Supremacia da cultura da esquerda no Brasil
Redação DM
Publicado em 27 de abril de 2016 às 00:36 | Atualizado há 10 anos
Certamente a palavra cultura tem tomado muitos sentidos ao longo de sua história, sobretudo a partir do século XVIII, quando passou a ser melhor vista e objeto não sei de quantos estudos, onde sociologia e a linguística não são exceção. É lógico que, querendo-se ou não, passa por filósofos como Hegel, onde é dialética espiritual; aflora-se em Karl Marx e seus inúmeros seguidores, já na direção “esquerdizante”; Jean-Paul Sartre, na mesma direção, creio no existencialismo, de tantos outros, vira ciência historiográfica da maior importância de notáveis defensores na França, de Fernand Braudel, Le Goff e tantos outros, com grande influência no Brasil, mais especificamente no âmbito universitário; Inglaterra, que só o grupo alinhado com Eric Hobsbawm justificaria, também com enorme influência no Brasil, onde vários são os livros traduzidos no conceito de “Era”, até alcançar a “Era dos Extremos, O breve século XX 1914-1991” (1994), do próprio, dentre outras obras que ajudaram a consolidar na terra de Macunaíma o que estou chamando “cultura da esquerda no Brasil”, onde “lulismo” e alguns outros “ismos”, tendo ou não passado pela cultura da pobreza e da transformação, não podem ser esquecidos.
Seja ainda na Literatura específica de grandes nomes, do Brasil e do estrangeiro (registro só Jorge Amado, Antônio Cândido, Gabriel Garcia Marquez), na economia de tantos e honrados nomes, na filosofia de não sei quantos, no ambiente acadêmico onde as ideologias, estudos e seminários sobre a obra e o pensamento de Karl Marx e seus partidários predominaram; as não sei quantas teses de doutoramento e dissertações de mestrado na Academia, com destaque de São Paulo, mais precisamente a partir da década de 1970, quando os cursos de pós-graduação foram os preferidos nos estudos da esquerda, justificando poder afirmar que o assunto continua em sala de aula, inclusive fora das universidades, não se salvando nem os cursos superiores dos mais distantes brasis, lugares onde, de algum modo, o pensamento marxista chegou com o nome de comunismo, causando verdadeiro pavor e medo, pois teria o dom diabólico de eliminar até criança, entediando a fortíssima carolice brasileira onde religião não pode ser narcótico, nem perigoso “ópio do povo”.
Na América Latina recebeu o nome de “onda vermelha”. Não podem ser esquecidos os Dicionários de política, com Norberto Bobbio, de pensamento marxista, editado por Tom Bottomore, de escravidão, do consagrado e radical Clovis Moura. Honestamente, só devem ser utilizados na justa acepção dos significados que a esquerda lhe dá, lhe confere, enriquecendo a cultura, sobremodo da esquerda, que uma grande parte da população brasileira, às vezes por ignorância, não conseguiu assimilar, quanto mais compreender. Vejam o que o teatro tem feito, com realce o chamado “teatro engajado”, como o Experimental do Negro, fundado por Abdias do Nascimento (1944), no Rio de Janeiro, que tem ajudado, sobremaneira, a desmascarar e até desalienar os obsoletos e refratários lados (verdadeiros anacronismos, em diversos sentidos) em que ainda se encontram muitos brasileiros, sobremodo, os que vivem de costas para o país, tendo a seu favor até democracia digital.
Fundei o teatro experimental do negro em Goiás, há mais de trinta anos, a sair em livro, visando combater o racismo, fato que não tem como se efetivar, sem desmascarar a visão arcaica e inúmeras vezes mentirosa da própria história oficial. Agora estou aqui me lembrando do grande historiador brasileiro Caio Prado Junior, que já em 1933 publicava “Evolução política do Brasil”, tornando-se responsável por um marco na interpretação marxista da história brasileira, a que se seguiu em outras obras onde confirmou o seu ideal marxista, com Formação do Brasil Contemporâneo de 1942, já em várias edições, Revolução Brasileira e outras que só recentemente são objeto de real avaliação e consistente estudo, como: “Caio Prado Júnior: uma biografia política” (2016), de Luiz Bernardo Pericás, mostrando a verdadeira trajetória e coerência de CPJ nesse viés historiográfico da esquerda no Brasil, como a desafiar Gilberto Freyre, de “Casa Grande & Senzala” e Buarque de Hollanda, de “Raízes do Brasil”, ambos da década citada de 1930, também argutos intérpretes do Brasil, porem de acepção político-ideológica completamente diferente, tantas vezes causando polêmicas e explicações do Brasil, às vezes surpreendentes, como “Tolice da inteligência brasileira” (2015), interessante e instigante livro de Jessé José Freire de Souza, mostrando as “reais contradições de nossa sociedade”, num país manipulado pela elite, onde há de tudo, a partir da sempre dúbia visão de que seríamos um povo cordial (Buarque de Holanda).
O que acabo de expor, por certo, tem muito a ver com o que ora acontece nesse país de “Os bruzundangas”, de que já satirizava Lima Barreto. Notem a burundanga que foi a votação do impeachment da presidente Dilma Rousseff na Câmara dos Deputados. Assombrosa representação política a nossa. Nunca se viu tanta invocação, tamanha cretinice, até o invitatório (sem poesia). Nunca se pensou tanto em “controle”, social, eufemístico, pura repressão racionalizada contra negros, índios e demais segmentos oprimidos e protegidos pelo PT. Até Deus foi severamente controlado. Mesmo que desrespeitasse a arte, Machado de Assis, com certeza, escreveria outra Igreja do Diabo. Até cuspe na cara e tortura receberam vergonhosas honrarias. Qual o porquê? Tudo querendo eliminar o governo Dilma, Lula, PT, e pasmem! As ideias teorizadas, sedimentadas e defendidas pela “esquerda” no Brasil. Vi como mais eufórico, odioso e arrogante, certo segmento da oposição, aquele mais intensamente midiático, dessa República que nunca imaginei ser mambembe, admitindo que autoridade do naipe de Eduardo Cunha presida Câmara Federal e pedido de impeachment de presidente da República, democraticamente eleita.
Pelo visto, a oposição, suas direitas do Brasil e o tal projeto neoliberal, desconhecem a verdadeira história do Brasil. Ignoram a seriedade e profundidade dos ensinamentos da esquerda brasileira e estrangeira, nem importa seus ricos vieses na história e noutras ciências. No mínimo, dissimulam ou coonestam a verdade, inclusive a última delas, que é a mais importante, na sabedoria do filósofo Albert Camus. Por isso, decerto, inebriados pelas emoções, sentimento sempre arriscado, continuam fingindo ou não sabem mesmo que “O domínio cultural absoluto da esquerda no Brasil deverá durar, no mínimo, mais 50 anos”, segundo o eminente pensador e filósofo Luiz Felipe Pondé, num oportuno artigo publicado no jornal O Popular, em 18 de abril do ano em curso, onde chega a enfatizar: “A ‘inteligência’ brasileira é escrava da esquerda e nada disso vai mudar em breve. Quem ousar nesse mundo da ‘inteligência’ romper com a esquerda, perde networking”. Não se surpreenda: o artigo se chama “A história do Brasil do PT”.
(Martiniano J. Silva, advogado, escritor, membro do Movimento Negro Unificado (MNU), da Academia Goiana de Letras e Mineirense de Letras e Artes, IHGGO, Ubego, mestre em história social pela UFG, professor universitário, articulista do DM – martinianosilva@yahoo.com.br)