O último olhar
Redação DM
Publicado em 28 de junho de 2016 às 03:04 | Atualizado há 10 anosNeste mundo, nem todas as realidades se resolvem no flagrante do aqui e do agora. Embora a vida pareça ser apenas um presente contínuo, ela é tecida também de fatias do passado e do futuro. É um amálgama de reminiscências do que foi e de projetos do vir a ser. Quem não tem esperanças no amanhã, nem sequer amanhece no dia seguinte.
O nosso calendário existencial é marcado de fatores e valores que às vezes se contrapõem. Fatores que nos prendem às circunstâncias de momento e valores que transcendem as barreiras da cotidianidade. Os limites de tempo e espaço e de influências internas e externas, podem alterar nossas ações em relação aos fatos circunstanciais, mas não quanto aos valores permanentes, como do bem, do justo, do verdadeiro.
Assim é que pode ter sido quem lê este escriba, educado por sua mãe para ser um bom membro de sua tribo e sentindo-se também cidadão do mundo. O filho faz parte da família que faz parte da sociedade que faz parte da humanidade que faz parte do existente em conjunto que reflete a ordem cósmica e está subordinado às leis naturais que estão vinculadas às leis divinas.
No mundo globalizado de hoje, que antes se resumia na nossa pequena aldeia, havia uma escala de valores que se sobrepunham aos fatores e às circunstâncias mesológicas e não desfiguravam as imagens das pessoas que agiam como intermediárias dos reinos natural e animal na relação com o Criador. Não se imaginaria que o homem, lobo do próprio homem, viesse a tornar-se também destruidor da natureza como o pior dos animais.
Talvez toda essa desestruturação humana tenha início e fim na matriz familiar centrada na figura materna. É o primeiro olhar da mãe que agasalha a alma instalada no filho e é seu último olhar que ilumina o ser do filho quando parte para a eternidade. Há mãe sem filho, mas não há filho sem mãe. O filho parte, mas a mãe fica. E a mãe leva o filho quando parte, lançando seu último olhar. Imagine-se como Cristo, que se fez homem, partira sob o último olhar de sua mãe. Por isso Cristo partiu antes, porque não poderia ficar órfão.
(Emílio Vieira, professor universitário, advogado e escritor, membro da Academia Goiana de Letras, da União Brasileira de Escritores de Goiás e da Associação Goiana de Imprensa. E-mail: [email protected])