Brasil

Histórias que os espíritos contaram

Redação DM

Publicado em 22 de junho de 2016 às 03:33 | Atualizado há 10 anos

Falecido em 1934, Humberto de Campos, famoso como escritor, contista e jornalista, sempre usando a mediunidade de Francisco Cândido Xavier e também o pseudônimo de Irmão X, passou a escrever histórias que os espíritos contaram sobre Jesus.

São primorosos seus livros Boa Nova, Cartas e Crônicas, Contos e Apólogos, Contos Desta e Doutra Vida, Crônicas de Além-Túmulo, Estante da Vida, Lázaro Redivivo, Luz Acima e Pontos e Contos.

Lembremos, por exemplo, das dificuldades do Mestre em fazer-se compreender pelos próprios apóstolo. Em Estante da Vida, por exemplo, ele nos mostra Pedro trocando as bolas em “Jesus e Simão”, cujo resumo apresentamos ao gentil leitor:

Retirava-se Jesus do lar de Jeroboão, filho de Acaz, em Corazim, para atender a um pedido de socorro em casa próxima, quando quatro velhos publicanos apareceram, de chofre, buscando-lhe o verbo reconfortante.

O Mestre contemplou-lhes a veste distinta e os rostos vincados de funda inquietação, e compadeceu-se. Instado, porém, por mensageiros que lhe requisitaram a presença à cabeceira de alguém que se avizinhava da morte, o excelso Benfeitor chamou Simão Pedro e pediu-lhe:

– Pedro, nossos irmão chegam à procura de renovação e de afeto. Rogo sejas, junto deles, o portador do bem eterno. Ampara-os com a verdade, prossigamos em nossa tarefa de amor…

Pedro entendeu o contrÁrio

O apóstolo relanceou o olhar pelos circunstantes e, tão logo se viu a sós com eles, fez-se arredio e casmurro, esperando-lhes a manifestação. Foi Eliúde, o joalheiro e mais velho dos quatro, que se ergueu e solicitou:

– Que instruções e bênçãos nos dás, ó dileto companheiro das Boas Novas? Temos sede do reino de Deus que o Mestre anuncia.

Pedro, contudo, de olhar coruscante, qual se fora austero zelador de consciências alheias, brandiu violentamente o punho fechado sobre a mesa e falou ríspido:

– Conheço-vos a todos, ó víboras de Corazim!

E apontando o dedo em riste para Eliúde, aquele mesmo que tomara a iniciativa do entendimento, acusou-o severamente:

– Que pretendes aqui, ladrão das viúvas e dos órfãos? Sei que ajuntaste imensa fortuna à custa de aflições alheias. Tuas pedras, teus colares, teus anéis!…, que são eles senão as lágrimas cristalizadas de tuas vítimas? Como consegues pronunciar o nome de Deus?

Voltando-se para o segundo, na escala das idades, esbravejou:

– Tu, Moabe?, como te encorajas a vir aqui, após extorquir os dois irmãos, de quem furtaste os bens deixados pelo pai deles? Esqueces de que um deles morreu consumido de penúria e de que o outro enlouqueceu por tua causa?

Dirigiu-se ao terceiro dos circunstantes:

– Que buscas, Zacarias? Não te envergonhas de haver provocado a morte de Zorobatel, o sapateiro, comprando-lhe as dívidas e atormentando-o por execráveis cobranças, só no intuito de roubar-lhe a mulher?

Virando-se para o último, gritou:

– Que te posso dizer, Ananias? Há muitos anos, sei que fazes o comércio da fome, exigindo que a hortaliça e o leite subam constantemente de preço, em louvor de tua cupidez…

Simão alçou os braços, como quem se propunha irradiar a própria indignação e rugiu:

– Súcia de ladrões, bando de malfeitores, o reino de Deus não é para vós!

Jesus veio tratar os doentes

Nesse justo momento, Jesus reentrou na sala, acompanhado de alguns amigos e, entendendo o que se passava, contemplou, enternecidamente, os quatro publicanos arrasados de lágrimas, ao mesmo tempo que se abeirou do pescador amigo, dizendo:

– Pedro, que fizeste?

– Senhor, tu disseste que eu deveria amparar estes homens com a verdade…

– Eu falei “amparar”!

Assim dizendo, Jesus aceitou o convite que Jeroboão lhe fazia para sentar-se à mesa e, sorrindo, insistiu com Eliúde, Moabe, Zacarias e Ananias para que lhe partilhassem a ceia. Organizou-se bela reunião, na qual o Verbo se mostrou reconfortante e enobrecido. Quando os quatro publicanos se despediram, sentiam-se diferentes, transformados, felizes…

Jesus e Simão retiraram-se igualmente e, quando se acharam sozinhos, ante as estrelas da noite calma, o rude pescador exprobou o comportamento do divino Amigo, formulando perguntas, por meio de longos arrazoados. Se era necessário demonstrar tanto carinho para com os maus, como estender auxílio aos bons? Se os homens errados mereciam tanto amor, que lhes competia fazer, em benefício dos homens retos?

O Cristo escutou as objurgações em silêncio e, quando o aprendiz calou as derradeiras reclamações, respondeu numa frase breve:

– Pedro, eu não vim à Terra para curar os sãos…

 

 

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