Brasil

Rosinha

Redação DM

Publicado em 3 de maio de 2016 às 01:59 | Atualizado há 10 anos

Eu ainda era menino, quando Rosinha chegou ao Duro. E quando Rosinha chegou lá, conquistou o pessoal pelo seu jeito aberto, sua prestimosidade, sua gentileza e sua labuta incansável marcada na pele do rosto queimado do sol nordestino, que fotografava uma experiência de muito tempo.

Cabelos corridos, tez morena – parte, de nascença; parte, do queimor do sol – uma verruguinha escura e saliente perto de um dos olhos, Rosinha exercia o comércio, sem, no entanto, fixar sua mercancia num ponto certo: andava era viajando pelo sertão, no lombo de uma besta gorda e esquipadeira adornada com finos arreios forrados com vistoso pelego, comprando um boi aqui, outro acolá, para revender na rua para os açougueiros mais constantes – Tintino, Zé Té, Anastácio, Pedrinho Açougueiro –, tirando do magro lucro o sustento da família, que Rosinha já chegara ali com dois menininhos-homens e uma menininha-mulher, com menos de 10 anos cada.

A solidão machucava uma coisa ruim lá dentro, e a viuvez gritava por uma companhia para a ajudança de acabar de criar os filhos, que iam crescendo robustos e fortes, mas sem poder contar com a assistência total, porque a luta pela vida deixava Rosinha muito tempo na rua.

Poucos anos após chegar e quando já estava como pessoa da sociedade, estimada por muitos e frequentadoras de qualquer ambiente fino, Rosinha acabou casando-se com gente de uma das mais tradicionais famílias do lugar, terminando com o drama da solidão e encontrando alguém que ajudasse a levar uma vida normal e reconstruir um lar que a viuvez e a arribação de sua terra haviam desmanchado.

Até quando deixei o sertão, passei muitas horas derretendo o tempo em conversas com Rosinha, que sabia histórias de Lampião, de Antônio Silvino e outros cangaceiros, que, com sua feroz jagunçama, semeavam a intranqüilidade no Nordeste inteiro.

Mas Rosinha não sabia apenas casos de jagunço e histórias dos flagelos da seca. Rosinha trazia muita experiência, pois palmilhara muitos cantos do Brasil e acumulara conhecimentos invejáveis.

Enquanto Rosinha batalhava pela vida, seu filho, Ramiro, caçava briga na rua, levando muita gente a ir reclamar contra seu comportamento, pois o menino vivia matando galinha e furtando frutas em quintais alheios, pegando animais dos outros nas roças de pasto e sumindo no mundo, passando até dias escondido, chegando a viajar, por conta própria, para outras cidades, na carroceria de caminhões, e quando Rosinha se assustava era com a notícia de que Ramiro estava aprontando das suas acolá num lugar bem longe.

Enquanto o filho dava dor de cabeça com suas irresponsabilidades de menino, a filha, Rosália, apesar de menina, parecia moça: comportada, risonha sobretudo muito bonita, sabendo arrumar-se e andar na rua sem causar preocupação alguma para Rosinha.

O filho, ao alcançar a idade, Rosinha mandou para o Exército, pois, pelo menos durante o tempo de serviço militar, estava escapo de fazer suas presepadas. A menina, chegando a moça, arranjou um casamento e passou  a viver em Brasília, onde já deu netos para Rosinha, que não teve sorte no segundo casamento e ficou de novo tapeando a solidão com o trabalhar para os outros, pois a separação não lhe dera o direito a ficar com os filhos do segundo leito.

Sempre que ia por lá, tinha de ir à casa de Rosinha bater papo, ficando horas e horas conversando amenidades e escutando os casos interessantes que Rosinha tinha para contar, com um jeito todo seu de narrar coisas interessantes.

Lembrei-me de Rosinha quando apareceu lá em Belo Horizonte, onde eu morava, seu filho, Ramiro, que viera a serviço de seu patrão (que mexia com a compra e venda carros usados), para regularizar a documentação de um caminhão. Boas horas recordei com Ramiro passagens que deram coceira nas nossas gargalhadas: as caçadas de passarinho, as apanhas de caju nas primeiras chuvas, os jogos de bola de mangaba na praçona e as brigas de moleques de rua.

E como não podia deixar, quis saber como ia Rosinha, sempre gente boa que fica na memória da gente. E Ramiro me disse:

– Está mexendo com a compra de bezerros no sertão para Zeca Póvoa.

Mas Ramiro me advertiu que embora todo mundo conheça Rosinha, é melhor mesmo é chamar pelo seu nome de batismo: Rosalino José Rosa.

 

(Liberato Póvoa, desembargador aposentado do TJ-TO, membro-fundador da Academia Tocantinense de Letras e da Academia Dianopolina de Letras, escritor, jurista, historiador e advogado, [email protected])

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