Brasil

Viva São João

Redação DM

Publicado em 25 de junho de 2016 às 02:51 | Atualizado há 10 anos

Quanto de realidade fantástica pode existir em nosso sertão goiano? É correto afirmar que nossa realidade é permeada por símbolos e signos que de alguma forma podem ser vistos com olhos irreais mesmo para aqueles moradores da cidade? Gostaria de situar neste breve texto as nossas comemorações acerca do dia de São João e nossas tradicionais festas juninas.

De origem pagã, a festa tradicional em nosso meio nasceu como uma comemoração ao solstício de verão. Comemorado no dia 21 de junho a festa era uma forma de se comemorar as colheitas. Com a conquista e expansão territorial do império romano, muitas das práticas culturais de povos pagãos conquistados foram sendo reificadas e reincorporadas pelos romanos.

Por sua vez estas simbioses de ritos pagãos com romanos, foram readaptados pelo cristianismo após a aceitação e incorporação desta religião pelo império romano. Efetuado com a inciativa do Imperador Constantino I, o concílio de Nicéia (325 D.C.) instituiu o cristianismo como religião oficial de Roma, mas para que tivesse maior aceitação popular, reconfigurou determinados símbolos e ritos pagãos de acordo com o seu culto e aceitação. É assim que o tridente de Poseidon, chamado pelos romanos de Netuno, se transformou no “garfo do capeta”, além de outros exemplos.

No caso das festas juninas, estas foram trazidas pelo catolicismo Luso, quando da vinda da família real para o Brasil em 1808. Obviamente aqui estas comemorações tiveram novas readaptações, a quadrilha é um exemplo. Esta dança era praticada nas cortes francesas, e aqui fora tida como necessária para criar uma aura de maior contato entre o público e os dançarinos.

No caso de nossa regionalidade, temos também símbolos que nos caracterizam como praticantes anuais da fogueira de são João. Muitos devotos (minha família entre eles) repetem tradicionalmente o rito de confeccionar a fogueira e acendê-la durante a reza do terço. Logo após levanta-se o mastro com a figura de são João, que lá deve permanecer até o inicio das comemorações do Divino Pai eterno. A bandeira enfeitada deve ser erguida e posicionada sempre com a figura do santo voltado para o lado da casa, sinal de boa fé e de bons tempos vindouros.

Passar pelas suas brasas como prova de fé, ou mesmo a nossa tradição de batizar as crianças fazendo-as pular por cima de um toco em chamas, são rememorações das nossas heranças de um catolicismo luso, consolidado à luz de misturas pagãs e cristãs. Tudo isto coligado a miscigenação do sobrenatural, que faz com que o fiel acorde no dia posterior ao dia 23 de junho, encha uma vasilha com água, para que ansiosamente veja nela seu reflexo. Sinal este de que viverá bem até o próximo dia do santo no ano conseguinte.

Esta prática é tão comumente citada oralmente, quanto evitável na prática, pois o medo da morte suprime os mais coagidos a não passar por este ritual, pois caso não vejam seu reflexo na vasilha estarão fadados a um fim certo antes da comemoração do dia de São João no próximo ano.

Em resumo, nossa religiosidade sertaneja é permeada de arcadismos e matrizes medievais, muitas de nossas práticas religiosas coletivas, de nossos folguedos, são tradições que repetimos a gerações muito anteriores ao nosso tempo. Cabe a nós independentemente de nossa fé, dar continuidade aos cada vez mais escassos ritos e folguedos, e por conseguinte continuar uma história milenar.

 

(Túlio Fernando Mendanha, historiador e aluno de mestrado do PPGAS UFG. [email protected])

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