Brasil

Hernando de Soto e o capitalismo no terceiro-mundo

Redação DM

Publicado em 5 de julho de 2016 às 01:57 | Atualizado há 10 anos

Abertura da economia + investimentos internacionais + estabilidade da moeda = a felicidade geral da nação. Se pudéssemos expressar, simplificadamente, seria essa a equação que regeria a ideologia do modelo capitalista no chamado mundo ocidental habitado por cerca de um bilhão de pessoas.

Não resta dúvida de que o capitalismo prosperou e trouxe a felicidade aqui mesmo na Terra para, pelo menos, os países mais avançados do ocidente. Bill Gates, o homem mais rico do mundo, é um exemplo desse sucesso. Começou ele com uma ideia numa empresa de garagem. Só mesmo num país como os Estados Unidos o talento do jovem de Seattle se materializaria na mola impulsionadora do espírito empreendedor de seu inegável sucesso. O que, ainda mais fundamental que talento, encontra-se invisível à maioria daqueles que só enxergam a ponta do iceberg do gênio criador de Bill Gates? Falo da propriedade viva e legalizada a que todo cidadão norte-americano tem direito.

A propriedade formalizada cria uma ambiência altamente favorável não só ao empreendedorismo nos Estados Unidos, mas, também, em todo Ocidente no qual se insere o mundo desenvolvido.

Se o dono da Microsoft fosse um habitante do terceiro-mundo ou dos países recém-saídos do comunismo, teria ele inúmeras dificuldades de ser o que conseguiu ser em sua pátria. Nesses países, o Estado altamente burocratizado se torna um empecilho à propagação do espírito empreendedor. Trabalhar no mercado formal, no mundo subdesenvolvido, é infinitamente mais caro do que permanecer na informalidade. O Estado e suas teias burocráticas não ajudam a mudar essa realidade. A informalidade,  além de não gerar capital em escala, mantém o pequeno empreendedor preso, sem se conectar com outras redes que constroem o capital. Nessa condição, a riqueza das nações fica amortecida e dependente do capital externo. Essa é a opinião explicitada em “O mistério do Capital”, por um dos mais respeitados economistas de nossa época. Falo do peruano Hernando de Soto.

Com sólida formação nas melhores escolas da Suíça, De Soto retornou, há mais de três décadas, para o Peru e de lá fundou o Instituto da Liberdade e Democracia, que se tornou uma referência mundial no auxilio a inúmeros países da periferia do capitalismo. Governos de inúmeros países – da Tailândia, China, Egito a América Latina – têm recorrido aos serviços desse brilhante peruano.

“O Mistério do Capital” nos ensina a desmistificar a importância do investimento externo como o deus solitário gerador de riqueza de uma nação. Muito mais importante do que atrair o capital internacional é a criação de um ambiente legal que mude o status quo em torno do capitalismo, cujas benesses mantêm cerca de cinco bilhões de almas fora da “campana de vidro”, que inclui somente um quinto da população mundial. Creio que a instigante reflexão de Hernando de Soto revela outra forma de pensar, que vai muito além da simplificação que a mídia nos impõe em torno da necessária, mas não suficiente, estabilidade econômica. Se formalizada no ambiente legal que torne os benefícios maiores que os custos, a informalidade será, sim, uma considerável fonte de riqueza para as nações subdesenvolvidas.

 

(Salatiel Soares Correia, engenheiro, bacharel em Administração de Empresas, mestre em Planejamento Energético, autor, entre outras obras, de A Construção de Goiás)

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