O significado de uma cusparada
Redação DM
Publicado em 20 de abril de 2016 às 02:11 | Atualizado há 10 anos
É a primeira vez escrevendo para o DM, que vou deixar de falar dos outros para falar um pouco de mim, e assim, fazer uma pequena reflexão com você, querido leitor, sobre o significado de uma cusparada e o peso que isso tem em nossas vidas.
Passei minha infância com medo da escola. Não por causa de professores ou das matérias. Eu adorava, e ainda adoro, estudar. O que me causava medo eram os valentões estilo Bolsonaro, que chegaram a cuspir em mim. Que me perseguiam e faziam piadas por eu ser diferente. Que me ameaçavam de espancamento todos os dias. Ouvia frequentemente apelidos e nomes pejorativos. Era chamado de viadinho, sem sequer entender o que era isso.
Sofri na escola calado, assim como muitos sofrem até hoje, pois tinha medo de contar pros meus pais. Cresci aprendendo que Macho não chora e nem corre pra reclamar na barra dos pais, não apanha calado, não aceita desaforos. Descobri, então, que não era macho já naquele tempo, e não podia envergonhar meus pais com isso. Então, só eu e Deus sabíamos o quanto eu sofria. Sofrer calado por medo da reação de ouras pessoas é uma dor que não desejo a ninguém!
Eu era uma criança, poxa! Não era um pervertido louco, como os bolsominions dizem ser todos os gays. Me refugiava nos estudos, sendo “CDF” e dando mais motivos pro bullying. Passei anos me sentindo mal por ser “algo” sobre o qual sequer tive escolha. Agora eu cresci, sou um homem. E continuo não sendo “macho”! Descobri que tenho direitos, e que não sou mais obrigado a passar por isso, apesar de saber que muitos ainda passam por isso.
Confesso que não fiquei chocado por ver Bolsonaros (pai e filho) defendendo a ditadura e o golpe militar, tendo o primeiro ainda exaltando a figura de um torturador escroto. O que me chocou foi ver amigos e “pessoas de bem” defendendo este crápula. O que me chocou foi ver gente querendo matar o Jean Wyllys por ter cuspido em direção ao fascista do Bolsonaro depois de ouvir ofensas como “veado” e “queima rosca”. Defender torturadores, e xingar alguém de “veado”, tudo bem. Reagir a isso? Jamais!
O que, também, me deixou perplexo foi ver gays e mulheres apoiando um cara declaradamente homofóbico e machista. O comportamento misógino do Bolsonaro não me assusta. Me assusta ver que ele tem muitos apoiadores e defensores. Pessoas baixas que viviam escondendo seus preconceitos e que agora se acham no direito de expô-los. É assustador ver, em pleno século XXI pessoas gritando “morte aos gays”, ou que “lugar de mulher é na cozinha”.
A perseguição que era, até então, velada está cada dia mais escancarada. Enquanto países de primeiro mundo evoluem e já tratam homossexualidade como algo natural (Não! Ninguém escolhe ser gay. Ninguém escolhe ser perseguido e humilhado. A ciência não diz que é escolha, só o seu pastor diz isso!), no Brasil a bancada evangélica aprova leis, forçando todos a viverem conforme a fé deles, mesmo que não a professe. O protestantismo está longe de ser a maior religião do Brasil, mas seus representantes agem no congresso como se fossem a única, e quem não quer viver conforme suas regras, que saia do Brasil. Qualquer semelhança com o Estado Islâmico é mera coincidência.
E a gente vê os efeitos disso quando pais batem em seus filhos para virarem homens. Vê isso quando professores são proibidos de falarem sobre preconceito e aceitação no ambiente escolar, nosso primeiro momento em sociedade, e onde reproduzimos, sem filtros, pela primeira vez, os preconceitos de nossos pais. Vê isso quando dizem que “tudo bem ser gay, desde que longe de mim”. Vê isso quando alguém não consegue uma promoção ou mesmo um emprego, por ser “diferente”!
Cuspir em alguém não é a melhor resposta, não é “civilizado”, mas com fascistas há como ser civilizado? Difícil responder. Mas, como psicólogo, como homem, como “não macho”, eu entendi a reação do deputado Wyllys. Entendi, porque ao ver o deputado cuspir, me senti vingado pelas cusparadas levadas na escola por ser um “veadinho”, por “gente de família”, do nível do Bolsonaro. Me senti vingado por todas vezes que ouvi esses xingamentos calado e chorei sozinho no meu quarto. Não confundam a resposta agressiva de um oprimido com a ação agressora de um opressor. Nem todo mundo vai conseguir passar a vida inteira ouvindo ofensas gratuitas sem reagir.
(Bruno Rodrigues Ferreira, psicólogo, jornalista, palestrante e gerente de atendimento – Twitter: @ferreirabrod)