Roberto Carlos em crise de identidade
Redação DM
Publicado em 19 de abril de 2016 às 02:51 | Atualizado há 1 ano
Roberto Carlos é um artista capaz adequar-se a várias personas: o rapaz das músicas agitadas e do frenesi da jovem guarda, o homem romântico que entende do coração das mulheres, o rei – que vendeu mais de cem milhões de cópias de disco em todo o mundo. Na discografia quilométrica do artista, uma faixa que envolve três anos intriga a pesquisadora Maria Lúcia Ferreira. Nesse período isolado, Roberto lança três discos, denominados por ela como ‘Trilogia existencialista’. O que existe de oculto na carreira de uma figura tão escancarada através de tanta intensidade midiática? Roberto Carlos também teve seu momento impressionista, deixando de lado o romantismo para falar das coisas da vida.
O peso do nome de Roberto Carlos alcança o público mais jovem através da simbologia dedicada a ele pela mídia. Quando crianças, deparamo-nos em vários momentos com histórias narrativas que exaltam as monarquias, desenhando um imaginário de ‘rei’ que exala liderança, protege seu povo e representa toda a riqueza, habilidade e inteligência de suas redondezas. A ausência de um Rei do Brasil era explicada por nossos pais com uma simples mudança de termos: no Brasil não existe rei, mas existe o presidente. Por outro lado, trago na atmosfera de minhas memórias a lembrança de dois reis honoris causa, que ao meu ver, supririam a ausência do portador de uma coroa imperial: Pelé, no futebol e Roberto Carlos, na música.

Um comentário pouco polido de uma tia foi o responsável pela aderência de valores positivos que envolviam a aura dos dois reis do Brasil. Ela me disse que caso eu quisesse escapar do serviço militar, teria que escolher entre duas profissões: cantor ou jogador de futebol – como Pelé ou como Roberto Carlos. Os dois representariam para mim, a partir desse comentário, um cacho de profissionais que graças ao prestígio de seus representantes máximos conseguiram, adquiriram o privilégio de não ter que vivenciar as fantásticas e assustadoras histórias de exército narradas pelos pais, tios e avôs. Vinte anos depois, os dois seguem firmes em seus tronos, e continuam sendo reverenciados.
Com o passar do tempo, é claro, essa visão foi distorcida, e somente décadas depois resolvi colocar-me analiticamente diante da obra do Cantor. No inicio, a popularidade estratosféricas do cantor repeliu-me de sua obra. A desconfiança adolescente diante das unanimidades, combinada com a descoberta de nomes menos conhecidos fez com que eu automaticamente o evitasse. Alguns anos depois, soube que no início da década de 1970, Roberto Carlos viveu momentos de inspiração, escrevendo canções de cunho existencialista, falando de traumas, memórias e prestando solidariedade a artistas exilados. De 1969 a 1972, compondo ao lado de Erasmo, Roberto viveu seu momento intimista, acompanhado de um esplendor estético.
Disperso
Ao estudar um pouco a trajetória de Roberto, podemos atribuir a crise existencial criativa ao fim da jovem guarda, movimento cultural brasileiro que explodiu no fim da década de 1950, revelando artistas como Wanderléa e Erasmo Carlos e que durou até meados da década seguinte, quando foi substituída por estilos mais globalizados como a tropicália, ou por uma MPB que abria-se a influências da música pop mundial num momento psicodélico. No artigo científico “Liberdade e engajamento na obra de Roberto Carlos”, a autora Maria Lúcia Ferreira explica melhor a fase do cantor, apontando a ela influências do existencialismo, corrente filosófica que imortalizou nomes como Jean Paul Sartre.

A autora define os discos homônimos de Roberto de 1970, 1971 e 1972 como uma trilogia existencial, baseada na busca por um novo rumo, diante da degradação da ‘jovem guarda’, seu extinto porto seguro. Para defender esse ponto de vista, ela busca evidências em fragmentos de letras, em melodias e até mesmo nas capas. “Roberto não é mais da Jovem Guarda, não encontra seu grupo na MPB e tampouco é um tropicalista. Em vez de meramente repetir a fórmula que o conduziu ao sucesso, suas obras desse período, do final dos anos 60 ao início dos anos 70, indicam uma busca do sentido da vida e de sua própria trajetória, da sua subjetividade individual”, explica Maria Lúcia.
Nesse período, segundo a autora, Roberto Carlos visitou temas delicados, como a lembrança do acidente que amputou sua perna quando tinha apenas seis anos de idade, assunto pouco comentado pelo próprio artista. No último disco da trilogia, o de 72, a canção ‘O divã’ traz os seguintes versos: “Relembro bem a festa, o apito/ e na multidão um grito/ o sangue no linho branco”. Para a autora, a “A psicanálise existencial está de volta com a música ‘O divã’. Novamente as memórias atormentam o presente. As ilusões perdidas da infância, a construção romântica de um passado idílico, com escassez de recursos materiais e pleno apoio emocional na figura dos pais e familiares retornam à consciência, para desespero do personagem”.
Maria Lúcia Ferreira, autora do artigo já citado, define melhor a mudança de comportamento de Roberto Carlos como compositor ao comparar o momento de sua carreira em questão (69-72), com tudo aquilo que veio antes (símbolo da vitalidade, do pop grudento, do ie-ie-ie, da jovialidade) e depois (período predominantemente marcado por temas românticos, que talharam sua imagem atual, o homem sensível, cortês, que distribui rosas e que fala de sentimento como ninguém). “Suas obras desse período, do final dos anos 60 ao início dos anos 70, indicam uma busca do sentido da vida e de sua própria trajetória, da sua subjetividade individual”, afirma.
A fluidez do pensamento de Roberto Carlos diante das novidades da vida e do amadurecimento de sua carreira reflete-se inclusive na arte de capa dos discos do período existencial. Segundo Maria Lúcia, “as capas de 70 a 72 estão em sintonia com a experimentação de significados nas letras das canções, a utilização de estilos musicais menos comerciais do que o pop massificado, criando uma estética própria para a produção daqueles anos”. Tal cuidado estético não se repetiu em outro momento da carreira de Roberto. “Roberto Carlos não se destaca em particular pela criatividade conceitual das capas, os discos em tela são exceção à regra, e merecem ser destacados, nesse sentido”.

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