Brasil

Travessuras

Redação DM

Publicado em 21 de junho de 2016 às 02:13 | Atualizado há 10 anos

Não sei se as crianças de hoje ainda fazem travessuras. Elas me parecem tão quietinhas, tão absortas com seus celulares, smartphones e whats´apps que talvez não tenham tempo nem disposição para serem meninos e meninas de verdade. Na minha infância, ao contrário, sobrava tempo e a disposição era permanente. Como aconteceu na fazenda, onde havia espaço e clima para peraltices.

O dia começava de madrugada e terminava igualmente cedo. Às cinco da tarde servia-se o jantar na varanda voltada para o pátio, plantado com buganvílias e inacreditáveis parreiras que, no clima equatorial, produziam uvinhas raquíticas, azedas de doer. Um pouco antes, era a hora de recolher as criações: galinhas, galos, capões, frangos e pintinhos; patas, patos e patinhos; alguns perus e até gansos solenes que faziam muito barulho nas noites de lua cheia.

Proibida de participar daquela festa campestre – para não assustar os animais, ao que diziam – eu me aboletava no peitoril, de onde via a velha Esperança sacudindo uma bacia onde chocalhava o milho, chamando as aves pelo nome e empurrando com um bastão as mais afoitas. Saciadas, bebiam água nas gamelas; feito o que eram enxotadas para o galinheiro, compartimento fechado com ripas, onde compridos paus pousavam sobre forquilhas.

Meu irmão – que não era santo – descobriu que os poleiros mal se equilibravam, e eram frouxamente amarrados com embiras de tucum. Sem que ninguém o visse, esgueirou-se para dentro do galinheiro, desatou os amarrilhos e colocou pedrinhas nos encaixes, tornando mais precário o equilíbrio do conjunto. Concluída a obra e com cara de santo, o menino veio juntar-se à família reunida ao fim do dia para degustar as iguarias do jantar.

A intensa luminosidade começava a suavizar-se; sombras alongavam-se nos frisos das paredes, pintados com motivos de frutas e flores. De repente, a algazarra. Cacarejos, gorgolejos, gritos; um enorme alarido que alvoroçava os bichos e as gentes. Paus caíram fazendo escarcéu; aves bateram as asas e voaram baixo–era um Deus nos acuda!

Já sentado à mesa, meu tio levantou-se de um pulo e proclamou:–Raposa no galinheiro!

Correndo, saiu para pegar a espingarda de caça; correndo, dispôs-se a matar o predador, dando ordens curtas para os empregados – que cercassem o bicho, que não o deixassem escapar.

Houve quem jurasse ter visto uma enorme raposa; houve quem afirmasse ser mucura ou gambá. Certo é que as investidas contra o intruso não resultaram em nada. Até porque Seu Dodô, o caçador convocado para colaborar na empreitada, jurou que não viu nenhuma pista de animal estranho. E, assim como começou–ou seja, do nada–as investidas ao galinheiro cessaram por completo.

Só agora – sete décadas depois – meu querido irmão Domingos, almirante dos sete mares e contista emérito, resolveu assumir a responsabilidade pela frustrada caçada aos galináceos.

 

-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-

 

A irmã Ave Maria vinha de tempo em tempo angariar donativos para uma obra pia, que sua congregação mantinha em Porto Nacional. Certa tarde, ela apareceu de surpresa; era um sábado e eu prometera levar meus filhos à matinê do circo, marcada para as seis horas.

Conversa vai, conversa vem, o tempo passava; ela trouxera pequenos presentes para as crianças, que os receberam um tanto ressabiadas. Na sala, eu me esforçava por prestar atenção – mas acompanhava com o rabo dos olhos a movimentação interna, que parecia inusitada. Para buscar uma bandeja de café, fui à cozinha, onde a empregada nova (entre risos) colocava uma vassoura atrás da porta, para a visita ir embora. Dei uma bronca relâmpago; mandei que ficassem quietos e voltei para servir o café.

A irmãzinha estava sentada no sofá, de costas para a janela; agradeceu a bebida e começou a degustá-la entre elogios. Eis que, de repente, um barulho de tiro nos assustou: a xícara caiu-lhe da mão, o líquido derramou no hábito branco. Corri para acudi-la, mas não houve tempo, o estrago estava feito. Olhamos em redor e nada vimos que justificasse o estampido. Convidei-a a entrar, lavar a mancha que se formara. Ela agradeceu educadamente, mas despediu-se: tinha hora para voltar ao pensionato.

Chamei meus dois anjinhos a fim de esclarecer o entrevero: Murilo, o mais velho, simplesmente pegara seu revolver de espoleta e partira para a ação. Como não rir do expediente?

O espetáculo do circo foi ótimo e nos divertimos a valer.

 

(Lena Castello Branco, escritora,[email protected])

 

Tags

Leia também

Siga o Diário da Manhã no Google Notícias e fique sempre por dentro

edição
do dia

Impresso do dia