Brasil

Quando vinha o governador

Redação DM

Publicado em 19 de maio de 2016 às 01:49 | Atualizado há 10 anos

Quando era eu menino lá em Jataí, agosto era o mês do cachorro doido, da poeira por causa do estio, dos redemoinhos por causa da ventania e do incremento dos acidentes rodoviário. Aliás, não sei se havia mesmo aumento de desastres de automóveis em agosto, dizia-o, porém, o povo.  Era também o mês de preparação do grupo escolar, do colégio dos protestantes, do colégio das freiras, do ginásio e da escola dos padres para o desfile do Sete de Setembro. Essa  escola dos padres era pequena e dela o imbecil diretor, padre Miguel, me expulsou porque não aceitara ficar de castigo escrevendo, no caderno, esta bobagem: “O bom menino não perde a missa nos domingos e dias santos de guarda”. Isso ocorreu em 1957 e a professora Cidália Vilela foi quem me comunicou, diante de todos os colegas, a decisão do fanático. Era um “educandário” masculino de pequeno porte que ocupava duas salas do térreo do sobrado onde mora o bispo. Teve vida muito curta.

Esses ensaios se davam nas escolas ou no “Largo do Grupo Escolar de Jataí”. O largo evidenciado não tinha benfeitorias e hoje se  chama “Praça Diomar  Menezes”. Com o topônimo “João Pessoa” o dito grupo  fora inaugurado pelo presidente do Estado, Dr. Brasil Caiado, em 1929, na administração do intendente Marcondes Godoy(por volta de 1964 tornou-se topônimo do grupo em pauta). Joaquim Borges de Oliveira, garoto de 12 anos,  saudou o  presidente do Estado. Joaquim,meu pai, veio montar casa de comércio a poucos metros dali, esquina da Benjamim com a Rui Barbosa.

Quando se ouvia, fora de época, som de tambores dos preparativos para desfiles,  é porque o governador visitaria a cidade. Descia no campo de aviação, no alto da urbe, onde está o Corpo de Bombeiros, recepcionado pelas autoridades( algumas de paletó e gravata) e povo. Um automóvel o esperava e ao seu lado se sentava o prefeito. Sem pressa, o carro se endereçava ao centro pela Avenida Joaquim Cândido( mais conhecida por Avenida Aeroporto), seguindo outros carros. Algumas pessoas faziam o percurso em carroceria de caminhão. Alguém soltava um foguete, depois outro, e ao longo dessa rua havia faixas de pano com mensagens no horizontal.

“Jataí saúda seu filho ilustre”. Era o governador José Feliciano. Fosse outro o governador, o ritual seria o mesmo: “Seja benvindo, Dr.Juca”(Juca Ludovico). “Dr. Serafim cumprimenta o senhor governador”. E sobravam  saudações para outras autoridades: “O PSD de Jataí abraça o deputado Luziano”. “Damos boas vindas ao deputado Feliciano” (antes de ser governador foi deputado estadual). O  comboio atingia a Brasil  e se desfazia no cruzamento   desta com a Goiás onde também havia faixas e no palanque, geralmente em frente ao Joquei Cllube, Suas Excelências assistiam à parada e se pronunciavam.

 

(Filadelfo Borges, autor de vários livros, sócio-fundador da Academia Rio-Verdense de Letras, Artes e Ofícios, maçom 33, aposentado no Fisco estadual. [email protected])

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