Política

Sem Iris, eleição fica zerada

Redação DM

Publicado em 10 de julho de 2016 às 01:51 | Atualizado há 1 ano

Quem conhece o estilo político do ex-prefeito Iris Rezende está  desconfiado de que a aposentadoria do líder peemedebista não é para valer. Será? Não seria a primeira vez que Iris diz que não é candidato, e depois  é ungido candidato. Foi assim em 2004, quando retornou à Prefeitura de Goiânia e também em 2010 e 2014 quando disputou o governo do Estado.

Mas, admita-se que desta vez o velho cacique peemedebista resolveu  depor as armas, como ficam o PMDB e a sucessão na Capital? Num primeiro momento, a tendência é avaliar que o delegado Waldir Soares (PR) seja o principal beneficiado com a desistência do ex-prefeito, uma vez que os votos que obteve nas eleições de 2014 foram majoritariamente na Região Noroeste de Goiânia, onde o próprio Iris sempre foi bem votado. Mas esta é, talvez, uma primeira impressão.  A eleição para deputado federal tem motivações diferentes de uma eleição para prefeito. Os compromissos são diferentes. Apenas o discurso de “bandido bom é bandido morto” não é suficiente para eleição de um prefeito.

A lei e a bala

Já foi dito, muitas vezes, que no Brasil há leis que “pegam” e leis que “não pegam”. Bobagem. Lei é lei e a sua força está na vigilância dos poderes constituídos e da população. A nova legislação eleitoral não permite doação de empresas para os candidatos, somente de pessoas físicas em limites que são infinitamente menores do que aquilo que as campanhas tradicionais estavam acostumadas. Dito isto, se dinheiro não será o principal diferencial neste pleito, onde está a diferença?

Os candidatos apoiados pelo Paço Municipal e pelo Palácio das Esmeraldas têm a seu favor máquinas administrativas e partidárias muito sólidas. O PT do prefeito Paulo Garcia e o PSDB do governador Marconi Perillo têm uma rede de militantes, simpatizantes e filiados muito maior do que aquilo que está agregado ao redor do delegado Waldir ou do ex-prefeito Vanderlan Cardoso. Esta, aliás, é também uma vantagem que o próprio Iris tem, visto que o PMDB  é um dos partidos com maior número de filiados e simpatizantes em Goiânia, e o próprio Iris é também admirado por milhares de goianienses que se sentem beneficiados por suas passagens pela Prefeitura de Goiânia e pelo governo do Estado.

O delegado Waldir não tem militantes. Não tem história na Capital. Tem uma madrinha com força econômica. Deputada federal, presidenta estadual do PR e empresária do ramo hoteleiro, Magda Mofato tem dinheiro para sapecar porco com nota de cem reais. Mas diante da proibição da lei e num cenário de caça às bruxas da Operação Lava Jato, provavelmente não vai se expor para eleger o seu colega de bancada.

Máquinas partidárias

Sem Iris motivando a máquina política do PMDB, crescem as possibilidades para a delegada Adriana Accorsi (PT) e o deputado federal Giuseppe Vecci (PSDB). Adriana foi a deputada estadual com maior votação na Capital, tem a seu favor a administração exitosa de seu pai, o saudoso ex-prefeito Darci Accorsi,  e conta também com uma carreira de sucesso como delegada no combate à violência contra mulheres e crianças e combate às drogas. Apesar do bombardeio da mídia, o PT conta com uma grande militância na Capital e sempre cresce em campanhas adversas, como nas vitórias com Darci em 1985 e 1992 e do professor Pedro Wilson no ano 2000.

Esta é uma eleição de tiro curto, com apenas 35 dias de campanha, se forem consideradas as convenções em agosto e a liberação do CNPJ dos candidatos, confecção de material de campanha e a propaganda eleitoral de rádio e TV autorizadas pelo Tre (Tribunal Regional Eleitoral).

Numa eleição curta, leva vantagem quem tem o nome mais conhecido pelo eleitor (e aí Iris é imbatível) e quem tem apoiadores em todos os quadrantes da cidade pedindo votos para o candidato.

Adriana Accorsi e Giuseppe Vecci já tem nomes suficientemente conhecidos pelo eleitorado e contam com as redes de servidores da prefeitura e do governo do Estado para levar seus nomes nos bairros. Tanto o Paço Municipal quanto o Palácio das Esmeraldas estão imbuídos em melhorar a imagem de suas administrações. A prefeitura superou a crise da limpeza urbana e lançou um pacote de R$ 1 bilhão em obras na Capital. O governo do Estado fez a aposta na mudança na Segurança Pública, com a nomeação do vice-governador para dirigir a pasta,  e aposta na intensificação da ações para reverter as estatísticas negativas de roubos, furtos e homicídios na cidade.

Uma eleição, no entanto, não é feita somente de números. O desafio maior do candidato é tornar suas propostas conhecidas e desenvolver com elas a empatia com o eleitor. Noutros termos: o eleitor vota naquele candidato que é o mais capacitado para gerir os destinos da cidade. Iris tem a fama de tocador de obras, o delegado Waldir não foi testado no Executivo, Adriana Accorsi tem a seu favor o legado do pai, Darci, e a retomada de obras da prefeitura; Giuseppe Vecci foi o gerentão em duas administrações de Marconi Perillo, ocupando numa a Secretaria de Planejamento e noutra a Secretaria da Fazenda. E Vanderlan Cardoso (PSB)? Onde ele se encaixa?

Novo x irismo

Vanderlan já disputou por duas vezes o governo do Estado como candidato da “terceira via”, ou seja, não  era ligado nem à prefeitura de Goiânia e nem ao marconismo. Atualmente, ele transita mais próximo à Casa Verde do que à oposição ao governador Marconi Perillo, e isto pode ou não ter relevância nestas eleições.

Ex-prefeito de Senador Canedo, Vanderlan fez uma administração transformadora que ainda lhe rende reconhecimento pelos cidadãos do município vizinho à Capital. Se realmente Iris manter sua renúncia à candidatura, caberá a Vanderlan a alcunha de tocador de obras. E isto basta para garantir a eleição? Pode ser que não, mas é um bom começo. Contra Vanderlan pesa a fragilidade do PSB e dos partidos que compõem a sua aliança. A seu favor, um nome enraizado na Região Leste, mas ainda insuficientemente conhecido nas demais regiões da Capital.

Não existe vácuo em política, e o PMDB vai tentar se apropriar com todas as forças do legado de Iris Rezende. O deputado estadual Bruno Peixoto pode ser a aposta do partido numa renovação da “marca” PMDB em Goiânia. É difícil substituir um líder consolidado como Iris, mas, como dizia Ulysses Guimarães, “time que não entra em jogo não disputa campeonato”.

História

A sorte está lançada para o PMDB e para os demais partidos. Mantido o quadro atual, esta será uma eleição sem favoritos. Isso não quer dizer que qualquer um poderá ser eleito prefeito de Goiânia. Nada disso. O eleitor goianiense tem preferência por certos perfis. O primeiro prefeito, Venernando de Freitas, era  professor. Nion Albernaz, nomeado em 1983, e eleito em 1988 e 1996, também era professor, assim como Darci Accorsi (1992), Pedro Wilson (2000) e Paulo Garcia (2012). Iris Rezende, eleito em 1965, 2004 e 2008, foi presidente da Câmara Municipal e da Assembleia Legislativa antes de chegar ao Palácio das Campinas no seu primeiro mandato.

Daniel Antônio, que foi eleito deputado estadual em 1982 com mais de 60 mil votos,  poderia ser chamado de “um ponto fora da curva”. Mas é preciso fazer justiça que ele havia sido vereador antes de ser deputado estadual. Se sua administração não foi exitosa, foi exatamente por incomodar o “PIB” político da época.  Daniel foi eleito na controversa disputa de 1985, em que o próprio governador Iris Rezende havia admitido a derrota antes da contagem final dos votos. Sua eleição incomodava o próprio Iris e o senador Henrique Santillo que o viam como eventual adversário na disputa para o governo do Estado. Resumindo: Daniel Antônio foi bombardeado por todos os lados: primeiro dentro do próprio partido, o PMDB, e depois pelos partidos de oposição.

Desde então o  eleitor goianiense não tem feito apostas em “pontos fora da curva”. É improvável que faça isto nestas eleições.

 

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