Improbidade anunciada na cultura municipal
Redação DM
Publicado em 21 de junho de 2016 às 02:30 | Atualizado há 10 anosAperte o cinto que vamos entrar direto no assunto. A atual presidência da Associação Goiana de Artes Visuais (Agav) pode ser acusada de três faltas, aqui listadas por ordem de gravidade: imoralidade, peleguismo e ilegalidade. Aos fatos.
A imoralidade está em tentar acobertar a má gestão do atual secretário municipal de cultura de Goiânia ao aceitar ‘ocupar e tocar’ um espaço atualmente abandonado, o Palácio da Cultura, na praça Honestino Guimarães, dita Universitária, fazendo às vezes do poder municipal.
Imoral porque cabe à entidade representativa dos artistas visuais justamente cobrar do poder público a má gestão do referido espaço, o seu abandono e fechamento, e não migrar para o outro lado.
O Palácio da Cultura é um espaço dedicado às artes visuais e que não funciona devidamente já há muito tempo, culminando com seu abandono e total fechamento. Ao não cobrar das autoridades públicas a devida atenção para este espaço a Agav faz um desserviço à toda classe artística e cultural goiana.
Ao dizer que vai ‘assumir’ o local a Agav troca o que lhe é de direito por um dever que não tem as mínimas condições de cumprir. E aceita chamar para si uma responsabilidade que não é sua, mas do atual gestor municipal de cultura, que não consegue atender as mínimas demandas da classe artística.
Ademais, cria-se com o anunciado tão somente um factóide para acobertar as críticas pelo fechamento e abandono daquele espaço, uma vez que junto com a responsabildiade delegada à Agav o poder municipal não lhe transfere nenhum orçamento, nenhum apoio de fato, só o peso.
A segunda falta grave da Agav advém do peleguismo de sua atual presidência. É sabido que por meio desta entidade o poder público municipal tem conseguido fazer dos artistas uma massa de manobra das mais fáceis de controlar. Muitas vezes ao sol ardente, os artistas são chamados para realizar gratuitamente suas pinturas. Estes (não se sabe se por culpa da paixão que devotam ao trabalho artístico ou por culpa de uma inocência inata) acreditam estar assim engrandecendo-se duplamente, pessoal e artísticamente. Mas engrandecem, de fato, tão somente quem nada faz por eles.
Bastava se apenas fossem respeitados. Mas o que acontece é que essa mão de obra artística barata é chamada para pintar tapumes, portas de lojas, muros e tapumes e mais tapumes e nada. Tudo termina aonde e como começou, com as artes apenas preenchendo buracos para que estes não sejam vistos pela população. Invariavelmente, os artistas vão vendo aos poucos suas obras sendo depreciadas e purgadas pelo tempo, desmanchando-se no ar sem a menor atenção de quem as solicitou.
Na imensa maioria das vezes o artista atende o chamado porque ama o seu trabalho e, como artista, quer se expressar e comunicar com o público, independentemente da condição e do uso que se lhe façam de suas obras. Triste, mas verdade.
Mas inocente é que o atual presidente da Agav, Nonatto Coelho, não é, embora não sejam totalmente claros os seus objetivos. Já indo para seu terceiro mandato à frente da associação, ele tem defendido abertamente a administração cultural municipal, mesmo contra as evidências cabais de que se trata de uma administração falha, inconsistente em si e, pior, desamparada pelas prioridades do sr. prefeito Paulo Garcia.
Quem mais defenderia uma administração cultural que fecha bibliotecas (Cora Coralina, na Praça Joaquim Lúcio, em Campinas, e Marieta Telles Machado, na Praça Universitária)? Que fecha galerias (Palácio da Cultura), fecha centro culturais (Goiânia Ouro), abandona o Arquivo Municipal deixando ao léu os documentos da memória goianiense, inaugura obras sem terminar (Praça Pedro Ludovico Teixeira, dita Praça Cívica), anuncia com estardalhaço retomada de obra sem sequer dar satisfação por que até hoje não foi iniciada (Casa de Vidro), promove recuos e ilude a opinião pública com informações inverídicas de negociações que não avançaram (Grande Hotel) e, como se nada disso estivesse acontecendo, eis que o próprio secretário municipal de cultura, ele mesmo membro da Agav e responsável primeiro por todo este caos, resolve placidamente, ignorando a carniça coletiva, fazer uma sua exposição individual de pinturas. Assim é que se apresenta a Exposição do Absurdo (motivo de outro artigo publicado no DM, 15/06), que felizmente já podemos divisar o seu fim com os novos rumos que a capital há de tomar.
E continuando com o sinto apertado, na escala das gravidades crescentes chegamos à terceira falta da Agav, a ilegalidade. Ao anunciar que vai assumir a responsabilidade pela administração e programação do Palácio da Cultura, que passa a ser desfrute exclusivo de seus associados pagantes, evidencia-se de forma gritante a falta de transparência no procedimento que é realizado entre esta entidade civil de direito privado e a Secretaria Municipal de Cultura.
No mínimo, haveria de ter um chamamento público para que, de igual para igual, possam se apresentar outras associações que não apenas a pelega e imoral presidência da Agav (salientando-se que a grande maioria de seus artistas associados nada têm a ver com isso).
Neste caso, qualquer termo que se lavre alterando os destinos daquele espaço, seja convênio, seja contrato, seja cessão, seja empréstimo, há que se ter a necessária transparência e divulgação, instituindo-se um processo que passa pela participação de toda a sociedade. O que dizer ao Ministério Público? Improbidade anunciada.
(Px Silveira, Instituto ArteCidadania)