Brasil

“Uma história social do conhecimento”

Redação DM

Publicado em 15 de junho de 2016 às 02:31 | Atualizado há 10 anos

Prossigo na leitura de livros que considero fundamentais, no intuito de assimilar e compreender o seu conteúdo. Desta vez, “Uma história social do conhecimento, de Gutenberg a Diderot”, instigante livro do renomado historiador inglês, Peter Burke, tradução de Plínio Dentzien, Jorge Zahar Editora, Rio de Janeiro, 2003. Na “orelha”  esquerda, visando mostrar  abrangência e erudição do conteúdo, a oportuna  indagação: Qual o caminho percorrido pelo conhecimento humano desde a invenção da prensa tipográfica por Gutenberg, em 1450,  até  a publicação da Enciclopédia  Francesa, de 1750 em diante?  De que forma a difusão gráfica (sobretudo através dos livros, mas não apenas) abriu caminho para que o conhecimento fosse modificado,vulgarizado e, também, questionado?

Leitura atenta, começada pelas “orelhas”, prefácio, agradecimentos e os capítulos, inaugurados por sociologias e histórias do conhecimento com oportuna introdução; o ofício do saber: os letrados europeus; a consolidação do conhecimento: antigas e novas instituições; o lugar do conhecimento: centros e periferias; a classificação do conhecimento, currículos, bibliotecas e enciclopédias; o controle do conhecimento: igrejas e estados; a comercialização do conhecimento: o mercado e a impressão gráfica; a aquisição do conhecimento: a parte do leitor; e a confiança e a desconfiança no conhecimento: uma coda; sem esquecer a rica lista de créditos e ilustrações, notas, bibliografia selecionada, índice remissivo e explicação do anverso, onde o famoso historiador de história cultural mostra como aborda a temática em questão.   Idoneidade de Peter Burker, justifica a recomendação: Leia mais do mesmo autor: A Fabricação do Rei e Uma História Social Da Mídia.

Segundo Paulo Freire: “A leitura do mundo precede a leitura da palavra”.  A internet, contudo, queira-se ou não, deu voz à imbecilidade. Pelo menos grande parte da sociedade do mundo, foi imbecilizada. Não chega a ser covarde, tola. É vítima do despreparo em que foi surpreendida diante do avanço do conhecimento científico e tecnológico, imaginando que a tecnologia resolveria tudo. Como teriam surgido as informações, espécies de conhecimento “cru”? Como a informação virou conhecimento em condições de ser chamado “cozido”?  Só com estas indagações, já vemos o quanto é importante a leitura da obra em epígrafe. Como é que chegamos onde estamos? De onde viemos, por onde passamos? Qual é o lugar do conhecimento? Quantas são as sociologias do conhecimento? Quem é que sabe o verdadeiro significado do conhecimento? Quem ousaria? E as incertezas, que ninguém sabe quantas são?

E as antigas dominações, para não chamá-las escravidões, como ficam, juntinhas das recentes, com não sei quantas xenofobias? A assanhada e até odiosa interferência da religião no universo das artes e da cultura, onde as de origem africana são as mais visadas?  E o tempo da purificação feita com a tortura? E essa barbaridade recente, que andam fazendo, mais vezes sem dar voz aos cidadãos, sobretudo os “ignorados”, os moradores de rua, por exemplo, ora morrendo inclusive de frio nas ruas das cidades brasileiras? Em Goiânia, assassinato ou execução de “morador de rua”, é um ótimo tema para dissertação de mestrado! Só falta estarmos retornando à Santa Inquisição! Notem que, por mais incrível que pareça, estamos “vivendo” intensamente a cultura do estupro, sem se poder omitir a da xenofobia e a acentuada, do “ódio racial”, estampada até na forjação ou formação do atual governo do Brasil. Por quê?

Talvez porque a maioria da população do Universo, onde grande parte é analfabeta funcional, frequente no ambiente político brasileiro, além de não saber, com as exceções, é claro, ignora o sábio conteúdo de “Uma História Social do Conhecimento: de Gutenberg a Diderot”. Esse pessoal, certamente defensor da cultura inútil, de tão sábio, não quer saber como ocorreram as mudanças na organização do conhecimento na Europa. Que importa a invenção da prensa tipográfica por Gutenberg, em 1450?  A publicação da Enciclopédia, de 1750? E no Brasil? Imaginem.  Para esses “bem postados”, retóricos, ”donos do poder”, que não é o explicado por Raymundo Faoro, o melhor é ocultar a informação, embaraçar o conhecimento, privilégio de poucos, de todo modo, divertido, às vezes inútil. Notem a seguir, duas pérolas do Espelho Mágico, de Mário Quintana:

“Do espetáculo de si mesmo. Conhecer a si mesmo é inútil, parece, / Mas sempre diverte um pouco… Coisa assim como um louco que tivesse / Consciência de que é louco.”

“Da inútil sabedoria. ‘Conhece-te a ti mesmo.’ Dessa, agora, / O alcance não adivinho. / Muito mais útil nos fora / Conhecer nosso vizinho…”

 

(Martiniano J. Silva, advogado, escritor, membro do Movimento Negro Unificado (MNU), da Academia Goiana de Letras, IHGGO, UBEGO, AGI, mestre em História Social pela UFG, professor universitário, articulista do DM ([email protected]))

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