Só maluco
Redação DM
Publicado em 22 de junho de 2016 às 03:36 | Atualizado há 10 anos
Puxei uma cadeira, sentei-me e falei:
“Vou buscar um gole.”
“Pode crê”, respondeu Raphael.
Levantei-me e fui em direção ao bar. No meio do caminho, encontrei um cara estranho – conhecido da boêmia marginal goiana.
Saudei-o:
“E aí, meu truta?”, eu disse. “Só de boa?”
“Cem por cento, bicho”, redarguiu. “Qualquer coisa, tem um corre ali.”
“Sussa”, agradeci.
Apertei as mãos dele. Tinha uma pegada forte. Em algum momento de sua vida, falaram-lhe para não poupar força na hora de segurar a mão de alguém. Ele, claro, gostou do conselho. E passou a segui-lo.
Peguei a cerveja. Retornei à mesa. Servi meu copo e de Raphael. Demos uma leve bebericada, quando notei Natália no outro lado da rua, sorrindo e caminhando em nossa direção.
Fazia um ano que a gente não se via. Éramos ligados. Cursávamos Jornalismo na PUC. Fomos grandes colegas. Uma mão sempre lavando a outra. Todo final de semana estávamos no bar, reclamando da vida, criticando a ordem e o status quo. Depois que ela decidiu abandonar o curso, ficou eu e Raphael indo à aula. Aí, eu tranquei. Voltei. E, agora, ele trancou. Ah, temos de pensar na vida, temos de refletir, temos de viver, temos de amar e amar e amar, cara. Porque apenas o amor livra a alma dos homens, porque apenas o amor faz com que o mundo seja um lugar menos lunático.
Enchi meu copo, acendi um cigarro e brindei:
“Se não brindar, é sete anos sem trepar”, brinquei.
“Tem essa mesmo, né”, alertou Raphael, sempre cultuando a filosofia de boteco.
Dei um bom gole.
Natália começou a contar sobre sua vida. Discorreu sobre seu emprego, sobre seus relacionamentos, sobre suas inseguranças e expectativas existenciais. A gente apenas ouvia-a. Em algum momento, precisamos nos calar. Raul Seixas era sábio. Em entrevista ao Programa do Jô, em 1989, no SBT, ele disse que chegara numa fase da vida em que só pensava. Um homem pra chegar a essa conclusão tem de ter estilo.
Raul tinha estilo.
De repente, Raphael começou a palestrar:
“Porra, tanta coisa acontecendo no mundo e tô me embriagando nesse momento.”
Soltei uma gargalhada.
“Mas não é”, ele disse. “Altas tragédias.”
Matei meu copo. Raphael fez uma piada, pra variar:
“Cê tá gostando.”
“Ah, claro”, falei. “Cerva é bão, né?”
Acendi um Camel amarelo. Nathália havia ido ao banheiro. Então, Raphael profetizou:
“Uma mulher não fica na seca igual um cara.”
“Lógico”, respondi.
“Pense: pro homem sempre é mais foda. O cara tem que gastar tempo, paciência, dinheiro e outras coisas pra poder f… com uma muié.”
“Sei”, eu disse, meneando a cabeça.
Um maluco veio em nossa direção. Proferiu algumas palavras aleatórias, cujo significado não entendi e pediu, enfim, grana pra comprar uma catuaba. Levei as mãos à carteira: apenas uma cédula de dez contos, que está reservada pra próxima cerveja. Natália, também, avisou que estava sem dinheiro. Raphael, o sujeito mais fiel que você pode ter ao seu lado, tirou de seu bolso umas moedas, levantou-se da cadeira e foi ao bar, comprar o gole do cara.
Pouco contente, o camarada voltou à nossa mesa. Bradou alguma coisa relacionada a computador. Não compreendi porra nenhuma. Sou um ignorante em informática. Sei fazer apenas o básico. E nunca precisei de mais. Por alguma razão que desconheço, o cara achou que a gente estava interessado em seu papo.
“Como é o seu nome?”, Raphael perguntou.
“Cê é loco?”, bradou.
“Por quê?”, perguntei.
“Como vou falar meu nome por aí?”, questionou. “Cê falaria teu nome numa boa?”
“Eu?”, falei. “Acho que sim, numa boa.”
Ficamos neste construtivo diálogo alguns minutos.
À noite, só maluco.
(Marcus Vinícius Beck, escritor)