As marcas do remorso
Redação DM
Publicado em 28 de abril de 2016 às 01:43 | Atualizado há 10 anosO indivíduo que se engane terá muito tempo para se lamentar, mas aquele que mente experimentará o remorso e as suas consequências.
Aquele que sente remorso nunca é uma vítima, principalmente se o remorso que ele sente é fruto de uma mentira que ele proferiu em benefício próprio. O indivíduo cuja mente encontra-se impregnada pelas marcas do remorso, só pode experimentar constantemente o horror e o ódio por um passado que ele queria definitivamente ter destruído e que o perturba incessantemente. É por isso que ele não é um ser melancólico, mas sim perturbado, afinal, sentir remorso é, essencialmente, experimentar na própria intimidade a certeza de ter traído não apenas a confiança de alguém, mas a própria consciência. O homem de remorso experimenta o sentimento agudo do irreparável, ele luta contra um terrível e horroroso monstro que ele mesmo criou.
O homem do remorso não eterniza o passado, ele sonha em apagá-lo, em outras palavras, ele deseja do fundo da sua intimidade que aquilo que foi não tivesse sido. Nesse sentido, ele jamais se livrará desse passado maldito, mas se absorve nele. A experiência do remorso não é uma progressão no caminho do bem e nem um esforço de não recair nas próprias faltas, ela não é, também, em hipótese alguma, uma separação das faltas cometidas no passado e nem o seu esquecimento. É por isso que o homem do remorso é definitivamente um prisioneiro da sua própria falta, um desesperado perturbado pelas obras das suas mãos. Em essência, ele é a sua própria falta, sendo assim, ele se torna incapaz de redescobrir a liberdade e de usar a verdadeira dimensão viva do tempo que é o futuro. Portanto, para o homem do remorso, o que foi feito está concluído e não se pode fazer nada; esquecer não é possível, tentar atribuir-lhe um novo sentido ou um novo valor, não o apaga e nem o corrige; por isso é necessário evitar o remorso, principalmente aquele que surge no homem que mente.
(José João Neves, filósofo, professor da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, UFRB e editor da Griot: Revista de Filosofia)