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A missão da cultura

Redação DM

Publicado em 27 de abril de 2016 às 00:30 | Atualizado há 10 anos

Se fal­tam re­cur­sos fi­nan­cei­ros pa­ra vi­a­bi­li­zar o Pla­no Na­ci­o­nal de Edu­ca­ção, com as su­as 20 me­tas, o que di­zer do que se dis­po­ni­bi­li­za pa­ra a re­a­li­za­ção de ob­je­ti­vos cul­tu­ra­is? É mui­to pou­co e ain­da por ci­ma cor­re-se o ris­co de ser me­nos ain­da, se a dis­cus­são em tor­no da Lei Rou­a­net con­clu­ir que ela de­ve ser ex­tin­ta.

A má apli­ca­ção dos re­cur­sos de in­cen­ti­vo não jus­ti­fi­ca a me­di­da ex­tre­ma. Cor­re­ções de­vem ser fei­tas, co­mo evi­tar o apoio a pro­je­tos lu­cra­ti­vos, ca­so do no­tó­rio Rock in Rio, em que o in­gres­so che­ga a cus­tar 250 re­ais. Por que con­ce­der mais 6 mi­lhões de re­ais, via Lei Rou­a­net, à ini­ci­a­ti­va?

Uma con­ver­sa no BNDES com o pre­si­den­te Lu­ci­a­no Cou­ti­nho e o di­re­tor Jo­sé Hen­ri­que Paim foi bas­tan­te es­cla­re­ce­do­ra. Eles re­co­nhe­cem que o se­tor de cul­tu­ra pos­sui um im­por­tan­te pa­pel pa­ra a so­ci­e­da­de bra­si­lei­ra, pois além de em­pre­gar uma quan­ti­da­de sig­ni­fi­ca­ti­va e di­ver­si­fi­ca­da de mão de obra, mui­tas ve­zes tra­ba­lha com sím­bo­los de re­le­vân­cia pa­ra a cul­tu­ra na­ci­o­nal, co­mo o pa­tri­mô­nio his­tó­ri­co na­ci­o­nal, ou de ele­va­do va­lor agre­ga­do, co­mo o seg­men­to de ani­ma­ção.

Lu­ci­a­no fa­la com en­tu­si­as­mo das in­dús­tri­as cri­a­ti­vas, que es­tão se tor­nan­do ra­pi­da­men­te um fa­tor de ge­ra­ção de ren­da e em­pre­go qua­li­fi­ca­do. “A ani­ma­ção, com um fa­tu­ra­men­to de mais de 200 bi­lhões de dó­la­res, é uma im­por­tan­te ja­ne­la de opor­tu­ni­da­des pa­ra o Bra­sil.”

Ele nos con­ta que o BNDES atuou de for­ma pi­o­nei­ra ao vi­a­bi­li­zar a pro­du­ção das pri­mei­ras sé­ri­es de ani­ma­ção na­ci­o­nal em for­ma­to co­mer­cial, pa­ra exi­bi­ção em ca­nais de te­le­vi­são na­ci­o­nais e no ex­te­ri­or. E exem­pli­fi­ca: “Pei­xo­nau­ta”, exi­bi­da em mais de 80 paí­ses; “Ami­gã­o­zão”; “Es­co­la pa­ra Ca­chor­ro” (su­ces­so de au­diên­cia in­clu­si­ve na Ar­gen­ti­na); “Show da Lu­na” (TV Pin­guim), êxi­to do ca­nal Dis­co­very Kids Bra­sil, to­dos apoi­a­dos pe­lo BNDES em di­fe­ren­tes con­di­ções, tam­bém com re­cur­sos não re­em­bol­sá­veis. São em­pre­sas cri­a­ti­vas, com sus­ten­ta­bi­li­da­de eco­nô­mi­ca e ga­nhos so­ci­ais in­dis­cu­tí­veis.

Além da pro­du­ção ci­ne­ma­to­grá­fi­ca, apoi­a­da des­de 1995, há re­gis­tros de in­cen­ti­vo a con­te­ú­dos pa­ra TV, jo­gos di­gi­tais (es­tá na mo­da) e o se­tor edi­to­ri­al, em que o ban­co foi pi­o­nei­ro, até mes­mo es­ti­mu­lan­do a cri­a­ção de edi­to­ras que de­pois fi­ze­ram mui­to su­ces­so. A ori­gem foi o ines­que­cí­vel Pro­li­vro.

Po­de ser ci­ta­do tam­bém o em­pe­nho na cons­tru­ção e di­gi­ta­li­za­ção de sa­las, es­pe­ci­al­men­te em mu­ni­cí­pios do in­te­ri­or. Mas há um ca­ri­nho es­pe­ci­al na res­tau­ra­ção e pre­ser­va­ção do pa­tri­mô­nio his­tó­ri­co bra­si­lei­ro, cons­ti­tu­í­do de mais de 1.100 bens tom­ba­dos. Co­mo é um se­tor de bai­xa ren­ta­bi­li­da­de fi­nan­cei­ra, o ban­co ofe­re­ce re­cur­sos não re­em­bol­sá­veis. Pa­ra se ter ideia da im­por­tân­cia des­sa pre­sen­ça, ve­ja-se que de 2007 a 2014 o BNDES apoi­ou 101 mo­nu­men­tos tom­ba­dos, ago­ra se vol­tan­do pa­ra pro­je­tos que re­pre­sen­ta­vam an­co­ras de de­sen­vol­vi­men­to, ca­pa­zes de di­na­mi­zar o flu­xo de vi­si­ta­ção. “Que­ro o BNDES per­ce­bi­do co­mo um im­por­tan­te ati­vo cul­tu­ral” – afir­mou-nos Lu­ci­a­no Cou­ti­nho, com uma pon­ta de jus­ti­fi­ca­do or­gu­lho.

É cla­ro que não se vi­ve só de in­ten­ções. A ope­ra­ci­o­na­li­za­ção des­ses pro­je­tos se dá por meio do Pro­cult e por edi­tais pú­bli­cos de ci­ne­ma, que se­le­ci­o­nam fil­mes na­ci­o­nais de lon­ga me­tra­gem em di­ver­sas ca­te­go­ri­as. Exis­te uma bem-su­ce­di­da par­ce­ria com a An­ci­ne, pa­ra a cons­tru­ção de sa­las em mu­ni­cí­pios e zo­nas ur­ba­nas con­si­de­ra­das pri­o­ri­tá­rias no Pro­gra­ma Ci­ne­ma Per­to de Vo­cê. As­sim fo­ram en­tre­gues cer­ca de 400 sa­las, além da mo­der­ni­za­ção do par­que exi­bi­dor. Te­mos a per­fei­ta no­ção da im­por­tân­cia des­se apoio, pois há pou­cos anos era do nos­so co­nhe­ci­men­to, na Se­cre­ta­ria de Es­ta­do de Cul­tu­ra do Rio de Ja­nei­ro, que mais de 50% dos mu­ni­cí­pios flu­mi­nen­ses não ti­nham sa­las com­pa­tí­veis com o que se exi­ge da mo­der­ni­da­de tec­no­ló­gi­ca. Is­so tu­do no Es­ta­do que tem a ca­pi­tal cul­tu­ral do pa­ís.

 

(Ar­nal­do Niski­er da Aca­de­mia Bra­si­lei­ra de Le­tras, dou­tor em Edu­ca­ção e  ex-mem­bro do Con­se­lho Na­ci­o­nal de Edu­ca­ção)

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