Modéstia de cores
Redação DM
Publicado em 29 de junho de 2016 às 03:01 | Atualizado há 1 anoA primeira metade do século XX marca um período de bastante tensão, principalmente na Europa, devido às duas grandes guerras mundiais que abarcaram tal período. O modernismo ganhava força e surgiam pinturas abstratas cada vez mais instigantes e desafiadoras. Em meio a todo esse cenário, o pintor Paul Klee, nascido na Suíça com cidadania alemã, fez escola ao exibir ao mundo o resultado de um cansativo estudo sobre cores, contrastes e brilho. Ele sustentou um longo período de produtividade nos últimos 30 anos que antecederam sua morte, exercendo uma influência incalculável no trabalho artístico das gerações seguintes. Assim como vários contemporâneos, sentiu na própria saúde os impactos da guerra e morreu aos 60 anos, doente e perseguido pelos nazistas.
James Russel, especialista em artes, da Inglaterra, escreveu em sua página os motivos de sua admiração pelo trabalho de Klee que vem desde a juventude. “Quando passava pelo fim da adolescência, minha pintura favorita era Morte e fogo, de Paul Klee. Eu olho para ela hoje e me pergunto se estava mentalmente saudável na época, mas minha apreciação pelo trabalho de Klee nunca diminuiu”. Os detalhes e a postura inesperada do pintor intrigavam Russel. “Posso pensar em poucos artistas que me proporcionaram esse simples prazer, de poder parar e vivenciar pinturas com pequenos quadrinhos, traçando com os olhos a linha dos desenhos por horas. Adoro a modéstia do trabalho de Klee, a pequena escala de suas pinturas, as estranhas e finas linhas”.
Russel também explicita a obsessão artística de Paul Klee, que levou-o a desenvolver um estilo único. “Klee esforçou-se durante anos para aprimorar sua visão. No início de seus vinte anos, ele lamentava sua falta de senso de cores e desesperava-se de nunca vir a se tornar de fato um pintor”. Conhecer outros lugares do mundo levou o artista a digerir melhor aquilo que atingia seus olhos. “Uma viagem ao Norte da África em 1914 foi responsável pela abertura de seus olhos para as inúmeras possibilidades cromáticas. Pelas quase duas décadas seguintes, ele produziu intensamente. Também foi um respeitado professor. Trabalhou por dez anos em Bauhaus, abandonando o cargo devido à combinação de uma grave doença e da perseguição nazista”.
Legado
Paul Klee teve como contemporâneo Wassily Kandinsky, também direcionado para o abstracionismo. Alain Berset escreve sobre a relação dos dois pintores no site oficial do Centro Paul Klee, que além de reunir mais de quatro mil obras do pintor (maior acervo acumulado de um único artista do mundo), empenha-se nos estudos e nos impactos de sua obra na arte do último século. “Paul Klee e Wassily Kandinsky são considerados os pais fundadores do modernismo clássico, sendo a amizade artística dos dois uma das mais fascinantes do século XX. O relacionamento deles era baseado pela mútua inspiração e suporte, mas também pela rivalidade e competição – uma combinação que estimulava ambos em seus trabalhos”, explica.
Tanto Kandinsky quanto Klee sofreram grande perseguição na Alemanha nazista. Ambos também viram Bauhaus, uma das mais expressivas escolas de arte do século XX, fechar as portas. Uma célebre frase de Kandinsky define o pensamento abstracionista de toda uma geração de artistas: “A cor é a tecla. O olho é o martelo. A alma é o piano com suas várias cordas. O artista é a mão que, tocando esta ou aquela tecla, escolhe automaticamente a vibração da alma”. O contemporâneo de Klee também enxergava algo de caótico no rumo que a humanidade tomava, com a revolução industrial e as guerras que cada vez mais interferiam na maneira de se relacionar das pessoas. “Quanto mais assustador torna-se o mundo, mais abstrata torna-se a arte”, dizia.
Klee também possuia seu lado visionário. Recusou-se a sucumbir ao totalitarismo do regime alemão vigente e abandonou a possibilidade de benefícios burocráticos em nome da arte e daquilo que acreditava. Seu filho, Felix Klee, deixou registradas algumas palavras de seu pai na lápide construída em sua homenagem. “Neste lado de cá, não sou nada palpável, pois vivo tanto com os mortos como aqueles que ainda não nasceram, um pouco mais próximo da criação que o habitual, embora ainda não suficientemente perto. Será que emano de mim calor? Frio? É impossível falar disso sem paixão. Quando estou mais longe é que me sinto mais piedoso. Isso são aspectos de um conjunto. Os padres não são suficientemente piedosos para ver. E esses sábios ficam um pouco escandalizados”.







