Brasil

Os Barbosas Garcia

Redação DM

Publicado em 9 de junho de 2016 às 02:32 | Atualizado há 10 anos

Há, na minha bonita cidade natal, Jataí, muitos Barbosas Garcia, mas me refiro à família Espeto (fonte do apelido me é ignorada). São vários irmãos; dois deles, advogados de prestígio na Comarca: Francisco e Goiano. Ari (ou Ary) e José (Zé), desconheço se  nessa cronológica ordem, os mais velhos, são meus colegas aposentados no Fisco estadual. Flávio, bem mais moço do que eles, também jubilado na Fazenda de Goiás. João é médico. A prole é grande  e se formou em berço materialmente pobre. Na luta para se arrumarem na vida, uns ficaram na “Cidade Abelha”; outros, creio que a maioria, montaram suas tendas em diferentes praças.

Quando era eu criança, os Barbosa Garcia assistiam na Benjamim Constant, perto da nossa casa, na Moisés Santana (Rua São Paulo até 1931, Avenida Brasil a partir de 1956). Essa é a mais recuada lembrança que deles carrego. Corriam os primeiros anos da década de 1950. Não me lembro do patriarca da família e não sei como se chamava. Talvez nunca o tenha visto, pois pereceu nessa época. Fizera-o na capital das Minas Gerais (ou na Pauliceia?), aonde se dirigira, para tratar da saúde, na companhia do Ari(ou do José?). Viajar de Jataí a Belo Horizonte ou a São Paulo, por terra, naqueles dias, era penosa tarefa. Talvez o tenham feito de avião, vez que a “Colmeia” se servia de linha aérea. Livrou-se das dores físicas mudando-se para a Mansão Celeste. Com o coração dolorido pela separação e com ajuda de algum conterrâneo morador em Belo Horizonte (ou São Paulo?), o amoroso filho levou os restos paternos ao túmulo e, sozinho, pegou o caminho de volta ao lar. Plagiando Drumond: “E agora, José?” Ari, e agora? A mãe tinha a resposta: “Arranjem um bom emprego e me ajudem a encaminhar os seus irmãos nos estudos e que não se desviem da virtude.” Procuraram o dr. Serafim de Carvalho, chefe da poderosa oligarquia local, e Serafim lhes abriu portas de excelente emprego. Com as mãos limpas se tornaram exatores, no exercício da nobre função não as macularam e limpas permanecerão. Em síntese, dignificaram a laboriosa classe fiscal de Goiás.

Revejo meu pai, o senhor Joaquim Borges de Oliveira, homem impoluto e destacado lojista, determinando que eu levasse livros exigidos pela fiscalização à Coletoria para serem carimbados. Ary, José e Toniquinho atendiam o público. Não imaginava que, menos de dois lustros transcorridos, eu seria exator. O Fisco me aproximou do Toniquinho JK, a quem dedico sincero afeto. No almoço do seu 90º natalício, minha esposa e eu estávamos presentes. Só lamento não ter discursado, apesar de inscrito. Mas isso foi coisa muita pequena diante da emoção proporcionada pela festa. Foram momentos de recapitulação da promessa do Juscelino, dia 4 de abril de 1955, respondendo ao Tomiquinho, de que a nova Capital da Repúblicaa seria, claro, se eleito fosse, e o foi, a síntese do seu governo. Dia 21 de abril de 1960 o estadista inaugurou Brasília (essa data correspondeu ao 33º natalício do então deputado estadual Luziano Ferreira de Carvalho. No dia da evidenciada promessa, há dois me-ses e quatro dias era o prefeito municipal). Ao júbilo que me ajardinava a alma por causa da festa do Toniquinho se somou a atenção que dr. Francisco e dr. Goiano me dispensaram.

Desde que completei 18 anos militei na UDN do deputado estadual Sídney Ferreira,o principal adversário do Serafim, do imbatível PSD local. Hoje, com mais de 71 janeiros, politicamente sou outro. Moço admirador do Lacerda, ancião esquerdista. Mas essa é outra história. O que pretendo dizer é que a paixão cevada na política pequena me impedia de conhecer os pessedistas Espetos.

Desconheço se todos conseguiram diploma de curso superior, o que sei é que o tempo – pena que esse tempo andou devagar – me levou a admirar, mesmo sem relações próximas, a família Espeto.

Dedico esta à memória de Lauresto Barbosa Garcia, falecido em Cuiabá. Sua viúva é fiscal aposentada de Mato Grosso. Caso não esteja equivocado, também ele, formado em Odontologia, integrava os quadros da fiscalização tributária da terra do Rondon.

 

(Filadelfo Borges de Lima, natural de Jataí, reside em Rio Verde. Autor de vários livros, curso superior incompleto, membro da Academia Rio-Verdense de Letras, Artes e Ofícios. Maçom 33, aposentado no Fisco Estadual)

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