Falsos dilemas
Redação DM
Publicado em 16 de abril de 2016 às 02:23 | Atualizado há 10 anos
Que eu me lembre foi em setembro de 1966, no Largo do São Francisco em São Paulo, a minha primeira participação em manifestação contra a ditadura: a Setembrada, dia nacional de lutas marcada pela UNE. De lá para cá sempre tive presente na luta contra a ditadura participando inclusive da luta armada como militante da ex-ALN em 1969, como também, das lutas democráticas posteriores, até as duas eleições de Lula e, a primeira da Dilma. Quando da sua reeleição apoiei Marina no primeiro turno e, no segundo, não votei em Aécio, anulei meu voto. Como se vê em quase 50 anos de história da política brasileira sempre me posicionei de forma clara e insofismável no que acreditava ser o lado certo, o das lutas populares e democráticas. Contudo, pela primeira vez durante essa longa trajetória não consigo tomar partido entre os dois lados que hoje estão em confronto: a favor ou contra o impeachment. Tanto um como o outro não me contempla. Conheço uma penca de outros personagens que tiveram a mesma trajetória que tive mas que também se sentem meio deslocados nessa pendenga, não se enredando nesse falso dilema. Mas não são somente parte dos personagens que tiveram militância que se sentem deslocados dessa polarização, acredito que grande parte da população brasileira se sente desconfortável diante dessa situação. Isso mesmo, por que ambos os lados estão cravejados pela crise de legitimidade. Ambos os lados são parte do mesmo problema e, não solução.
O impeachment ou não é pouco. Não tirar a Dilma não é solução, pois não elimina as evidencias rotundas de corrupção, que se não a incrimina pessoalmente, abasteceram com recursos de propina sua campanha, como denunciam vários delatores. Os que acusam de golpismo os que defendem o impeachment se apegam única e exclusivamente as pedaladas, escamoteiam deliberadamente as evidencias de corrupção da Lava Jato. Por isso, na realidade, não cabe se circunscrever no círculo de giz que traçou o Congresso e homologado pelo STF, restringindo o processo contra a Dilma nas famigeradas pedaladas. Isso é um engodo, retirar grande parte da realidade, o que existe de mais contundente da peça acusatória. Mas pode se argumentar que os indícios de corrupção na campanha vão ser julgados pelo TSE e neste caso não cabe considerar. Mesmo não considerando a obra em seu conjunto, o fato mesmo das pedaladas provocarem um robusto desequilíbrio das contas do governo o que, em última instancia, acabou por provocar altas taxas de juros, inflação e cortes drásticos nos programas sociais de governo levando a um verdadeiro descalabro os serviços de educação, saúde e segurança pública com graves consequências nas condições de vida da população, por isso mesmo, passível de crime de improbidade administrativa. A evidente deterioração das condições de vida da população, fruto da combinação nefasta da corrupção com incompetência, não é passível de crime administrativo?
Por outro lado, tirar a Dilma tendo o processo conduzido por um presidente da Câmara, um presidente do Senado e não se sabe ao certo quantos deputados e senadores envolvidos até o pescoço na Operação Lava Jato, fala-se em mais de 50 parlamentares, em um Congresso envolvido em escândalos, também não é legitimo. A crise de legitimidade é ampla e irrestrita. Nunca se viu uma crise institucional de larga escala como essa. Nenhum dos dois lados em disputa, seja lá o vencedor nessa contenda, conseguirá, na realidade ganhar a governabilidade necessária para repactuar a sociedade brasileira. Nem Dilma e nem Temer conseguirão harmonizar o país e retomar a senda do crescimento econômico. Se o Lula está dizendo que se o impeachment for aprovado ele não sairá das ruas, o mesmo o fará os seus opositores se o impeachment for derrotado. Os ânimos não se apaziguarão, seja qual resultado for. Se o impeachment for aprovado resta aos governistas, quem sabe, torcer para que o julgamento que tramita no TSE seja anulada a chapa vitoriosa nas eleições e, assim, convocar novas eleições. Somente, nessa hipótese os governistas poderiam dar o troco em Temer apeando o do poder com novas eleições. Seria escrever o certo por linhas tortas, pois o mais correto nessas circunstancias seria a convocação já de eleições gerais: presidente, vice e para o Congresso.
(Fernando Safatle é Economista- Fernando.safat[email protected])