Brasil

“O museu e a arte de ensinar”

Redação DM

Publicado em 18 de junho de 2016 às 03:47 | Atualizado há 10 anos

Nos últimos meses tem-se considerado muito a Cultura no Brasil. Não em termos de investimento ou importância social, mas de uma forma deselegante, que expõe a realidade do país diante de “algo” por muitos considerado desnecessário.

Ouvi de amigos professores a palavra “tema” quando falávamos sobre o assunto, como se Cultura fosse um tópico a ser discutido, e não uma direito do indivíduo e da sociedade como um todo.

Faz-se necessário esclarecer aos viajantes de plantão, ou de Platão, que Cultura gera emprego, bem estar social e conhecimento. Ela não se caracteriza como um tópico, tema ou teorema. A Cultura é tão necessária como um leito no SUS. É bem verdade que sem leitos médicos morremos as mínguas em hospitais abarrotados e despreocupados com a condição humana. Mas sem cultura morremos na alma. Nos tornamos simples caminhantes de um mundo sem cores, sem vida. O conhecimento produzido por mentes brilhantes, que hoje são denominados de “vagabundos” por muitos brasileiros, se perdem em conceitos do senso comum, construídos por uma mídia que lucra com o mediatismo cultural carregado de figuras “nada brilhantes”.

Em momentos nebulosos como esses, faz-se necessário o resgate da pratica do ensinar através de ações culturais, para que as pessoas entendam a importância da Cultura para a formação do individuo, aproximando a sociedade dos reais objetivos da artes.

A exposição “Yashira – Museu do mundo” em cartaz no MAG (Museu de Arte de Goiânia) expõe para quem quiser ver o quão importante é o trabalho de um artista, de uma mente brilhante.

Visto por muitos como um ambiente onde se “entulha” quadros, Yashira (esse senhorinha de 81) vem nos mostrar como equivocada é essa história. Sua Ação Educativa para crianças e jovens ultrapassa  as paredes do MAG, sempre cheia de vida e originalidade.

Suas obras pioneiras, feitas com espelhos, laminados, animais mortos, folhas, cipós, móveis, sapatos, cartazes, fotografias, pedras, fungos, recortes de jornais, embalagens descartadas, mapas, fragmentos de aparelhos eletrônicos, cascas de frutas, contas, ícones religiosos e terços objetivam sempre a reinvenção da paisagem,  dando-lhes outros sentidos, nos levando a reflexão sobre o consumismo e a necessidade de preservação da natureza.

Essa artista de que falo, uma sacerdotisa em tempo integral, ultrapassa as limitação do seu corpo, defendendo sua obra com uma determinação pouco vista nos artistas da modernidade. Guerreira de muitas encarnações, constrói junto aos jovens um dialogo sincero, singelo e espiritualista.

Não há como não se emocionar vendo-a em ação. Não há quem não se encante com essa senhorinha de muitas vidas, de muitas historias. Seu corpo frágil recusa-se a desistir. Sua batalha constante pela preservação da natureza ressalta aquilo que o artista tem de melhor, aquele poder de construção através do imaginário, a chamada “arte do fazer pensar”, algo tão difícil nesse mundo midiático e cheio de frivolidades. Como Yashira mesmo diz, sua internet é cósmica e que Ela não é desse mundo. No entanto minha querida artista, tenha certeza que es desse mundo sim, tão humana, tão brilhante.

Num lugar incomum como o Brasil, onde Cultura não é prioridade, Chico Buarque é Vagabundo e Malafaias homens de Deus peço apenas que me armem com sabedoria, porque eu quero lutar. Talvez Yashira seja minha munição para os dias nebulosos que virão.

 

(Silvana Camello, analista em Cultura e Desporto da Secretaria Municipal de Cultura de Goiânia, profissional da Educação (PE-II) da Secretaria Municipal de Educação e Esporte de Goiânia, formada em Educação Física pela Eseffego. Especialista em Métodos e Técnicas de Ensino)

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