O amor na contramão
Redação DM
Publicado em 15 de abril de 2016 às 02:43 | Atualizado há 10 anos
Viver com dignidade, viver para amar a Deus e o próximo é uma decisão que custa muito neste mundo em que vivemos. A canção se torna cada vez mais viva, mais atual: “há muita dor por onde piso e o pai herói é humilhado”. Em todo e qualquer canto deste nosso país, o desrespeito, a violência, a injustiça e toda espécie de mal crescem a olhos vistos sem que aconteça pelo menos uma atitude nossa para mudar esse cenário.
Hoje mesmo, fiquei muito emocionado quando vi um jovem trabalhando no “semáforo” sendo humilhado. Chego à Igreja e encontro dezenas de pessoas, vindas de todos os cantos em busca de socorro; necessitadas de tudo: de respeito, de atenção, porque querem continuar vivendo. O que está acontecendo neste país é mais do que vergonhoso, pois,o amor virou consórcio, compromisso de ninguém. Dentre todas as enfermidades, o desamor fere e mata pessoas de todas as idades e classes sociais.
Porque estamos nos tornando tão indiferentes e omissos?
Há, ainda, tanto lamento, tanta angústia, tanto luto e tanta morte sobre a nossa terra; há ainda muitas lágrimas nos olhos das pessoas e, quase todas causadas pela falta de amor ou pela traição do amor. Ama teu próximo como a ti mesmo! É este o verdadeiro princípio social do Evangelho, capaz, se fosse aplicado de verdade, de impedir ou de eliminar o egoísmo e a injustiça. O amor ao próximo, na radicalidade exigida pelo Evangelho, é, realmente, o mais formidável princípio social capaz de superar todo mal.
Recorro à Palavra de Deus e vejo a ousadia, a coragem dos apóstolos, não havia necessitados entre eles, o amor movia-lhes as mãos e o coração a favor do próximo. A vida diz respeito a nós, e não somente a vida humana, mas a vida de todo ser que respira. Cuidar, dar atenção. Pelo menos tentar ajudar e proteger é missão de quem entende que a vida é o bem maior. Confesso que em muitas situações gostaria de não ver, de não me importar, de deixar para depois. Lembro-me agora de duas palmeiras adultas jogadas no chão, na porta de uma floricultura. Senti-me incomodado ao vê-las morrendo, e resolvi parar para perguntar porque aquelas palmeiras morreram ali? A resposta foi a mesma que centenas de irmãos nossos recebem todos os dias, quando buscam atendimento médico: “é muito caro efetuar o plantio”. Arrancá-las e jogá-las ali também não foi caro?
O mais caro mesmo neste mundo é a falta de caridade, de compaixão. Enquanto estou digitando este texto, recebo uma ligação da Agência Prisional, pedindo remédio para um reeducando que é cadeirante. Na central de triagem há também um jovem que sofreu AVC e está com o lado esquerdo paralisado, sem no entanto receber os cuidados necessários, mas a justiça insiste em continuar de olhos fechados.
Percebo que o ser humano, por falta de comunhão com Deus, torna-se cada vez mais desumano, insensível, robotizado, ou seja, centrado em si mesmo. A mídia determina o julgamento e também a sentença. Roubam-nos, diariamente, a capacidade de pensar e de agir com sabedoria, fazendo-nos escravos do whatsapp e companhia limitada. Na verdade, somos alienados de nós mesmos, porque assim determinam as redes sociais: a vida dos outros como notícia, e não mais a própria vida com os pés no chão e o coração em Deus.
Na nossa crise atual, quanta responsabilidade recai sobre os administradores públicos e privados que agem com infidelidade, que ganham lucros exagerados e injustos, fruto muitas vezes de corrupção em prejuízo do povo.
Cuidado! Esses tempos de crise precisam nos acordar para a vida, porque, como diz a canção: “a vida é curta demais e só temos hoje para amar”.
(Pe. Luiz Augusto, Paróquia Santa Teresinha do Menino Jesus)