épo­ca do cza­ris­mo, na Rús­sia, era um ho­mem cor­dial, que apre­cia­va as ar­tes e es­pe­tá­cu­los, a cul­tu­ra ilus­tra­da, do­no de uma fi­na iro­nia e com am­pla ca­pa­ci­da­de de aná­li­se di­a­lé­ti­ca da his­tó­ria e dos me­an­dros das ações re­vo­lu­ci­o­ná­rias. De­pois da in­sur­rei­ção de ou­tu­bro de 1917, que em 2017 com­ple­ta 100 anos, ele se tor­nou um dis­si­den­te, o pri­mei­ro a de­nun­ci­ar os des­vi­os do so­ci­a­lis­mo so­vi­é­ti­co, ape­nas cin­co anos de­pois de sua ins­ta­la­ção. O que o le­vou à mor­te, em 21 de agos­to de 1940, no exí­lio, no Mé­xi­co. O ho­mem que ama­va os ca­chor­ros, co­mo de­fi­niu Le­o­nar­do Pa­du­ra, mai­or es­cri­tor vi­vo de Ha­va­na, Cu­ba, a ilha dos ir­mãos Cas­tro, mo­ti­vou uma le­gi­ão de se­gui­do­res. Um de­les é o so­ci­ó­lo­go for­ma­do na Unesp, mes­tre em Ci­ên­cias So­ci­ais pe­la Uf­scar e dou­tor em So­ci­o­lo­gia pe­la Uni­ver­si­da­de de São Pau­lo e Es­co­la de Al­tos Es­tu­dos So­ci­ais, de Pa­ris, Fran­ça, ori­en­ta­do pe­lo ce­le­bra­do Mi­cha­el Löwy, Flá­vio So­fi­a­ti, 38 anos, pro­fes­sor da Uni­ver­si­da­de Fe­de­ral de Go­i­ás [UFG].

– Im­pe­achment, sem cri­me de res­pon­sa­bi­li­da­de, é gol­pe.

 

De­fe­sa da de­mo­cra­cia

O so­ci­ó­lo­go diz ao Di­á­rio da Ma­nhã que o afas­ta­men­to de Dil­ma Va­na Rous­seff Li­nha­res, a eco­no­mis­ta e ex-guer­ri­lhei­ra da VAR-Pal­ma­res, or­ga­ni­za­ção que ado­tou a es­tra­té­gia de lu­ta ar­ma­da con­tra a di­ta­du­ra ci­vil e mi­li­tar no Bra­sil, é um gol­pe bran­co, cons­ti­tu­ci­o­nal, que ame­a­ça a frá­gil de­mo­cra­cia ver­de e ama­re­la. O pes­qui­sa­dor apon­ta iden­ti­da­des en­tre a que­da, no tur­bu­len­to ano de 2009, em Hon­du­ras, de Ma­nu­el Ze­laya, um na­ci­o­na­lis­ta que ado­tou po­lí­ti­cas pú­bli­cas com­pen­sa­tó­ri­as, bem lon­ge de uma re­vo­lu­ção pro­le­tá­ria, as­sim co­mo com o afas­ta­men­to de Fer­nan­do Lu­go, em 2012, no Pa­ra­gu­ai, em um pro­ces­so que du­rou ape­nas 24 ho­ras. Nos dois ca­sos, os Es­ta­dos Uni­dos re­co­nhe­ce­ram os no­vos go­ver­nos, re­ve­la o com­pa­nhei­ro de Oli­vi­er Be­san­ce­not, o car­tei­ro que in­cen­diou a Fran­ça com seu pro­je­to utó­pi­co e re­vo­lu­ci­o­ná­rio. Crí­ti­co, o dou­tor diz que Mi­chel Te­mer é um de­sas­tre, ado­ta­rá me­di­das ne­o­li­be­ra­is, co­mo a aber­tu­ra co­mer­cial, a en­tre­ga do pré-sal, a fle­xi­bi­li­za­ção da le­gis­la­ção tra­ba­lhis­ta e a re­for­ma da Pre­vi­dên­cia, com o au­men­to da ida­de de apo­sen­ta­do­ria:

– Pa­ra 70 anos!

Ex-mi­li­tan­te da Li­gue Co­mu­nist­te Re­vo­lu­ci­o­nai­re [LCR] e de­pois da No­ve­au Par­ti An­ti­ca­pi­ta­lis­te [NPA], se­ção fran­ce­sa do Se­cre­ta­ria­do Uni­fi­ca­do da Quar­ta In­ter­na­ci­o­nal, uma das cen­tra­is mun­di­ais da re­vo­lu­ção ins­pi­ra­das nas tá­ti­cas e es­tra­té­gias for­mu­la­das por Le­on Trotsky pa­ra se­pul­tar o sta­li­nis­mo do Ko­min­tern, ele in­gres­sou no PT, fun­dou o PSOL, par­ti­ci­pa­va do En­la­ce, or­ga­ni­za­ção di­ri­gi­da pe­lo dou­tor em Eco­no­mia da Pon­ti­fí­cia Uni­ver­si­da­de Ca­tó­li­ca de São Pau­lo [PUC-SP] Jo­ão Ma­cha­do, que vi­rou In­sur­gên­cia, uma fra­ção ra­di­cal da le­gen­da le­gal de Je­an Wyllys [RJ], Ivan Va­len­te [SP], Lui­za Erun­di­na [SP], Chi­co Alen­car [RJ] e Lu­ci­a­na Gen­ro [RS]. O pré-can­di­da­to a pre­fei­to de Go­i­â­nia diz que o Pro­gra­ma de Tran­si­ção, ela­bo­ra­do  em 1938, per­ma­ne­ce atu­al, ad­mi­te a cri­se de di­re­ção re­vo­lu­ci­o­nária, em ter­mos, e de­fen­de a es­ta­ti­za­ção do sis­te­ma fi­nan­cei­ro. Ao con­trá­rio de Mi­chel Te­mer que pre­ten­de pri­va­ti­zar a Cai­xa Eco­nô­mi­ca Fe­de­ral [CEF] e o Ban­co do Bra­sil [BB], de­nun­cia o “mar­xis­ta in­su­bor­di­na­do”. Pa­ra ele, o con­cei­to de lu­ta de clas­ses, de Karl Marx e F. En­gels, es­tá mais vi­vo do que nun­ca.

– Mas in­ter­li­ga­do às lu­tas das mu­lhe­res,  ne­gros, LGBTs, in­dí­ge­nas e das ju­ven­tu­des!

 

Mar­xis­mo re­no­va­do

Com um mar­xis­mo re­no­va­do, Flá­vio So­fi­a­ti não pre­ga a di­ta­du­ra do pro­le­ta­ri­a­do, co­mo no sé­cu­lo XX. Mas o so­ci­a­lis­mo de­mo­crá­ti­co, dis­pa­ra. Ele apon­ta os li­mi­tes da de­mo­cra­cia li­be­ral. Cáus­ti­co, de­fi­ne o pro­gra­ma ela­bo­ra­do por eco­no­mis­tas li­be­ra­is pa­ra a Es­pla­na­da dos Mi­nis­té­ri­os co­mo “Uma pon­te pa­ra a des­gra­ça”.  A agen­da po­lí­ti­ca e eco­nô­mi­ca de Mi­chel Te­mer mos­tra um com­pro­mis­so com as bur­gue­si­as na­ci­o­nal e in­ter­na­ci­o­nal, adi­an­ta. A or­dem é co­lo­car o Es­ta­do a ser­vi­ço de in­te­res­ses pri­va­dos, de­fi­ne. O in­te­ri­no já re­ve­lou que ado­ta­rá “me­di­das im­po­pu­la­res”, fu­zi­la. Mais: os “gol­pis­tas de plan­tão” que­rem cri­mi­na­li­zar os mo­vi­men­tos so­ci­ais ur­ba­nos e ru­ra­is, ati­ra. O pro­fes­sor da UFG mos­tra a pri­são dos três lí­de­res do MST [Mo­vi­men­to dos Tra­ba­lha­do­res Ru­ra­is Sem-Ter­ras, fun­da­do em 1984, e li­de­ra­do pe­lo eco­no­mis­ta Jo­ão Pe­dro Sté­di­le], em Go­i­ás. Um ab­sur­do, pri­sões po­lí­ti­cas em 2016, sé­cu­lo XXI, re­a­ge, in­dig­na­do. Há, ho­je, uma no­va es­tra­té­gia das eli­tes la­ti­no-ame­ri­ca­nas, com o aval dos EUA, de san­grar go­ver­nos po­pu­la­res, pa­ra im­por gol­pes ins­ti­tu­ci­o­nais, vo­ci­fe­ra o “band le­a­der”.

– Um ou­tro mun­do é pos­sí­vel, sim!

Pós-que­da do Mu­ro de Ber­lim, é pos­sí­vel, sim, cons­tru­ir uma so­ci­e­da­de so­ci­a­lis­ta e de­mo­crá­ti­ca, sem os hor­ro­res da co­le­ti­vi­za­ção for­ça­da, dos pro­ces­sos de Mos­cou, dos gu­lags, cam­pos de con­cen­tra­ção on­de so­fre­ram pes­so­as co­mo Var­lam Cha­lá­mov, das po­lí­cias po­lí­ti­cas co­mo a KGB e a Sta­si, es­sa úl­ti­ma da ex­tin­ta Ale­ma­nha Ori­en­tal. É o que acre­di­ta o mar­xis­ta. A lu­ta dos mar­gi­na­li­za­dos é o gran­de mo­te da trans­for­ma­ção das es­tru­tu­ras so­ci­ais, ex­pli­ca. É pre­ci­so, po­rém, es­ta­be­le­cer uma re­la­ção di­a­lé­ti­ca do par­ti­do com os mo­vi­men­tos ho­ri­zon­tais da so­ci­e­da­de ci­vil, em es­ca­la mun­di­al, ob­ser­va. O mo­do de pro­du­ção ca­pi­ta­lis­ta é de­su­ma­ni­za­dor, con­cei­tua. O ho­mem afá­vel que es­tá de olho na ca­dei­ra que é ocu­pa­da, ho­je, pe­lo mé­di­co Pau­lo de Si­quei­ra Gar­cia [PT],  anun­cia uma co­a­li­zão de ex­tre­ma-es­quer­da en­tre PSOL, PCB, PCR, Pó­lo Co­mu­nis­ta e aguar­da ain­da o com­ba­ti­vo e ba­ru­lhen­to Par­ti­do So­ci­a­lis­ta dos Tra­ba­lha­do­res Uni­fi­ca­do [PSTU], co­man­da­do, no Bra­sil, pe­lo ex-ope­rá­rio me­ta­lúr­gi­co Jo­sé Ma­ria de Al­mei­da, que fun­dou a Li­ga Ope­rá­ria, a Con­ver­gên­cia So­ci­a­lis­ta e ago­ra gri­ta o slo­gan “Fo­ra to­dos”.

– Até 30 de ju­lho sa­em as de­fi­ni­ções do vi­ce e das ali­an­ças.

 

Plim-plim al­ter­na­ti­vo

A sua cam­pa­nha de rá­dio e TV se­rá fei­ta por ati­vis­tas di­gi­tais. É ne­ces­sá­rio pen­sar a ci­da­de a mé­dio e lon­go pra­zos, re­gis­tra. Flá­vio So­fi­a­ti pro­me­te aca­bar com o mo­no­pó­lio das em­pre­sas que ex­plo­ram os ser­vi­ços do tran­spor­te co­le­ti­vo na Ca­pi­tal. O edu­ca­dor ga­ran­te que apli­ca­rá 25% dos re­cur­sos, sem des­vi­os, pa­ra a edu­ca­ção in­fan­til, que é obri­ga­ção do mu­ni­cí­pio. O do­cen­te afir­ma ao DM que so­lu­cio­na­rá o pro­ble­ma da fal­ta de va­gas em Cmeis e cre­ches de Go­i­â­nia. Não fal­ta­rão in­ves­ti­men­tos, pon­tua. Com o Con­se­lho Mu­ni­ci­pal de Cul­tu­ra, ele anun­cia a ma­nuten­ção e até am­pli­a­ção da Lei de In­cen­ti­vo à Cul­tu­ra. A sua ideia tam­bém é es­ti­mu­lar o es­por­te ama­dor na Ca­pi­tal. A re­la­ção com a Câ­ma­ra Mu­ni­ci­pal se­rá re­pu­bli­ca­na, ati­ra. Sem to­ma lá, dá cá, me­tra­lha. Uma iro­nia às re­la­ções es­ta­be­le­ci­das e o mo­dus ope­ran­di do Pa­ço Mu­ni­ci­pal, ho­je. O so­ci­ó­lo­go fa­rá ain­da uma au­di­to­ria nas con­tas pú­bli­cas pa­ra ter uma ra­di­o­gra­fia das con­tas mu­ni­ci­pa­is que se­rão en­tre­gues pe­lo lí­der pe­tis­ta Pau­lo Gar­cia.

– A mi­nha cam­pa­nha não te­rá cai­xa 2!

 

PERFIL

 

Nome: Flávio Sofiati

Idade: 38

Formação: Graduação em Ciências Sociais [Unesp], mestrado em Ciências Sociais [Ufscar], doutorado em Sociologia na USP e da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais, Paris, França

Estado civil: Casado com a jornalista Carolina Goos, da PUC-Goiás

Filha: Elis Sofiati, 1 ano e 11 meses

Lê hoje: A jaula de aço, Boitempo Editorial, de Michael Löwy

Música: Ouça Liniker ![É o que sugere o sociólogo ao repórter do DM]

Linhagem ideológica: É marxista e trotskista

 

 



Michel Temer adotará medidas neoliberais, como a abertura comercial, a entrega do pré-sal, a flexibilização da legislação trabalhista e a reforma da Previdência, com o aumento da idade de aposentadoria”
Flávio Sofiati,Doutor em Sociologia


Leia também

Siga o Diário da Manhã no Google Notícias e fique sempre por dentro

edição
do dia

Impresso do dia