“Marx não dá receitas!”
Redação DM
Publicado em 9 de julho de 2016 às 02:38 | Atualizado há 1 ano- Pesquisadora diz que Cornelius Castoriadis, ao desvencilhar-se do trotskismo, incorporou a dúvida constante da Filosofia
- Filósofa afirma que pensador grego teria criado, com Norberto Bobbio, uma corrente de esquerda para além de Marx, contra Marx
- Assassinato da família Romanov, na Rússia soviética, no turbulento ano de 1918, seria uma herança “jacobina”, avalia a escritora

– Socialismo com democracia, autonomia e autogestão!
É o que defendia o filósofo grego, radicado na França, Cornelius Castoriadis. Trata-se de um ex-trotskista do Partido Comunista Internacionalista [PCI], legenda de Pierre Lambert, seção francesa da Quarta Internacional, a central mundial da revolução, fundada por Liev Davidovich Bronstein, nome de guerra Leon Trotsky, que liderou, ao lado do advogado Vladimir Ilich Ulianov, codinome Lênin, a insurreição proletária de outubro de 1917, na atrasada Rússia. O pensamento do autor é tema de minicurso da jornalista, mestre em Filosofia Política, doutora em Filosofia Política pela Universidade de São Paulo [USP] e que faz, hoje, pós-doutorado na Universidade Federal de Goiás [UFG], Júlia Lemos Vieira, 31 anos de idade, uma bela loira de olhos verdes.
– Depois da derrocada do Muro de Berlim – ocorrida em 9 de novembro de 1989 e do fim da URSS, em 25 de dezembro de 1991 -, a propaganda liberal colou a ideia original de socialismo com a do socialismo realmente existente!
A filósofa informa ao DM que Cornelius Castoriadis, fundador, em 1949, do grupo Socialismo ou Barbárie, traz outro modelo. Ele pensa um socialismo sem a necessidade de revolução violenta, explica. Uma sociedade autogestionária. Júlia Lemos Vieira afirma, sem medo das patrulhas ideológicas, que a agenda de uma revolução com luta armada, nos dias de hoje, está descartada. Uma cultura política jacobina – ela refere-se aos radicais da Revolução Francesa de 1789 – não seria hegemônica no mundo, dispara. Apesar disso, as desigualdades econômicas e sociais abissais, como aponta Thomas Piketty, além da privatização do Estado por corporações nacionais e transnacionais, podem tornar possível uma revolução, acredita. Não custa lembrar: o autor de A Instituição Imaginária da Sociedade morreu em 26 de dezembro de 1997, um dia depois do Natal.
A pesquisadora diz que Cornelius Castoriadis, ao desvencilhar-se do trotskismo, incorporou a dúvida constante da Filosofia. Primeiro, ele rompe com Leon Trotsky. O centro da divergência é a concepção de Estado sob as rédeas de Josef Stálin, que assumiu o poder soviético em 1923, pontua. Depois, com Marx, diz. Segundo ela, o pensador grego teria criado, com Norberto Bobbio, italiano pós-marxista, uma corrente de esquerda “para além de Marx e contra Marx”. A professora frisa ainda que o jovem Marx era um “liberal” e constata que as suas ideias não são lineares. Em seu minicurso, a filósofa analisa que o assassinato da família Nicolau Romanov, na Rússia soviética, no turbulento 17 de julho do ano de 1918, em Ecaterimburgo, ordenado por Lênin, seria uma herança “jacobina”.
Crítica, ela avalia que a democracia, no Brasil, hoje, seria de “baixa intensidade”. Impeachment, sem crime de responsabilidade, é golpe de Estado constitucional, atira. A pesquisadora condena o afastamento da ex-guerrilheira da VAR-Palmares – Vanguarda Armada Revolucionária – Palmares, organização que adotou a estratégia de luta armada para derrubar a ditadura civil e militar instalada em 1º de abril de 1964 e construir o socialismo no Brasil – Dilma Vana Rousseff Linhares [MG]. Os brasileiros que saíram às ruas do País de verde e amarelo produziram um golpe, ataca. Sem os militares, sublinha. Até a perícia do Senado da República mostrou que as pedaladas fiscais não constituem crime de responsabilidade, desabafa. A professora defende a aprovação de uma ampla Reforma Política. Radical.
– Para acabar com o financiamento empresarial de campanhas eleitorais, liquidar com as relações patrimonialistas, promíscuas, entre o público e o privado.
Júlia Lemos Vieira quer democracia direta. Mais: participação popular, plebiscitos, consultas populares. Preto no branco: referendos. Uma democracia moderna, observa. A doutora formada na USP, instituição de ensino de Marilena Chauí, que denuncia, hoje, um suposto treinamento do juiz federal de Curitiba [PR] Sérgio Moro pela CIA, a Agência Central de Inteligência dos EUA, e de André Singer, autor de Os Sentidos do Lulismo, frisa que os conceitos de Karl Marx, morto em 14 de março de 1883, continuam atuais, apesar de não-lineares, e permitem compreender a dinâmica da disputa de poder no Brasil de 2016. É luta de classes, define. O impeachment de Dilma Rousseff e a ascensão de Michel Temer – presidente da República interino – , que executará o programa Uma Ponte Para o Futuro, é luta de classes, insiste.
– Apesar de suas ferramentas, Marx não dá receitas!
Nicolau Maquiavel
Enquanto embala o seu bebê de apenas cinco meses, Gael, proprietário de belas bochechas, sob os olhares do marido, o historiador e mestre Fernando Dominience, um apaixonado torcedor do Atlético Clube Goianiense [ACG], vice-líder do Campeonato Brasileiro da Série B, ela recorre ao historiador e diplomata italiano Nicolau Maquiavel para desconstruir a imagem do “golpista” Michel Temer. Traições, golpes, tudo pelo poder: uma análise vulgar das ideias do autor de O Príncipe, sublinha, com fina ironia. O tempo de permanência de Michel Temer no poder dependerá da capacidade de unidade e de mobilização da fracionada esquerda brasileira, acredita. Unidade em torno de um programa, propõe. Para enfrentar o golpe das direitas brasileiras, destaca.
Graduada em Jornalismo, a sua dissertação de mestrado foi publicado em forma de livro. O título é A Dinâmica dos Fatores Estruturais em Karl Marx: Uma Crítica às Interpretações Reducionistas Econômicas, editado no ano de 2014. Já a sua tese de doutorado, na USP, é sobre o pensamento do jovem Karl Marx: Caminhos da Liberdade no Jovem Marx. Não há data prevista para publicação, registra. Júlia Lemos Vieira lembra que o socialismo não é sinônimo de totalitarismo e afirma não concordar com o reducionismo de Hannah Arendt. Hoje, ela realiza pós-doutorado em Filosofia Política e Ética, na UFG.

PERFIL
Nome: Júlia Lemos Vieira
Idade: 31 anos
Estado civil: Casada com Fernando Dominience
Formação: Graduação em Jornalismo [UFG], mestrado em Filosofia [UFG], doutorado em Filosofia Política pela USP e pós-doutorado em Filosofia Política e Ética [UFG]
Livro publicado: A Dinâmica dos Fatores Estruturais em Karl Marx: Uma Crítica às Interpretações Reducionistas Econômicas
Tese de doutorado: Caminhos da Liberdade no Jovem Marx
Pós-doutorado: Em Filosofia Política e Ética