Sobre os medos que tenho agora
Redação DM
Publicado em 19 de abril de 2016 às 03:29 | Atualizado há 10 anos
Então é chegado o grande dia. O destino do governo brasileiro está sendo decidido nesse domingo, no plenário da Câmara Federal.
Lá os nobres senhores estão votando. Aqui, eu tenho medo.
Sou contra o processo de impeachment, por vários motivos. E tenho certeza que nenhum deles é o que a parcela da população manipulada por um dos lados dessa disputa vai querer afirmar, como se pudessem ler todos os meus pensamentos, e se conhecem, e desprezassem todo os meus valores. Certamente não são os motivos que o outro lado dessa peleja acredita ser. Mas não é isso que interessa agora. Estou aqui para falar dos meus medos, não das minhas crenças e valores.
Uma batalha está sendo travada no congresso nacional, e acontece agora um dos momentos mais críticos e importantes. E lá longe do poder, como estava em toda minha infância, eu tenho medo das consequências. E tenho medo por saber que, não só o destino do atual governo está sendo decidido. Mas os destinos da nação. De todos os brasileiros.
Eu votei na presidente Dilma. Declaro e não me envergonho disso, nem um pouco. Mas confesso. Discordo muito do seu governo. Assim como esperava que o governo Lula tivesse sido diferente. Mesmo assim, achei que fosse a melhor opção. E dentre as opções que estavam postas, ainda acho. Mas concordo, não é o governo que eu gostaria que fizesse. Certamente não pelos mesmo motivos dos liberais que são contra.
Mas, apesar de ser contra sou contra esse processo de impeachment não por defender o governo Dilma, nem por apoiar os atos de corrupção no país. Mas, por tudo que está intencional, e forçosamente, sendo mantido por detrás das cortinas desse horripilante espetáculo.
Não aprovo a corrupção, de forma alguma. Pelo contrário, sou contra toda forma de corrupção, em todos os níveis, e em todos os graus. Também sou contrário à noção, fortemente solidificada em quase todos os meios, de corporativismo, onde não se denuncia os próximos. Para mim, todo criminoso deve pagar por seus atos. Sejam amigos, familiares ou afiliados no mesmo clube.
Quero, melhor, sonho em ver meu país livre do câncer da corrupção. E aprovo todo processo de investigação que busque identificar e punir todos os envolvidos em todo processo de corrupção no Brasil, ou fora daqui.
No entanto, a atual tentativa de impedimento da Presidente Dilma nada tem a ver com combate à corrupção.
Sim, eu sei que muitas pessoas que foram às ruas, e que estão defendendo o processo, tem esse único objetivo. E concordo com eles. Defendo a mesma posição.
Mas essa parcela da população pode ser grande, mas não é a que detêm os meios para decidir. Quer dizer, até detêm, mas ainda não descobriu o poder que verdadeiramente possui, e só age quando manipulada.
Se esse processo de impeachment fosse sobre combater a corrupção, muito mais cabeças estaria rolando em Brasília. Afinal, quantos deputados, senadores e empresários foram citados pelos delatores? Ou apareceram nas investigações? E de todos, de quem os nomes apareceram, estão de fato sendo investigados?
Sou contra a corrupção. Mas preciso reconhecer que a operação lavajato, ou ao menos a forma como ela está sendo tocada, é, por si só, um processo criminoso. Sempre que a justiça agir de forma seletiva, tratando iguais de forma diferente. Ou selecionamos dentre possíveis culpados, apenas aqueles que são os adversários dos investigadores, para serem indiciados, então a investigação está sendo conduzida de forma igualmente criminosa. E é isso que a operação comandada por Sérgio Moro está sendo.
Se esse processo fosse sobre combater a corrupção, boa parte dos nossos deputados e senadores deveriam estar sendo impedidos, a começar pelo ilustre presidente da Câmara, Eduardo Cunha.
Mas não se trata de combater a corrupção. Se trata de tirar o PT do governo.
Eu poderia não ver muito problema nessa intenção, se fosse apenas uma opção pela alternância no poder. Mas não é.
Tirar o PT do poder significa deixar claro uma opção. Significa deixar claro que o Brasil não aprova as propostas de criação de políticas contrárias aos interesses neoliberais (Interesses aos quais eu, declaradamente discordo, e dedicarei toda minha vida para combater, mas enquanto viver em um mundo capitalista, prometo respeitar suas regras desumanas).
No entanto, muitas outras bandeiras estão na arquibancada da torcida pelo impeachment. E é a soma todos elas que fazem gerar em mim todos os medos que sinto agora.
Temo, primeiramente, caso a presidente seja afastada, e o PT retirado do poder, inicie imediatamente um forte trabalho de convencimento de que, “livramos o Brasil da corrupção, afinal o PT foi afastado” e, assim, não precisamos mais dos prestimosos serviços da Polícia Federal nem do Ministério Público, assim podemos desmontar as estruturas criadas recentemente.
E poderemos ver o retorno de uma figura que ficou, legitimamente, conhecida como “engavetador geral da república”. Temos tranquilos aqueles, em que a corrupção corria solta, mas ninguém sabia de nada.
Não vai ser um trabalho tão difícil assim, convencer a população de que o trabalho de combate à corrupção tanto no MP, quanto na PF agora é desnecessário, obsoleto. “Afinal, livramos o país da praga que era o PT. E não temos mais corrupção no Brasil”. Afinal a tentativa em nos convencer de que tudo isso se trata de uma cruzada contra a corrupção” está sendo muito bem feito. Tanto conseguiu convencer boa parte da nós.
E poderemos ver (ou melhor, não veremos, pois, estaremos entretidos com outras idiotices qualquer) o desmonte da capacidade investigativa desses dois órgãos.
Esse é um dos meus medos. Mas apenas um deles.
Temos também as consequências do fato de que poderá sair fortalecida a militância de ideologias defendidas por Bolsonaro e Waldir, que acreditam que tudo se resolve na bala. Que defender a liberdade de homens, heterossexual, branco e possuidor de um mínimo de posses, e fora desse grupo, ninguém tem direito ou merece respeito. Que defendo que, apenas as mulheres consideradas feias não “merecem” ser estupradas.
Temo o fim de todas as políticas ambientais, e de defesa das comunidades originárias ou tradicionais. Pois isso atrapalha o agronegócio.
Temo deixarmos escapar o importante papel na política internacional, que conquistamos nas últimas décadas, que foi sim, consolidada pelo presidente Lula, mas que foi construída ao longo de anos.
Enfim, considero que a aprovação do impeachment de Dilma pode ter muito mais efeitos maléficos do que benéficos para a nação, apesar de beneficiar, grandemente, uma pequena parte da população.
Caso passe na Câmara, espero que nossos senadores reflitam bem.
Caso seja aprovada lá também, espero muito que nós, os brasileiros que desejam o fim da corrupção, não nos deixemos imobilizar pelo irreal bálsamo que será aplicado em todos nós.
(Nazareno de Sousa Santos, escritor, colaborador do Instituto Brasil Central – Ibrace – www.deriva-pi.blogspot.com)