Réquiem para o poeta do silêncio
Redação DM
Publicado em 4 de maio de 2016 às 00:51 | Atualizado há 10 anosAfirmava Pascal: quando as potências do universo empolgam o homem, torna-se ele poeta ou santo. Diante disso podemos aquilatar a grandeza que vai no coração de ambos.
E foi com base nessa premissa que aprendi a ver, conviver e tentar absorver os ensinamentos que me transmitia o poeta Antônio Carlos Osório, que entre ser poeta ou santo enquanto em nosso planeta, optou pelo primeiro. E era assim que o via. Poeta por inteiro. De coração imenso, casos, crônicas e versos perfeitos. De tantos poemas concisos e outros enigmáticos. A cultura erudita povoava suas palavras, ditas e escritas. E nessa fonte, durante 44 anos bebi da sabedoria que a mim transmitia, em especial quando há muitos anos reacendeu em meu coração o dom da poesia que dormitava desde os tempos de criança e adolescência. Tanto é que no meu primeiro livro de poemas, intitulado Poemas Azuis, presto a ele uma homenagem especial. Ele costumava se despedir de mim dizendo-me: Até breve, poeta do azul…” Vindo de quem vinha essas palavras, enchiam-me de orgulho e vaidade.
Dr. Osório, pioneiro e primeiro advogado de Brasília, além de pioneiro em quase tudo que realizava. Mantinha uma relação estreita com nosso Estado de Goiás, pois tinha como esposa uma goiana valorosa e sempre muito companheira, Natanry Ludovico Lacerda Osório, que a despeito das dificuldades da época, aceitou o desafio e juntos ajudaram a construir a nossa bela Brasília.
Apaixonado pela família, tudo fazia pelos filhos Antônio Cândido, Maria Karla, Maria Cecília, Osório Filho e Diva Maria.
E foi com essa pessoa extraordinária, que sem demérito de tantos outros, considero o maior e mais preparado intelectual que o Distrito Federal conheceu e que por tão cedo outro não conhecerá igual. E foi esse poeta e amigo que escolhi como guia das minhas incursões pelo mundo da literatura.
Nos últimos tempos, Dr. Osório, a exemplo de tantos outros homens sábios, escolheu o silêncio como companheiro do dia a dia. Por diversas vezes tentei decifrar o motivo de tal escolha e só encontrei razão plausível no que disse Albert Eistein: “Penso noventa e nove vezes e nada descubro; deixo de pensar, mergulho em profundo silêncio e eis que a verdade se me revela.”
Talvez a verdade se revelasse para ele de forma que só os poetas conseguem entender. No sublime e indecifrável silêncio talvez tenha passado a observar o comportamento da humanidade. De determinados interesses materiais superando os espirituais. Da falta de poesia que corre à solta nas atitudes humanas. O silêncio a que se impunha, certamente gritava nos seus tímpanos e explodia em forma de poesias nas páginas dos seus livros.
E ele que foi, dentre outros poetas meus preferidos, no último dia 22 de abril, as 17h19, no Hospital Daher, Logo Sul em Brasília, nos deixou.
Mas antes que isso ocorresse, ele cumpriu o último desiderato de um autêntico poeta e sonhador, não morreu sem um aviso prévio aos que lhe tinham no coração. Ele sabia que um poeta não devia morrer assim. E numa espécie de combinação com o Criador da vida, que só os poetas sabem executar, fizeram com que os seus sentidos humanos fossem desaparecendo aos poucos. E assim se preparou e foi se desligando de todos nós, aos poucos, até o suspiro final. Como autêntico que foi, no silêncio das palavras e da alma, aproveitou a oportunidade que a vida lhe deu para apreciar até o último momento as nuances de tudo que lhe cercava. E por isso descansou em paz.
Mas depois dessa partida definitiva, passo a meditar sobre o sentido dos momentos que todos nós com ele vivemos.
Quem um dia não se despediu de uma pessoa amada? De um pai de uma mãe, esposo(a), filho(a), um(a) amigo(a)? Qualquer humana despedida, cada afastamento por ínfimo que seja, nos traz o desconforto de que o tempo não passa, a distância por menor que seja pareça intransponível, mesmo sabendo que mais cedo ou mais tarde essa pessoa retornará.
Mas quando alguém se vai para sempre, aí o sentido do vazio é maior do que a capacidade que temos de entender o mistério da morte, fato que leva tantos a duvidarem até da existência de Deus. Momento em que muitos se esquecem de que Ele nos concedeu o dom da vida e só a Ele cabe subtraí-la
E quando esse alguém que se vai é pessoa que amamos e convive no nosso dia a dia, é como se a natureza desse uma pausa no seu ciclo natural de vida. Nos dias seguintes a essa partida, temos a percepção espiritual ou sensação de que as flores não têm cores e todas parecem murchas, dando a impressão de que nunca mais renascerão. Temos quase a convicção que os poetas não mais rimarão; os cantores se emudeceram; as águas dos rios pararam e tudo perde o brilho e se entristece. É como se o dia se transformasse num eterno crepúsculo nublado, sem aquele sol avermelhado que morre cheio de vida na certeza de renascer em nova manhã.
Quem nunca perdeu um ser que fazia parte de si e com quem dividia as alegrias e tristezas? Acredito que todos nós. Afinal somos humanos, extremamente limitados e nunca estamos suficientemente preparados para esse rompimento físico definitivo, ainda mais quando vem e leva uma pessoa tão íntima e querida. É quando sentimos que o nosso coração, de rio caudaloso e perene, em segundos transforma-se num frágil e tímido riacho correndo para o deserto.
É assim que deve estar se sentindo a família de Antônio Carlos Elizalde Osório, poeta de primeira grandeza e advogado, idem. Homem determinado, pioneiro em quase todas suas ações, coerente com os princípios que orientaram sua vida e, acima de tudo, amigo dos mais humildes. Hoje sentimos falta e saudades das suas conversas informais…
Dr. Osório era daqueles em quem conseguíamos vislumbrar uma alma retemperada pelos percalços da vida, em especial de ordem sentimental (assim são os poetas). Foi, assim, uma pessoa interessante na grandeza da alma e deixa um grande vazio no coração dos amigos e, principalmente, da família.
E tudo isso me força a questionar: quando alguém se vai, quer seja para retornar logo depois ou definitivamente, no caso da morte, podemos aquilatar a saudade pelo tempo ou pela distância?
(José Cândido Póvoa, poeta, cronista e advogado)