Brasil

A campainha mágica

Redação DM

Publicado em 17 de junho de 2016 às 01:56 | Atualizado há 10 anos

Estávamos em quatro, às vezes cinco: Lamón, Robertinho, Cláudio, Lúcio – o motivo da variação numérica, já que nem sempre estava conosco – e eu. Tínhamos dez anos a maioria, e Cláudio, o mais velho, doze. À procura de chifre em cabeça de égua, pelas ruas de Itauçu, na falta entediante de ter o que fazer, andávamos sempre juntos, aquela tropa, apertando campainhas a torto e direito. Antes de os moradores das casas saírem solícitos para atender, perna pra quem tem. Uma correria só. Éramos tão velozes, uns Hermes avessos e traquinos. Escondendo-nos por detrás de árvores, esquinas depois, ríamos abafado vendo as pessoas saindo alegrinhas e, ao depararem com o vazio, mudarem instantaneamente de humor.

– Que molecada atentada, meu Deus! – protestava a mulher com cabelo despenteado.

– Se eu pegar esses capetas, eles me pagam! – ameaçava o marido.

– Devem ter mães não. Olha lá um atrás da árvore! Seus encapetados! Vão perturbar suas mães! – continuava a despenteada.

– Vou pegar eles! – decidia o marido, vindo em nossa direção.

E saíamos todos correndo ladeira acima gargalhando euforicamente. Aquela casa, por força disso, seria poupada por alguns dias da “intempérie da campainha fantasma”.

Itauçu, para quem não conhece, é íngreme. Morávamos todos na parte mais alta, em uma área conhecida como Morro dos Cabritos. Nenhuma de nossas casas tinha campainha. Normalmente moravam lá em cima famílias mais pobres, lavradores e outros trabalhadores braçais, sendo impensável nessa época alguém ter carro ou telefone, e também campainha. Já a maioria dos que moravam nas casas na parte de baixo da cidade, a situação era oposta. Eram funcionários públicos, fazendeiros e empresários. E no ócio de nossos dias, descíamos todos para lavar a alma nas campainhas.

Certa feita, uma novidade veio dar tons diferentes aos cenários de nossa pintura infantoardilosa.

– Tem uma campainha diferente numa casona lá embaixão, perto do asfalto – anunciava Cláudio. Fiquei sabendo que ela fala com a gente. E o melhor de tudo é a gente pede bolo, passa um pouquinho, sai alguém e dá bolo para gente – concluía ele com água na boca.

– Nossa! – dizíamos, deslumbrados, ao mesmo tempo.

Uma campainha mágica. Mágica campainha que, uma vez tocada, não deveríamos correr, pelo contrário. Não tardou, fomos conferir a veracidade disso.

Cláudio fez frente, numa incontestável postura de bravura e liderança. Chegou, meteu o dedo com decisão no botão azulado. Enquanto aguardava, reapertava o barbante da bermuda. Em alto e bom tom, inacreditavelmente, dando uma sensação supimpamente surreal, a caixinha da campainha falou mesmo. Assustamos, mas não arredamos pé.

– Pois não?!

– Tem bolo? – perguntou Cláudio com a voz atenuada.

– Só um minuto.

– É verdade! Essa campainha fala com a gente! Ouviu aí? – disse Cláudio admirado virando-se para nós.

Aquela casa grande, uma mansão, a maior da cidade, pertencia a um distinto empresário da cidade, o finado Nelson Saddi. E devia ele ter o coração muito bondoso, pois, de fato, dali a alguns minutos, a empregada saía com um saquinho lotado de bolos. E não estavam amanhecidos. Alguns pedaços ainda estavam quentes, como se acabassem de sair do forno. Cláudio recebeu a doação e agradeceu a empregada com um ligeiro “Deus te pague”. Com a mesma postura, ele nos convocou para sentarmos todos embaixo de uma árvore a metros dali para partilharmos as delícias ganhadas.

Com a sacola aberta e estendida ao alcance das mãos, uma pequena celeuma se deu durante distribuição dos bolos. Avança não. Calma. Hum! Esse de chocolate é meu. Tem dois de chocolate, deixa um pra mim? Eu que dei a ideia, eu pego primeiro. Pode pegar, mas deixa esse branco pra mim? Tem bolo para todo mundo, gente, calma lá. Amarelo, deve ser de cenoura. Toma aqui um amarelo. Gostou não? Não. De cenoura não, é de fubá, e eu não gosto. Quer trocar, Roberto? Então me dá aqui, e toma! Que gostoso, deve ser de vaunilha. Ham? O quê? Não quer dizer baunilha? O gosto é o mesmo, tanto faz.

Desse dia em diante, tornou-se praxe a visita à grande casa da campainha mágica. As pessoas de lá nunca demonstraram um mínimo de impaciência conosco. Às vezes, eles mandavam quitandas em meio aos pedaços suculentos de bolo. E sempre agradecidos sentávamos no mesmo lugar para degustar aquelas deliciosas guloseimas.

Um dia, entretanto, contaram a Cláudio que havia outro lugar, sem campainha mágica nem comum, onde bastava bater palmas e, quando aparecesse alguém, devíamos fazer certa pergunta. E fomos. Era numa lanchonete às margens da GO-070. Pelos fundos chegamos. Cláudio, sempre à frente, bateu palmas. Saiu uma moça de avental, com olhar retraído e cara de poucos amigos.

– Querem o quê? – perguntou ela limpando as mãos num pano no ombro.

– Tem salgado de ontem? – perguntou Cláudio.

– Ah! Espera aí! – respondeu aliviando o semblante e deu as costas.

E não é que ela veio com uma sacolada de discos, coxinhas, enroladinhos e quibes. Como sempre fazia, Cláudio agradeceu com gentileza e ,com os olhos, fez a convocação, para sentarmos num local próximo dali. Enchemos o pandu sem dó.

Os dias passaram-se. Muito mudou. E tinha mesmo que mudar. A verdade pura e cristalina, pois essa não se deve negar nunca, é que não tínhamos motivos suficientemente plausíveis para fazermos nada disso. É bem verdade que éramos pobres, filhos de famílias humildes, contudo nada justificava tal procedimento. Digo isso, pois, apesar das nossas condições sociais, nunca faltou alimento na casa de nenhum de nós. Quando nossas mães e pais souberam de nossa “situação voluntária de pedintes” – ai, ai, ai –, coibiram sumariamente nossas saídas pelas ruas. Hei de assumir ter ocorrido até corretivos com galho cortante de pé de amora, e digo, atesto, endosso que dói pra burro.

Antes, porém, que alguma comoção desmonte a intenção lúdica destas memórias, devo acrescentar duas observações relevantes. A primeira é confessional, sobre as campainhas comuns. É que ainda relutamos por algum tempo em apertá-las, mas somente nas idas e vindas da escola. A segunda, que somente mais tarde, bem mais tarde, na época em que nos tornávamos engraxates, vendedores de picolés e laranjinhas, soubemos que a campainha mágica, na verdade tinha um nome difícil de pronunciar, quase um trava-língua. Tenfone? Não. Terfone? Não, não. Enterfon? Também não. O nome daquele negócio: interfone.

 

(Hailton Correa, agente prisional, graduado em Letras pela UEG campus Inhumas e escritor. Contato: [email protected])

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