Brasil

Qual uma régua no ar

Redação DM

Publicado em 9 de julho de 2016 às 02:22 | Atualizado há 10 anos

E a pobre e magra mulher chamou-me pelo nome e parei na rua para atendê-la. Estava aflita e eu às portas do Fórum às voltas com mais pessoas, cada qual com seu problema.

– Seu Iron – falou-me a que me abordou – estou arruinada! No maior desespero!

– Mas o que foi dona…

– Romilda! Chamo-me Romilda! Tomaram o meu filho.

– Quem o tomou da senhora?

– O mesmo pessoal que tomou os filhos dessas mães que estão aqui.

– Ah, então é uma dessas mães que tiveram os filhos “levados” pelos doutores?

– Sim, sou de Trindade. Deixei meu filho na casa de uma amiga…

– Vamos subindo, expliquei, estou indo para o gabinete do juiz, em companhia do advogado… Vamos lá! As outras vão esperar aqui, porque sobre elas, já conversei com o doutor.

Na sala do meritíssimo, o advogado, aquela mãe, o agente de menores, um policial e eu, além do juiz.

– Então continue seu caso…

E dona Romilda contou.

– Deixei meu filho de sete anos na casa de uma amiga para que eu fosse a Goiânia ver se arranjava emprego por lá. Mas não achando serviço, voltei pra Anápolis e pra casa da minha colega. Lá chegando, meu filho não estava mais… tinham levado ele…

– Levado para onde?

– Não sei. Minha amiga disse que chegou uma mulher bonita e uma moça e o motorista. Tomaram o meu filho das mãos da minha colega…

Houve uma pausa no gabinete do juiz.

– E aí, doutor, indaguei, cadê o garoto da Romilda?

O magistrado olhou para a sua assistente social, trocaram palavras sussurrantes, e ele voltou a mim e me disse, olhando para o advogado:

– O filho dela realmente foi tomado.

– Mas com que autorização? Indaguei a ele:

– Minha!

– Não, doutor, me refiro à autorização legal, do pai, da mãe, da avó materna…

– Essa, não tenho. Então, disse eu ao advogado – agora o senhor assume o problema, está aqui a pedido meu para ajudar essa mãe a reaver o filho das mãos do próprio juiz…

Eles – magistrado e o advogado – voltaram a trocar palavras quase inaudíveis, sibilantes, mais para labiais, do que para serem entendidas.

Então o magistrado me disse:

– Foi tomado dela…

E a mãe chorou compulsiva e desesperadamente:

– Por que foi tomado? Por quê? E onde está?

O juiz olhou para o advogado, como se buscasse respostas para me dar.

Notei que juízes e advogados são pessoas mentirosas, simuladas, sempre estão dos dois lados: trabalham para o cliente, mas por trás dos interesses de ambos estão os próprios interesses.

– Vamos, doutor, falei, com educação, cadê o garoto de dona Romilda. Por que foi retirado dela?

O magistrado, por fim, desentupiu a fala:

– Ela é prostituta!

Dona Romilda, pobre, vestidinho encardido, surrado, magra de tanto trabalhar, mais parecia uma molambenta do que uma prostituta, ficou super indignada e desabafou, aos choros:

– Eu, prostituta? Então o senhor não conhece uma prostituta.

O advogado interveio. Foi se posicionar ao lado da autoridade. E a mulher ralhando, pedindo provas de que ela era aquilo que ele disse.

O homem inquieto e o promotor também. Esperei que se acalmassem um pouco e disse ao Juiz:

– Doutor, está obvio que o senhor não conhece a mulher, pois ela chegou aqui comigo e eu a conheci agora na porta do Fórum. Eu sei que ela não é prostituta. Apenas uma mulher pobre que vive de lavar roupas. Dai o senhor e o advogado aqui…

– Promotor, faz favor!

Interrompeu-me o que eu supunha fosse o “meu advogado”, disposto a ajudar a mulher já que chegou junto comigo.

– Sim, o advogado, doutor, promotor, aqui, sem a conhecer a chamou de prostituta?…

Fiz uma pausa e me recordei…

– Ambos me fazem lembrar de algo importante que preciso lhes perguntar.

– Pois não. Aventurou o advogado.

– Senhor juiz e senhor promotor: os senhores podem me garantir que os seus pais e suas mães – tanto os do magistrado quanto os do promotor – não prevaricaram antes do casamento?

Já que hoje em dia isso até se tornou normal?

No que ficaram calados, aproveitei.

– Esta mulher tem, sim, possibilidade de ter se prevaricado antes…

– Porque ela está situada nessa condição: pobre, marido ausente, filhos pra criar, e um raptado? Sequestrado? Ou… Traficado?…

Aproveitando a hora de aparecer e mostrar serviço, o sr. Orodim, agente de menor, ofereceu o timbre da sua voz dirigindo-se à autoridade maior:

– Doutor, o senhor quer que prenda ele?

Em resposta, o agente Orodim ouviu um ríspido cale-se do magistrado.

O policial e o agente ficaram quietos e calados, assim, como estava o meritíssimo e o promotor.

Foi quando o que, no início, era advogado e tinha se transformado em promotor, replicou.

– Sr. juiz, já que fui tratado aqui como mero advogado, peço minha retirada do caso, pois me senti sob suspeição…

E se retirou da sala. O juiz mandou o agente buscar o menino que estava nalguma sala no fórum e o entregou à mãe que o abraçou enxugando as lágrimas.

– Mãe, disse o garoto, ao me ver, hoje eu vi esse homem. Eu queria ficar na casa dele.

– E por que não ficou lá? Indaguei.

– Por que o homem da Kombi (o sr. Orodim) disse que eu ia pra um lugar muito longe…

– Entendi… Então, dona Romilda, esse é o seu garoto?

– Sim.

– Está resolvido o seu caso?

– Está.

– Vai voltar pra Trindade?

– Vou.

– Mas não traga seu filho para Anápolis mais. Pois aqui é perigoso.

– Sim, senhor. Peça a bênção pro seu Iron, filho, e vamos.

Deu-me aquele abraço. E saiu sem olhar para ninguém.

Somente quatro na sala do doutor. Vendo que de estranho então era somente eu…

Fiz um gesto com a mão direita, assim como se passasse uma régua no espaço, em silêncio, e fui.

 

(Iron Junqueira, escritor)

Tags

Leia também

Siga o Diário da Manhã no Google Notícias e fique sempre por dentro

edição
do dia

Impresso do dia