O retorno de Clovinho ao oriente eterno
Redação DM
Publicado em 1 de maio de 2016 às 01:04 | Atualizado há 1 anoEm 18 de julho de 1928, portanto em época pouco recuada, antes da brisa suave proclamar a chegada da Primavera em Jataí, o lar humilde e venturoso do carpinteiro Pedro Borges da Silva e de sua amada Jerônima Peres da Silva foi agraciado com a chegada de mais um de seus inúmeros rebentos. Para alegria dos pais e demais familiares veio a lume em uma pequena e humilde residência situada à Rua Rio Grande do Sul, hoje Jerônimo Silva e popularmente conhecida como Rua do Sapo, um robusto garoto que recebeu na pia batismal e no cartório de registro civil o nome de Cloves Borges da Silva.
O menino, que também é filho de carpinteiro, cauteloso não se propôs a crescer arrimado na trilogia “estatura, graça e sabedoria diante de Deus e dos homens.” Fê-lo apenas em graça e sabedoria visto que ostentou ao longo de toda a sua vida temporal compleição física diminuta. Embora de pequena estatura física não teve que subir na árvore para ver Jesus, visto que nascido em berço espírita o Mestre já lhe fora apresentado por seu pai Pedro Borges da Silva que figura entre os sócios fundadores do Centro Espírita Allan Kardec da então pequena Jataí, hoje uma hospitaleira e portentosa urbe.
Em tenra idade quando tinha apenas quatro anos fora surpreendido com falecimento inesperado e para nós humanos intempestivo de sua jovem genitora uma risonha promessa que deixou o mundo físico para habitar uma das muitas moradas da casa do Pai. Seu amorável genitor, vitimado por este acontecimento inesperado viu-se compelido a buscar o socorro emergencial de outras pessoas para ajudar a criar seus filhos. A prole numerosa foi entregue a corações generosos de seus amigos e o nosso personagem foi morar com o senhor Joaquim e dona Mariazinha na fazenda Olho D’água, situada no município da Serra do Cafezal hoje Serranópolis, incrustada nas barrancas do Rio Verdinho no Sudoeste de Goiás. Por ter que trabalhar para manter a própria subsistência estudou por pouco tempo em escolas da zona rural.
Em dado momento de sua vida ainda nos albores de sua juventude em companhia de outros jovens da cidade apiária, audaciosa e ousadamente demanda a cidade paulista de Ribeirão Preto e ali permanece por cerca de três anos estudando na EPA – Escola Prática de Agricultura, onde aprendeu a cultivar a apicultura e pode agregar outros conhecimentos ao rico patrimônio de seu aprendizado de alma viajora. De retorno à Jataí sua terra natal, ávido por trabalhar e conquistar com muito esforço pessoal e com as com lágrimas do próprio sacrifício sua independência e assumir o comando de sua própria individualidade aprendeu a honrosa profissão de barbeiro passando a ter compromisso direto com a tesoura, o pente e a navalha. É interessante lembrar até mesmo para fazer deste momento um instante de gratidão ao dom precioso das nossas vidas que o Filho do outro carpinteiro teve igualmente compromisso inadiável com o serrote, a enxó e o martelo.
É forçoso reconhecer que em um determinado momento de sua trajetória o valente e aguerrido Clovinho, jovem forte, corpo esbelto, músculos ágeis e de rara inteligência viu-se irremediavelmente fragilizado e quedou vencido diante da força irresistível do cupido. Ocorre que o nosso ilustre homenageado por volta de seus 23 anos, fora divertir-se em um baile de Santo Antônio e este Santo protetor daqueles que desejam se casar reservou a ele uma grande surpresa. Entre um bolero e outro naquela noite memorável e inesquecível teve a grata ventura de conhecer a bela e encantadora Maria Alves Borges, filha do vendedor de charque Izidório Ferreira Alves e da dona de casa Ricarda Alves de Almeida, que viria a ser mais tarde a sua legítima esposa. Alvorecia o primeiro mês de um ano aguardado com imensas expectativas e alvissareiras esperanças quando, enamorado o casal subiu ao altar e contraiu núpcias a 02 de janeiro de 1951, na Igreja Matriz de Jatai, tida por muitos como a melhor cidade do mundo e nós aqui não discordar ou ousaremos contestar esta cristalina verdade. Casados foram residir na Avenida Goiás nas proximidades da Ford e da Casa Maia.
Desta venturosa, fraterna e harmoniosa união conjugal adveio o nascimento das filhas: Gleide Alves Borges, brasileira, solteira, médica; Gláucia Alves Borges Ferreira, brasileira, graduada em Ciências Contábeis, casada com Djalma Ferreira da Silva; Glauceni Borges Bitencourt, brasileira, casada com Raul Bitencourt; Glaureci Alves Borges Rodrigues, brasileira, que fora casada com Justino Rodrigues e Glaurice Alves Borges, brasileira, solteira e bonita. Oriundos desta prole feminil nasceram: Cloves Neto, Lívia Carolina, Daniela, Gabriela, Cassiano, Kelly, Luciano, Tiago, netos de Clovinho e os bisnetos Sara, Rafael, Fernanda, Davi, Lucas, Luiza e Mariana.
Décadas afora trabalhou e notabilizou-se na honrosa profissão de barbeiro inicialmente trabalhou por longos anos no Salão do Sula antes de ter sua própria barbearia na Avenida Goiás, de onde tirou o sustento para criar sua numerosa e bela família. Embora reconhecido e notabilizado como exímio profissional, um dos melhores, senão o melhor barbeiro da terra do mel, ainda se aventurou como comerciante bem sucedido como proprietário do Lanche Avenida e do Bar Imperador em sociedade com seu irmão Raul Borges da Silva. Sereno e equilibrado nunca se descurou dos princípios norteadores da senda de sua trajetória pelos caminhos da vida imperecível buscando arrimo e seguro abrigo na Ordem Maçônica Universal e na balsâmica e consoladora Doutrina Espírita. Homem livre e de bons costumes, inteligente e perspicaz embora pouco aculturado Cloves por onde passou urdindo o bem e fazendo a caridade deixou a marca indelével de suas muitas andanças pelo caminho do tempo. Bom filho, Pai extremoso e sempre presente, dedicado avô e bisavô, amigo fiel dos seus amigos, excelente marido, Espírita estudioso e de fé inquebrantável, humilde aprendiz e respeitável mestre na sublime Ordem Maçônica Universal, o sempre alegre Cloves Borges da Silva imortalizou-se mesmo foi com técnico de Futebol.
Desportista emérito, entusiasmado e incorrigível torcedor do Clube de Regatas Vasco da Gama do Rio de Janeiro e do Vila Nova de Goiás, notabilizou-se como treinador quando fundou e dirigiu com raríssima competência profissional e como acendrado amor a famosa e vitoriosa do Vasquinho de Jataí. Chegamos a imaginar que no país de futebol ninguém tenha dirigido e devotado tanto amor a um time, quando Cloves amou e fez vitoriosa a equipe do Vasco da Gama da terra do mel.
Inteligente e generoso soube aplicar aos seus comandos a arte da disciplina com extrema amorosidade. Foi na estada deste entendimento que o Vasquinho tornou-se o grande campeão do futebol amador de Jatai. A foto onde aparece o treinador de boina e com a qual ousamos ornamentar este singelo artigo de nossa humilde lavra e formada pelos atletas: Ubaldo, Cabinho e Dorge, Itamar, Nemésio e Dulete, Deneri, Bebé, Pedrinho, Everton e Ruiter, representa uma das melhores formações do Vasquinho, embora com a ausência de Cleomar, Zenildo, Lominho, Neié e tantos outros craques. Segundo suas filhas ele proporcionou à família e, sobretudo a elas além de transmitir-lhes as luzes do Evangelho, todo o conforto material possível ensejando-lhes a oportunidade viver com dignidade. O tempo corria celeremente e a 02 de janeiro de 2002, Cloves decide voltas às origens campesinas e vai morar no sítio de propriedade da família localizado na periferia da bela e hospitaleira cidade de Goiânia que desde há muito o acolheu fraterna e afetuosamente.
Agora no dia 19 de abril de 2016 prestes a completar 88 anos logo depois que o seu e o nosso glorioso Clube de Regatas Vasco da Gama sagrou-se campeão da taça Guanabara, ele decide regressar ao Oriente Eterno. Atendendo a um amorável convite do Pai generoso, de extrema bondade e infinita misericórdia Clovinho, (que na foto aparece de camisa vermelha rodeado pelo afeto aconchegante de família), deixa a vida física e o convívio de seus familiares e amigos e vai habitar uma de Suas muitas moradas deixando, temporariamente, corações saudosos com a presença da sua ausência física. Trazendo conosco a alvissareira esperança e a imensa expectativa de que ele tenha sido acolhido fraternalmente no colo generoso de Maria de Nazaré endereçamos-lhe suaves vibrações de amor e de luz.
(Irani Inácio de Lima, presidente da Associação Jurídico Espírita Cristã de Goiás)
