Eleições 2016: cenário goianiense composto por incertezas eleitorais
Redação DM
Publicado em 6 de julho de 2016 às 03:06 | Atualizado há 10 anosFaltando três meses para a eleição municipal, Goiânia pode ter até seis candidatos a prefeito. Um cenário cheio de incertezas políticas, já que desde as eleições majoritárias de 2012 deu-se início a esse processo de “fim de certezas” eleitorais, e com um agravante: o resultado da apuração dos votos em 2016 pode refletir negativamente na carreira política do candidato que for derrotado.
Para entender esse contexto, é necessário abrir parênteses para relembrar a formação de chapa de candidatos a vaga majoritária em 2012. Foi neste ano que se deu início ao processo que nomeei como “fim de certezas eleitorais”, a começar pela dificuldade enfrentada pelo atual prefeito de Goiânia, Paulo Garcia (PT) em garantir seu direito de disputar a reeleição. Ele, que até então tinha no currículo apenas um mandato de deputado estadual era subestimado até pela cúpula do próprio partido. Chegaram a cogitar a hipótese de indicar outro nome mais conhecido para concorrer à vaga. Mas aliado a sua postura irredutível, a falta de nomes dentro da sigla e o poder da caneta do Executivo municipal, que ainda tinha em mãos, o nome de Paulo Garcia foi abraçado pelo partido. Percebe-se, entretanto, que foi uma série de conveniências que conduziu a situação, e não a certeza da vitória nas urnas.
Outro ponto bastante importante a se lembrar da última eleição municipal em Goiânia é a figura de um candidato de muito peso que representava a base do governo estadual e com uma vasta história política: Jovair Arantes. Apesar de ser líder político nato, indicação do governo estadual e vencedor em eleições proporcionais com quantitativo expressivo de votos, Jovair Arantes nunca esteve apontado como favorito nem nos bastidores eleitorais, nem em pesquisas.
Se em 2012 existiam tantas incertezas e as coligações decidiram se guiar por uma lógica política adotada pelo grupo durante o período de campanha, em 2016 o quadro é mais incerto ainda. Levando em conta uma análise inicial do cenário político atual, temos pré-candidatos arrojados com capacidade real de crescimento em intenções de voto e com chances de vencer a eleição. Alguns com longa história na vida política, outros que se enveredaram nesse meio em tempos recentes, mas que são detentores de liderança nata e feitos memoráveis.
O principal deles é Iris Rezende (PMDB). Mesmo sem se declarar oficialmente pré-candidato, desponta em pesquisas espontâneas feitas na capital. Nome que é conhecido em todos os setores da cidade e que é, naturalmente, vinculado à disputa majoritária de 2016.
Outro grande destaque entre os pré-candidatos da capital é o deputado federal campeão de votos em 2014, Delegado Waldir Soares (PR). O deputado, que venceu a eleição proporcional de 2014 pelo PSDB e mudou de sigla depois de perceber que não seria o candidato a prefeito de Goiânia pelo então partido político, vem ganhando espaço entre parte da população – em especial a mais vulnerável. Com uma postura bastante polêmica, é tido como um dos favoritos, pois fala “a língua do povo”, mesmo que o discurso seja, claramente, populista e, por vezes, demagogo.
Pelo PTB, quem colocou o nome a disposição para a disputa eleitoral foi o ex-deputado federal Luiz Bittencourt. Ele já disputou outras duas vezes o cargo de prefeito de Goiânia. A primeira em 1992 e a segunda em 1996, quando foi para o segundo turno contra Nion Albernaz, que se sagrou vencedor da eleição daquele ano. Bittencourt abandonou a “aposentadoria política” e vem se fortalecendo com as movimentações de pré-campanha.
Outro pré-candidato que tem chances reais de crescimento é o deputado federal pelo PSDB Giuseppe Vecci. Considerado uma das “colunas” do partido, Vecci participou da fundação do PSDB em Goiás e foi braço direito do governador Marconi Perillo (PSDB) desde sua primeira gestão, em 1998. É idealizador de projetos de sucesso, como o Renda Cidadã e Bolsa Universitária. Apesar de marcar poucos pontos nas pesquisas, é pouco conhecido na capital e, justamente por isso, tem chances de crescimento.
Mesmo com a fragilidade do partido devido aos escândalos de cunho nacional, o PT vem tentando emplacar a deputada estadual Adriana Accorsi. Filha de Darci Accorsi (ex-prefeito de Goiânia) e delegada de polícia, a petista é um nome respeitado entre os pré-candidatos. Mas, com o desgaste da atual administração do prefeito Paulo Garcia, do PT, ela tem poucas chances de crescer. Será uma das tantas vítimas do PT na disputa de 2016 pelo País.
Por último, entre os mais notáveis, está o ex-prefeito de Senador Canedo Vanderlan Cardoso (PSB). Com uma história positiva à frente do executivo de Senador Canedo, e após várias mudanças de siglas partidárias em busca de espaço, o empresário está decidido em brigar pelo Paço Municipal de Goiânia. Contudo, sem um grupo político consistente e alianças competitivas, pode terminar como em 2010 e 2014, no terceiro lugar.
Seis nomes que, se bem trabalhados, têm chances de irem para o segundo turno na capital.O cenário é incerto ainda, mesmo porque não estão garantidas todas as pré-candidaturas. Se em 2012 houve grupos que não sentiam firmeza, em 2016 a palavra firmeza está ainda mais difícil de ser dita com convicção pelos grupos partidários. Não existem dúvidas de que são pré-candidatos com potencial de criar musculatura de campanha e obter sucesso na eleição.
Pós-2016
Qual seria o reflexo de uma possível derrota ao pleito deste ano? Analisando a postura de alguns “dinossauros” políticos, a atual conjuntura política nacional e a mudança da opinião pública, a expectativa é de que seja bastante negativo, a ponto de destruir uma história. É inegável que o momento político atual influencia no comportamento eleitoral e na opinião pública. Nosso país é composto por um percentual baixo de eleitores com sofisticação política, capazes de estruturar ideologicamente suas opiniões e não transferir uma carga negativa aos políticos, de uma forma geral. Ou seja, não se diferencia bem história política de resultado político.
A prova disso é que o experiente peemedebista Iris Rezende se manteve neutro até hoje. O medo de uma possível derrota preocupa sim o velho decano. Existe, inclusive, a especulação de que não seja o candidato a prefeito do partido (o que mudaria drasticamente o cenário político de Goiânia se confirmar). Ele tem chances reais de ser derrotado, como nunca teve antes. O prefeito Paulo Garcia se mostrou um bom aluno político, mas péssimo administrativamente. E esse é um fardo que não só Adriana Accorsi terá que carregar. Iris tem sua parcela de culpa, inclusive no imaginário do eleitor goianiense. Com certeza marqueteiros de seus oposicionistas irão usar e abusar das fotos em que os dois aparecem abraçados e vídeos em que Iris declara apaixonadamente: “Paulo é meu candidato. Eu confio no Paulo.”
Já o deputado federal Delegado Waldir Soares correu um risco grande ao criar rusga com o PSDB e com o governador Marconi Perillo. É notável que tem ficado cada vez mais isolado e pode sim ter colocado em xeque um eventual segundo mandato no Congresso. Apesar da votação histórica, é importante destacar que o tema da segurança pública tende a se esgotar, uma vez que o próprio delegado pouco tem contribuído com a área. E essa aposta do deputado pode colocar em xeque seu único feito formidável, até então, que foi a votação expressiva em 2014, obtida através de uma campanha praticamente sem recursos.
Luis Bittencourt, com caráter competitivo e de discurso objetivo, ainda trabalha em cima de expectativas. Depois de abandonar a “aposentadoria política”, vai ter que tirar forças (até mesmo quando acreditar que elas não existem mais) para se tornar conhecido e levar o seu nome para todos os cantos da capital. Caso contrário, voltará a sua condição de aposentado, mas com a característica de derrotado, ao invés de competitivo.
Giuseppe Vecci tem dupla responsabilidade. Primeiro a de tentar devolver ao tucanato a prefeitura da maior cidade de Goiás. Segundo a de provar que o governador Marconi Perillo tem capacidade de articulação para quebrar a resistência a seu nome na capital. A estreita relação entre Perillo e Vecci, traz uma conseqüência a mais, caso o resultado colhido não seja a vitória. Afinal, política se faz para o povo, e não para amigos. Caso seja derrotado, ele perderá seu espaço, até então consolidado, no governo do estado.
Adriana Accorsi, deputada estadual pelo PT, desafia a transferência de votos de seu falecido pai, Darci Accorsi, e os seus feitos enquanto membro da Secretaria de Segurança Pública. Se, por acaso, for derrotada nas urnas terá frustração diante da memória de seu pai, além de banalizar seus méritos profissionais conservados até então.
Para Vanderlan Cardoso (PSB), essa pode ser sua última oportunidade política fora de Senador Canedo. Depois de ter sido derrotado duas vezes, e de corriqueiras brigas com siglas partidárias, a luta pelo Paço Municipal seria o divisor de águas da carreira política de Vanderlan Cardoso. A derrota nas urnas enterraria, de vez, seu possível sucesso político em cargos executivos.
O que é fato é que ainda há muita água para rolar. As coalizões partidárias, a não efetivação da candidatura de pré-candidatos, a opinião pública e o comportamento eleitoral poderão mudar drasticamente esse cenário até dia 15 de agosto, a data limite para o registro de candidatura.
Larissa Oliveira, jornalista