Candidatura avulsa
Redação DM
Publicado em 28 de junho de 2016 às 03:02 | Atualizado há 10 anos
Às vezes penso que neste mero ofício de escriba a que de vez em quando me atrevo a dedicar, mais confundo do que esclareço. É que por dentro de mim as soluções parecem fáceis. No entanto, quando a ideia chega ao papel o assunto muda de figura. Nem tudo é tão simples como acho que seja. A tal história de se tentar convencer o outro sem muito questionamento.
Então, aqui vou eu de novo. No meu jeitão simples de encarar as situações, sigo pelo caminho largo de buscar resposta de olho no lado imediato, o mesmo que enfrentar o momento presente.
Longe de mim, pretender sugerir a extinção dos partidos políticos. Ainda creio que eles são instrumentos democráticos de organização da sociedade -pelo menos com essa ideia foram concebidos originariamente no mundo. Mas, muito perto de mim, culpá-los, quase que unicamente a eles, pelos desmandos e desgovernos instalados no Brasil.
Bem sei que se trata de problema recorrente, os desajustes partidários, que remonta aos tempos da Proclamação da República, mas, agora, sem termo de comparação, os partidos políticos mais parecem quadrilhas que se revezam no aparelhamento do Estado e dele retira a sua finalidade única, qual seja, a de existir para o bem-estar social. Foram transformados em ninhos da corrupção.
Imagine se aqueles milhões de manifestantes que vestia amarelo e cobravam posturas honradas no trato com a coisa pública fossem filiados a partidos políticos. Seria o reverso da moeda. Mas não. Nas ruas estava quem não queria (e não quer) exatamente a presença de políticos e de filiados a partidos políticos.
A descrença popular nos partidos políticos me fez lembrar, naquela hora, da candidatura avulsa. A saída para a multidão que quer participar da vida política, mas desatrelada de facciosismo.
Tal qual o povo, também não acredito em reforma política feita por quem é o primeiro interessado, ou seja, o próprio político. Sou do ramo e conheço tintim por tintim o que passa pela cabeça de político partidário: preservar o que já tem.
A candidatura avulsa, no meu pobre entendimento, é a reoxigenação da democracia: a possibilidade do povo chegar ao poder sem vícios. Simples assim.
(Iram Saraiva, ministro emérito do Tribunal de Contas da União)