Brasil

Governabilidade

Redação DM

Publicado em 1 de maio de 2016 às 01:07 | Atualizado há 10 anos

O segundo mandato da presidente Dilma Rousseff teve início com um clima tenso no Congresso Nacional.

A estratégia eleitoral equivocada do “vale tudo”, a qual desqualificou adversários e os tratou como inimigos, deixou como sequela um ambiente de terra arrasada, em queo diálogo com a oposição tornou-se impossível.

Na relação com o Congresso Nacional o governo preferiu fomentar a cisão de partidos de sua base de sustentação, em uma tentativa de dividir para governar.

O ambiente de discórdia instaurado serviu apenas para unir contra o governo os opositores antes divididos. Todo esse descompasso decorrente da estratégia eleitoral e da relação com a base dividida, potencializado pelos escândalos das investigações no âmbito da Operação Lava Jato, somou-se à urgente necessidade de reverter os desequilíbrios crescentes no setor elétrico e na Petrobrás, bem como reduzir o elevado déficit fiscal por trás das pedaladas.

A necessidade de uma forte ação corretiva nos preços da energia e dos combustíveis, bem como a adaptação dos programas sociais à realidade orçamentária, fizeram a popularidade da presidente despencar junto com o nível de emprego e arrecadação.

Todos esses acontecimentos levaram a uma situação de isolamento da presidente,ampliado pela percepção da sociedade de que fora enganada sobre a real situação da economia durante o processo eleitoral.

Assim, a população passou a reivindicar o cumprimento do programa ilusório que lhe fora vendido durante a campanha eleitoral.

A partir daí, o programa de ajuste promovido pelo Ministro Levy e, posteriormente, pelo Ministro Barbosa, tornou-se indefensável pela maioria do Congresso Nacional,assim como nas ruas.

Diante de uma dívida pública que cresce explosivamente, o conflito político aprofundou a paralisia decisória que impede o país de enfrentar os seus problemas econômicos.

O risco que corremos éo de nada ser feito. O afastamento da Presidente abre caminhos para a retomada do diálogo entre o Poder Executivo e o Congresso Nacional, indispensável para aprovar as medidas que permitirão a retomada do crescimento e, consequentemente, do emprego.

No entanto, é ilusóriopensar que o novo governo, ao assumir no atual contexto político, terá respaldo para amplas mudanças no ambiente econômico.

Oserros na condução da política econômica, o aparelhamento e o inchaço da máquina pública, a gestão temerária das finanças públicas, o individualismo decisório e as disseminadas práticas não republicanas mostram que há espaço para avanços, embora não no ritmo esperado pela sociedade.

O novo governo terá de ser pragmático e mostrar, logo resultados, escolhendo, entre as muitas reformas de que o país precisa, aquelas de maior chance de aprovação no Congresso e que possam estancar a trajetória perversa da economia.

Por fim, reproduzo palavras de articulista de O Estado de São Paulo: “o novo governante deve ser mais do que um gestor. O gestor, por mais competente que seja, decide apenas o que fazer; o líder motiva as pessoas a desejarem o que precisa ser feito”.

Sem liderança não é possível promover a unidade nacional capaz de acelerar as mudanças que precisam acontecer para a retomada do crescimento e da paz social no país.

 

(Lúcia Vânia, senadora (PSB), ouvidora geral do Senado e jornalista)

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