Conflitos da República
Redação DM
Publicado em 26 de junho de 2016 às 02:11 | Atualizado há 10 anosO conflito é o pai de todos”. (Heráclito).Sendo o conflito o terreno onde pisa toda criatura senciente – e a realidade que habita todo Homem, pode-se dizer, pela mesma ótica, que o caos e a crise são o combustível a mover o motor e as engrenagens das sociedades republicanas ditas democráticas. Nas sociedades ou nações subjugadas pela mão forte do autoritarismo os conflitos são camuflados ou não assumidos, sobrevivem nos subterrâneos, visto que a vontade absolutista do tirano impõe suas leis e métodos, dá o pão e o castigo a quem bem entender.
Não há como fugir, escapar a essa inexorável realidade.A não ser que se tenha morrido e esquecido de tombar ou cair, ser dado como defunto, como diz o jargão popular. E que, sendo possível, se decida e se consiga viver sozinho neste mundo, um espécie de moderno Robinson Crusoé, sem relação com iguais, em humanidade e em direitos e deveres de cidadania.
Para o antropólogo e escritor Roberto Da Matta, nas Repúblicas “o humano seria movimentado por um equilíbrio instável entre crises de carência e abundância”. E a História – prossegue Da Matta – “uma inútil busca terrena por realizações que agravam a sensação de erro (e da culpa), porque condicionam a vida real, (sempre contraditória) a códigos transcendentais feitos no céu, que nos tornam devedores. As Repúblicas democráticas e igualitárias enfrentam crises permanentes, todos os dias. Nelas tudo era a crise, é a crise – que não é excessão, mas a realidade perpétua das construções”.
Lembro aqui alguns exemplos desta eterna construção e realimentação de desencontro entre humanos, ou de crises nas relações entre eles .Até no carnaval, a tradicional festa da carne, que no Brasil sempre está a todo vapor,não importando crises econômicas, recessão ou depressão ou crash. Em Salvador, nesta última festa da carne, a imprensa noticiou, em manchete garrafal, algo que deixou a República momesca em pânico: o carro de som do cantor Luis Caldas atrasou, enganchou-se na fiação. O desabafo do cantor foi quase tão estridente quanto a sua voz de taquara rachada: “Salvador está perdido”, disse o Caldas. Não há mais solução para a cidade.Talvez ninguém mais a encontre ou a salve, depois de sobre ela ter se abatido tamanha calamidade.
O Brasil inteiro comentou, lamentou o fato de Salvador não ser mais a cidade onde o festim não se atrasava.Talvez pior do que este desastre – pior que ter um samba atravessado no desfile momesco, a poucos metros da Apoteose, é ver os tais arcos do futuro, que candidatos prometem erguer para a eternidade, caso sejam eleitos, são pura retórica malandra. Astúcia e argúcia de quem faz da miséria uma função social – pela qual se tornarão súbitos e repentinos milionários, com vida larga e airada, enquanto a pobreza em de se contentar com magros caraminguás, com que pode arcar com o passadio à base de água com farinha de puba.
Outro fato recente, e estarrecedor, vem de São Paulo, onde por sinal, o prefeito Fernando Malddad prometeu erguer um vistoso arco do futuro – que talvez possa ser representado pela Cracolândia e pelas superfaturadas ciclovias, colocadas até mesmo onde não só passem parcas pessoas com suas alimárias de carga. Este mesmo alcaide que andou tomando colchões e cobertores de moradores de rua – e ao ser lembrado de que as eleições estão vesprando, e ele estará disputando a reeleição, voltou atrás, mandou construir abrigos para moradores de rua, em tempo recorde, bem confortáveis e contando até com espaço para acomodação de carroças de muios eixos. No afã de mudar a imagem de perseguidor de mendigos, não nos espantaria se dotasse os tais abrigos de serviço de manobrista.
(Brasigóis Felício, escritor e jornalista. Membro da Academia Goiana de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico do Estado de Goiás.)